OPINIÃO
06/06/2015 11:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Duas luas dançam jazz sobre o Planeta Mentira: um relato de parto e gestação

A notícia de que o parto seria em casa chocou, irritou, estarreceu e até revoltou algumas pessoas. Mas conseguimos amolecer com conversa, carinho, compreensão, e no fim das contas todos ficaram muito felizes e orgulhosos com a nossa escolha. Três quilos, cento e sessenta gramas de bebê, mãe com períneo íntegro, recuperação quase imediata.

Pedro Bonifrate

α

Já vínhamos de um fim de tarde com algumas contrações bem irregulares, ora muito próximas, ora muito espaçadas. Nada pior que uma cólica menstrual, segundo minha companheira.

Provavelmente um pródromo - peça que o útero nos prega, horas ou às vezes dias antes do parto, com o bom pretexto de servir como ensaio para o espetáculo final da expulsão.

Mas algo de diferente pairava na atmosfera. A lua nova, somada a outros influxos celestes intangíveis, levou as pessoas ao redor a apostarem que aquele seria o dia. Ora, era a data provável do parto segundo a contagem da primeira ultrassonografia, mas sempre nos pareceu óbvio que isso não seria um fator relevante. Menos de 5% dos bebês nascem na data prevista, e além do mais eu tinha minhas próprias certezas intuitivas em relação à data da concepção, e minha contagem não batia com a oficial.

β

Nove luas novas antes, no oitavo dia de atraso, fizemos o exame num laboratório particular da nossa cidade depois de uma segunda linha fraca e duvidosa num teste de farmácia (não tão duvidosa assim, como veremos). Deu negativo.

Naturalmente, comemoramos a provável continuidade de uma vida pouco regrada e muito regada a cachaças e outras plantas com costumeiros abusos sociais.

Duas circunstâncias me vêm à memória: o concerto dos Supercordas no Festival Tollosa, em Paraty, e a Marcha das Vadias, no Rio de Janeiro. Logo no dia seguinte desta última efeméride subversiva, nenhum sinal de menstruação, repetimos o exame num laboratório do Rio. Dessa vez não deu negativo.

Parêntese: hoje aquele laboratório da minha cidade que errou o teste abocanhou boa parte das atividades de diagnóstico do município, antes públicas e muito melhor equipadas e assistidas, segundo fontes internas. "Parceria Público-Privada", dizem eles.

Não titubeamos muito com as possibilidades, por motivos que talvez não caiba aqui enumerar, mas basicamente porque sentimos que poderíamos levar essa loucura adiante com a nossa então atual conjuntura. Mesmo assim, sempre estranhamos as reações à notícia, por parte de gente próxima, que se punham como celebrações automáticas e entusiásticas da novidade. Dadas as nossas convicções libertárias no sentido do direito de escolha (o das mulheres), preferíamos sempre um "Ah é? Mas e aí? Vão ter?" do que um "Ah, que maravilha! Meus parabéns! É a melhor coisa que pode acontecer a alguém, etc, etc". Sabíamos que não seria um mar de rosas, e que haveria uma mudança de paradigma pessoal bem intensa e difícil.

Logo iniciamos um acompanhamento muito firmeza aqui no posto de saúde de Paraty, do qual desfrutamos até hoje em orientações sobre aleitamento, vacinação e tudo o mais, mas tínhamos um grande pé atrás sobre fazer o parto no único hospital local.

Enquanto isso, nos tornamos estudiosos profundos de toda a bizarra conjuntura obstétrica do Brasil - mais ela do que eu, tenho que admitir, mas eu fui bem na onda. Nossa inclinação sempre foi fugir de ambientes hospitalares e buscar o processo mais natural possível. O parto domiciliar era como uma utopia, logo descobrimos, com a inflação que parece ter acometido parte desse tipo de serviço no Rio depois do filme O Renascimento do Parto (um documentário incrível que transformou a concepção de muitas pessoas sobre a realidade do parto hoje, inclusive a nossa), e com o fato de que não conhecíamos ninguém de confiança aqui na Costa Verde. A ideia de um parto desassistido até parecia corajosa, mas de modo algum nos sentíamos seguros ao ponto de encará-la.

Fomos parar nessa maternidade modelo da prefeitura do Rio, com atendimento humanizado, um histórico interessante de trabalho social com moradores de rua, muitos pontos positivos. Minha companheira teve que ir sozinha à primeira consulta, que foi com uma enfermeira obstetra.

Atendimento humanizado mesmo, duas horas de conversa, papos sobre tudo, "por que o seu companheiro não veio? Sim, mas ele participa muito da gravidez e tudo mais? Que bom, e o que você anda sentindo?", apalpadas, dicas para dores e enjoo, e de repente minha companheira lembra que foi diagnosticada com um prolapso de válvula mitral há uns 10 anos. "Bobagem, né?". "Puts, não! Infelizmente, você é cardíaca, considerada de alto risco e daqui pra frente vai se consultar com a médica". Engole uma boa saliva e pensa, sem muita confiança, "bom, é uma maternidade humanizada, a médica deve ser legal".

