OPINIÃO
03/10/2014 15:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Gargalhada e preconceito: ninguém se surpreende

Levy Fidelix, presidential candidate of the Brazilian Labour Renewal Party, attends a televised presidential debate in Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, Oct. 2, 2014. Brazil will hold general elections on Oct. 5. (AP Photo/Felipe Dana)
ASSOCIATED PRESS
Levy Fidelix, presidential candidate of the Brazilian Labour Renewal Party, attends a televised presidential debate in Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, Oct. 2, 2014. Brazil will hold general elections on Oct. 5. (AP Photo/Felipe Dana)

A quinta série não termina jamais.

Quem já esteve numa escola sabe como é o cotidiano de quem recebe o rótulo de gay na turma: é humilhado e apanha enquanto os outros riem. Crescer não é diferente. A população LGBT sofre violência frequente nas ruas, às vezes até à luz do dia, sem que ninguém se mova para prestar auxílio. Nem sequer os defensores da ordem, incumbidos pelo Estado para impedir a violência, atuam para defender uma parcela que é alvo preferencial da agressão e da ignorância.

Não surpreende que na política não seja diferente. No debate presidencial que imortalizou a figura de Levy Fidélix, a reação da plateia foi tão estarrecedora quanto o discurso de ódio proferido pelo candidato: gargalhadas. Cada frase embebida em preconceito e rejeição era pontuada pelas risadas de quem assistiu. O candidato bateu e os presentes optaram por uma de duas escolhas: o silêncio ou o riso, ambas igualmente dolorosas para quem se sentiu agredido.

Doeu ainda mais lembrar que aquela não é qualquer plateia. A audiência dos debates é formada por assessores parlamentares, jornalistas das grandes redes, equipes de campanha e representantes dos maiores partidos. Gente graúda se divertiu com a desgraça da minoria. Os grandes operadores do poder escolheram permanecer inoperantes diante da discriminação, coniventes com o crime do político. E omissos, já que, ainda que proferido por um candidato nanico, que teve menos de 60 mil votos na última disputa, continua sendo combustível e estímulo pra quem já tem a ignorância dentro de si. Não é à toa que a principal acusação é incitação à violência.

Assistir a um episódio tão triste certamente teve um significado assustador para quem milita pela causa LGBT e para quem acredita em uma sociedade minimamente igual, que saiba receber a diferença. Significou a apavorante sensação de que estamos sozinhos, de que não há quem nos defenda nem nas ruas, nem nos palácios, nem nos plenários. Reafirmou que o comportamento padrão diante da violência e da discriminação é o silêncio. É a humilhação. É a chacota.

Mas ver a reação de quem ainda acredita que podemos conviver em família estimula a continuar. Ver a perplexidade se espalhar mostra que a sensação de estar sozinho pode ter fim enquanto pudermos, juntos, espalhar concórdia no lugar da ignorância. Ainda tem quem se revolte com a discriminação, quem se comova com a violência. Há quem se emocione com o amor de quem quer que seja. E é nessa companhia que queremos andar.

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