OPINIÃO
23/09/2015 17:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A política de imigração da União Europeia não existe

A foto de Aylan Curdi chamou a atenção do mundo ao mostrar que a Europa precisa humanizar seus planos. Para ACNUR, controlar fronteiras só agrava o problema, já que o fluxo de refugiados continuará intenso no local.

NIKOLAY DOYCHINOV via Getty Images
A migrant man holds his sleeping child as migrants and refugees queue to be registered at a camp after crossing the Macedonian-Greek border near Gevgelija on September 23, 2015. European Union leaders hold an emergency migration summit on September 23 amid a growing east-west split after ministers forced through a controversial deal to relocate 120,000 refugees. AFP PHOTO / NIKOLAY DOYCHINOV (Photo credit should read NIKOLAY DOYCHINOV/AFP/Getty Images)

A cena se repete quase toda semana: um barco naufraga no Mar Mediterrâneo, e centenas de pessoas perdem a vida.

Desde o início deste ano, já foram mais de 2,7 mil imigrantes e refugiados que morreram tentando fazer esta travessia até a Europa.

Conforme a Organização Internacional para as Migrações, mais de 430 mil chegaram ao Velho Continente em 2015. Só na Grécia, a conta chega a mais de 300 mil.

A maioria das vítimas é composta de fugitivos de guerras e ditaduras de países da África e do Oriente Médio.

Enquanto isso acontece, a União Europeia continua batendo cabeça para tentar construir algo que nunca teve: uma política de imigração.

Em 2008, o bloco chegou a ensaiar um plano. No entanto, a medida não era nada humanitária. Segundo um pacto proposto pela França, os imigrantes que entrassem ilegalmente poderiam ser presos por até 18 meses e, posteriormente, expulsos.

A nova administração da UE, que tomou posse no final de 2014, pretende tratar a questão como prioridade e fala na elaboração de uma cartilha comum a todos os governos nacionais.

O texto teria de estabelecer um acordo para a distribuição de refugiados em todo o continente. Mas, na prática, os países querem tirar o corpo fora.

Os membros do norte europeu ainda não estariam dispostos a discutir uma política comum para controle de fronteiras.

Basicamente, eles não desejam abrigar quem chega à Itália, Espanha, Grécia e Malta, que estão no caminho daqueles que usam o caminho do Mar Mediterrâneo.

Providências chegaram a ser tomadas pelo bloco. Em outubro do ano passado, foi anunciada a Operação Tritão, que visa a intensificar o controle fronteiriço na região do Mediterrâneo.

A iniciativa, que será capitaneada pela Frontex (Agência Europeia para o Controle de Fronteiras), substituirá a Mare Nostrum, lançada no final de 2013 pelo Ministério do Interior da Itália com o objetivo de resgatar imigrantes em travessias de risco.

Pelo menos 150 mil pessoas foram salvas em um ano.

Contudo, especialistas e entidades que lutam em prol dos direitos humanos sinalizam que a questão vai além do controle fronteiriço.

O fluxo tem aumentado consideravelmente, e o que é tratado como estatística pelas autoridades ganhou um rótulo mais humano após a morte de um menino de três anos no litoral da Turquia.

A foto de Aylan Curdi chamou a atenção da opinião pública internacional e mostrou que a Europa precisa humanizar seus planos.

Para a ACNUR, a Agência das Nações Unidas para Refugiados, controlar fronteiras só agrava o problema, já que o fluxo de refugiados continuará intenso no local.

O Mar Mediterrâneo é a mais movimentada rota da imigração ilegal na Europa. O local é amplamente utilizado para transportar refugiados de zonas de conflito, especialmente pelo tráfico humano.

A Organização Internacional para Migração (IOM) calcula que mais de dez mil pessoas foram vítimas de contrabandistas somente em 2013.

Segundo a ACNUR, 200 mil tentaram a travessia no Mediterrâneo no ano passado, especialmente da Síria, do Afeganistão e da África Subsaariana.

Mesmo com falta de políticas claras, o continente europeu possui um enorme contingente de estrangeiros. São pelo menos 20 milhões, segundo números da Comissão Europeia.

Por ano, uma média de 500 mil novos imigrantes ingressa no continente.

Contudo, de acordo com a professora Bridget Anderson, diretora do Centro de Migração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford, apenas os "mais inteligentes e qualificados" recebem a devida atenção das autoridades.

São imigrantes de famílias com condições financeiras estáveis, que chegam à Europa para estudar nas melhores faculdades e servir como mão de obra qualificada em grandes empresas.

"Basicamente, fica muito difícil entrar nos países europeus sem comprovar renda. E, mesmo para aqueles que conseguem ingressar na legalidade, pode ser complexo para sobreviver", destaca.

Enquanto isso, as mortes seguem aumentando no Mar Mediterrâneo.

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