Segunda consulta, dessa vez eu consegui ir, médica e estagiária, sem toques, sem conversa, sem levantar o olho do formulário, sem simpatia, sem humanidade, só um "prolapso da válvula mitral, nesses casos, dependendo da gravidade, é indicado fazer uma cesárea, faz o ecocardiograma pra confirmar e volta aqui", manda a estagiária escutar o coração e até o mês que vem. Nunca mais botamos os pés no lugar.

Mas não decidimos isso logo que saímos de lá, só pairava a esperança de que realmente não voltaríamos. Ser carimbada alto risco e só um médico poder acompanhar o parto era um risco que não queríamos correr. Já manjávamos bem como muitos médicos costumam gostar de horários certinhos, do conforto dos bisturis e incisões, e aquela figura parecia exatamente desse tipo.

Depois pesquisamos e descobrimos que uma cesárea costuma ser o procedimento menos indicado pra maioria das parturientes cardíacas. Eis mais um item da longa lista de justificativas tortas para se fazer uma desnecesárea, para além dos mais consistentes (e menos veiculados): chegar mais cedo em casa, não precisar sair correndo de madrugada pro hospital ou pra casa de alguém, não ficar à mercê do imponderável ritmo que cada mulher tem no processo de dar à luz um bebezinho, não ter que sentar no chão e sujar a calça branca, esse tipo de inconveniente que não se estuda oito anos pra ter que encarar. Retornaremos a mais alguns daqueles motivos fuleiros mais tarde.

De qualquer forma, fizemos o ecocardiograma num consultório por aqui mesmo, com um médico boa praça que parecia falar um dos simpáticos e difíceis dialetos da costeira, e nos deu uma pequena aula sobre cardiologia.

Não havia prolapso de válvula alguma. Mas a essa altura, isso praticamente deixou de importar. Através da enfermeira obstetra e amiga que fazia nosso acompanhamento local, ficamos sabendo de uma obstetriz em Ubatuba - experiente, firmeza, barata - chamada Luciana, que fazia parto domiciliar. Marcamos imediatamente uma consulta, e dias depois estávamos varando as curvas da (outra) estrada de Santos no meu QQ vermelho a mil, cheios de esperança e vontade sobre o asfalto que beira o mar e permeia o pedaço mais resistente da nossa moribunda Mata Atlântica.

α

Mas fato é, agora que já o conhecemos como a palma de nossas mãos (ou seja, não muito), que o dia daquele pretenso pródromo foi o dia mesmo! Ou melhor, sua respectiva madrugada.

Pela meia-noite e meia, surgiram contrações mais fortes, bem mais doloridas que uma cólica menstrual e muito próximas umas das outras. Cronometramos por cerca de meia hora e telefonei pra Lu, dizendo também que ela estava bem enjoada e já debaixo do chuveiro quente. "Tô saindo! É TP".

A Lu demoraria uma hora na estrada, e ainda precisávamos partir para a casa da minha mãe, o local combinado pro parto desde o início - maior, mais tranquilo e um bocado afastado da cidade, a casa onde eu cresci, onde experiências lúdicas, afetivas e artísticas transbordam na memória e no devir.

Mas a essa altura eu já questionava a praticidade dessa escolha, porque minha companheira vinha dando pinta de que o processo já estava bem avançado. As contrações eram muito fortes e a dor só aliviava significativamente quando eu apertava com as duas mãos os seus quadris pelas laterais, uma massagem bem difundida, acredito eu, para mulheres em trabalho de parto. Com essa ocupação sendo tão necessária de três em três minutos, achei melhor ligar pra minha mãe e pedir pra que nos buscasse com o carro dela. A descida e o embarque foram aos trancos e barrancos, eu deixei pra trás quase tudo que seria necessário levar e não estava já empacotado no carro.

No percurso até a velha casa, no banco de trás do carro, algum tipo de transe que já havia começado há algumas horas passava a ter o seu auge. Alguns chamam a isso partolândia. Eu não sei do que chamar, mas certamente lembrava algumas viagens de LSD ou afins que eu já tive. Uma leve desorientação no tempo e no espaço, sintomas físicos como a boca seca e dormência atrás da orelha, mas principalmente a expectativa de que algo transcendente, quase sobrenatural, iria acontecer.

β

A Luciana e seu projeto Nascer no ninho nos ganhou nos primeiros 10 minutos de conversa. Considerando que práticas naturebas frequentemente estão associadas a condutas largadonas, especialmente talvez em cidades pequenas como a nossa, é incrível uma pessoa como ela existir.

