OPINIÃO
10/06/2014 13:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A mediocridade é possível

Não sei se por miopia, falta de convicção, oportunismo eleitoral ou se estão vendo algo que eu não vejo, o ponto é que do lado do governo não se ouve falar em ajustes.

Há uma percepção geral no país que o ano de 2015 será um ano de duros ajustes na economia brasileira. Esta percepção vem do fato óbvio e inegável de que o Brasil precisa destes ajustes. Entretanto, entre precisar e implementar há uma grande distância e nada indica que que as reformas aparentemente necessárias serão feitas.

Mantendo a tradição de empurrar com a barriga e evitar decisões mais controversas, o Brasil pode muito bem passar os próximos anos repetindo as políticas atuais, com um remendo aqui e outro ali, sem que nada de mais grave ocorra. Obviamente, nada de muito entusiasmante também ocorreria, e continuaríamos com nossa medíocre performance de crescimento ao mesmo tempo que o ambiente institucional, no que toca seu lado econômico, continuaria descendo ladeira abaixo. Este foi o assunto de artigo que publiquei há duas semanas no Valor em coautoria com o Renato Fragelli, intitulado Ajuste? Que Ajuste?.

Uma pequena discordância entre o Fragelli e eu é por quanto tempo ainda poderemos continuar adiando os ajustes. Eu acho que por muito tempo, o Renato já não iria tão longe. Segundo ele teríamos dois ou três anos, no máximo, para respirar. Meu ponto é que países podem estagnar por anos seguidos ou crescer lentamente sem maiores rupturas, sem que inflação saia do controle ou que se observe algo de muito anormal no ambiente econômico. Por exemplo, entre 1950 e 1980 o produto per capita da Índia cresceu 1,90% ao ano, enquanto que no mesmo período o Brasil crescia a 4.65% (tudo em PPP, dados da Penn-World Table). Em 1950 o PIB per capita indiano era menos de 40% do brasileiro, de modo que tudo mais constante o esperado seria que a Índia crescesse mais rápido. Não foi o que ocorreu. A Índia continuou crescendo lentamente, sem grandes reduções de sua brutal pobreza, mas sem nenhum problema fiscal ou monetário maior. Só foi crescer de forma mais acelerada a partir de meados dos anos 1980 quando introduziu uma série de reformas liberalizantes.

Há inúmeros outros exemplos. A Argentina vem adiando há anos um ajuste inevitável à custa de aumentos de distorções e piora contínua da situação fiscal, das contas externas, da inflação e da pobreza. Mas até agora não virou uma Venezuela, onde as coisas estão claramente fora de controle. Portanto, não há nada que nos diga - e estão aí nossas imensas reservas para garantir - que se o ajuste em nosso país não for feito imediatamente entraremos em uma seríssima crise. Seria bom que fizéssemos as correções necessárias e me parece que esta é uma pré-condição para um crescimento mais robusto. Mas podemos muito bem continuar nesta nossa trajetória medíocre ainda por bastante tempo, sem que a inflação saia muito da meta, sem que nossas contas externas se deteriorem de vez, sem que o déficit público saia de controle, etc., etc.. Acho que isto vai implicar em uma contínua e provavelmente lenta degradação do ambiente econômico que pode sim nos levar a uma crise futura, mas até lá muitos anos de crescimento pífio passarão.

Não sei se por miopia, falta de convicção, oportunismo eleitoral ou se estão vendo algo que eu não vejo, o ponto é que do lado do governo não se ouve falar em ajustes. Talvez usem um modelo onde tudo funcionará bem após pequenas correções. Ou talvez estejam satisfeitos com um crescimento da renda per capita de 1% ao ano.

Texto publicado originalmente no blog Economista X.

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