Extremamente centrada, experiente, atenciosa, profissional e ao mesmo tempo radicalmente alternativa em termos de tratamentos e medicação - praticamente tudo o que ela nos receitou ao longo do tempo podia ser comprado no sacolão ou na feirinha de ervas da roça. Por outro lado, trazia uma vasta experiência, tanto em partos hospitalares quanto domiciliares, quanto no ensino dessas práticas em universidades, e trazia também uma mala-jumbo carregada de todas as parafernálias de emergência, como desfibriladores, oxigênio, medicações diversas, banheira inflável, balança, injeções de vitamina K e tudo mais. Fechamos o bonde com ela, e a utopia do parto domiciliar se tornou um provável futuro.

É claro que num parto tudo pode acontecer, então ela própria nos exigiu um plano B - um destino hospitalar certo no caso de uma emergência. Acabamos decidindo pelo hospital público local, por falta de outra opção mais simples, e botando pouca fé de que seria mesmo necessário.

Exatamente por isso, decidimos não dar mole com nada, no sentido de fazer todos os exames recomendados e mais um pouco, acompanhar o processo de crescimento intrauterino da nossa pequena de todas as formas possíveis.

Ainda assim, como já era esperado, a notícia de que o parto seria em casa chocou, irritou, estarreceu e até revoltou algumas pessoas. "Vocês são loucos! Um bebê não pode nascer assim sozinho sem assistência médica! E se acontecer alguma coisa? E se tiver um problema respiratório? Quem é essa mulher aí? Se acha parteira? Me dá aqui o telefone dela, eu vou ligar pra ela e dizer umas verdades", diz a Médica Corporativa amiga da família.

Verdade é que a conjuntura obstétrica no Brasil é insana e doente. Nossa mortalidade materna não é das maiores do mundo (65 por mil), mas é maior do que a de lugares como o Irã ou o Cazaquistão. Por outro lado, sabe-se que 91% das gestantes fazem acompanhamento pré-natal, um percentual bastante razoável, que demonstra que há assistência.

Por que então a taxa de mortalidade materna é tão significativa, se há acompanhamento pré-natal na grande maioria dos casos? Um estudo muito maneiro publicado recentemente botou esses dados na balança e concluiu que o problema está justamente na qualidade do atendimento pré-natal e na assistência hospitalar ao parto - sua extrema medicalização e a padronização de procedimentos de emergência como a cesariana (somos campeões isolados neste quesito), a episiotomia e a anestesia peridural, que deveriam ser aplicadas apenas quando necessárias, e se tornaram protocolo nos hospitais brasileiros, em especial nos privados.

Esses procedimentos se encontram tão difundidos em meio à classe médica, que manobras tradicionais para resolver problemas típicos em situações de parto normal foram esquecidas pelos profissionais. Circulares de cordão (quando o cordão umbilical está enrolado no pescoço do bebê) ou cefálicas defletidas (quando a inclinação da cabeça do bebê não está boa para a expulsão), por exemplo, viraram alguns daqueles pretextos fuleiros para se fazer uma cesariana, quando parteiras tradicionais e obstetrizes experientes conseguem frequentemente resolver tais problemas com o toque apenas. Pra não falar na episiotomia, um corte no músculo chamado períneo, que vai simplesmente da vulva ao ânus, desnecessário na maioria dos casos em que há boa orientação e paciência, mas hoje difundido como procedimento padrão.

E é sempre bom lembrar que operações médicas como a cesariana são incríveis e de incomensurável importância pra salvar vidas em casos de risco, mas não pra botar na checklist de rotina do parto; e que mães que tiveram que passar por isso nunca serão "menos mães" - essa querela futebolística "parto normal vs. cesariana" é um atraso, foge totalmente ao ponto e não contribui para um debate sobre saúde pública e maternidade consciente. A questão é que, numa cesariana, a recuperação é muito mais demorada, o risco de mortalidade materna é três vezes maior, e aumentam também as possibilidades de complicações em gestações futuras.

Só pra fechar essa digressão conjuntural, tanto a Organização Mundial de Saúde quanto o próprio Ministério da Saúde reconhecem o direito da gestante de baixo risco a realizar seu parto onde bem escolher, inclusive em casa, e sua orientação caminha para a redução de intervenções médico-hospitalares no processo. No Brasil, 98% dos bebês nascem em hospitais, "seguros" de certas eventualidades, por um lado, porém expostos a perigos diversos como infecções hospitalares e talvez o pior de todos: os tais procedimentos medicalizantes, que muitas vezes redundam em violência obstétrica propriamente dita, praticada como algo meramente protocolar.

Voltando à estória, mesmo dentro da família houve alguma resistência, a princípio, que conseguimos amolecer com conversa, carinho, compreensão, e no fim das contas todos ficaram muito felizes e orgulhosos com a nossa escolha.

Tivemos muita sorte de ter esbarrado com a Luciana - até porque ela esteve morando na cidade vizinha apenas durante um ano e, na semana seguinte ao nosso parto, já estava se mudando para o interior de São Paulo, a nove horas de distância. Não teríamos topado um parto domiciliar se ela não tivesse aparecido. As opções neste sentido de que tínhamos notícia por aqui não eram nada confiáveis, e cabe acrescentar que pessoas que fazem parto domiciliar sem licença, sem experiência e sem responsabilidade prejudicam em muito a visão, já desgastada, que as instituições de saúde têm desse tipo de procedimento. Uma obstetriz deve saber até que ponto insistir no parto natural ou, diante de complicações graves, quando transferir a gestante para um hospital ou maternidade.

α

Procuramos nos acalmar, deitar na cama e esperar pacientemente pela Lu, mas tanta calma não parecia possível. O ritmo batia acelerado, e comecei a vislumbrar um parto rápido. Em poucos minutos, entre uma contração e outra, minha companheira balbuciou algo como "eu não vou conseguir, a Lu não vai conseguir chegar", e eu logo associei a demonstração de medo a algo que tinha lido nas pesquisas da gestação. Quando vem o estágio expulsivo do trabalho de parto, o organismo começa a liberar adrenalina, o que ajuda a mãe a ficar ligada e acordada depois dos trabalhos, e o bebê a ser alimentado e levado a um lugar seguro para dormir. Também ajuda a sentir medo.

Hoje minha companheira diz que entrou tão de cabeça no transe da partolândia que mal se lembra do que aconteceu. Naquele momento, todo o estudo sobre o parto acabou se dissipando na mente anuviada e praticamente se perdeu. Ainda bem que eu estudei também, e estava talvez um pouco menos imerso naquele país das fadas - continuava a fazer massagens, apertar os quadris durante as contrações e a acalmá-la com palavras encorajadoras e carinhos.

Admira agora que ela tenha lembrado de uma coisa e me chamado atenção sobre isso - pediu para eu conferir se já se via a linha púrpura, um risco avermelhado que aparece logo acima da linha das nádegas da parturiente, e cujo comprimento pode indicar a fase atual de dilatação. Eu conferi. Estava bem longa e vermelha. Não sei quantos centímetros, porque a brisa não me deixava quantificar minha contribuição, mas ela parecia forte, pulsante e, em outro momento quase lisérgico, praticamente ouvi a linha dizer "olha, estamos bastante dilatados aqui".

Não havia se passado meia hora desde que chegamos ao local do parto e, entre uma contração e outra, minha companheira disse: "quero fazer cocô!" (atenção, acompanhantes de parto! Não caiam nessa! A parturiente quer defecar uma criança e está confundindo um pouco as coisas). Fomos ao banheiro, que fica bem ao lado do quarto. Ela se sentou no vaso, mas logo viu que não era por aí. Minha mãe sugeriu que ela tomasse um banho quente, o que achamos uma boa ideia, nervosos que estávamos com o fato de que a pequena já estava pra sair e nada da Lu chegar.

Foram momentos bem tensos debaixo do chuveiro, ela continuava a manifestar os efeitos da adrenalina e sentiu que algo já estava saindo. Eu toquei com a ponta dos dedos e senti algo liso, macio e cheio d'água - era a bolsa, que não havia estourado, se preparando para sair pelo canal vaginal. Eu já entrava num certo pânico controlado, e me ocorreu que talvez nossa pequena fosse sair ali mesmo. Como um hobbit subindo a montanha, segurei a onda e pensei "bom, que seja!", sentei atrás dela, que nesse momento estava de quatro no chão do box, e me preparei para amparar o bebê a qualquer momento.

Foi quando olhei para a porta e lá estava a Lu com sua calma inabalável e com cara de "o que diabos vocês estão fazendo aí?". Poucas vezes me senti tão aliviado. Ela conseguiu levantar minha companheira daquela posição esdrúxula enquanto eu buscava a mala-jumbo no carro, e fez um toque (único) pra medir a dilatação - estava total!

Chegou a perguntar se queríamos que ela enchesse a banheira inflável, mas achamos que já era um pouco tarde pra isso. "Certeza? Se for pra ser na banheira, dá tempo, a neném segura". Não, ela sentou num banquinho em forma de semicírculo, ideal para o parto de cócoras, eu fiquei sentado logo atrás e a Lu logo à frente. Lembrei de pedir à minha mãe que tirasse umas fotos que, dado o nervosismo, saíram muito tremidas.

Com mais duas contrações, a Iris começou a sair.

Foi muito rápido. Saiu dentro da bolsa, que a Lu estourou agilmente pra que a gente desenrolasse com tranquilidade o cordão umbilical - ele dava duas voltas no pescoço e uma por debaixo do braço. Aquele bichinho-pessoa coberto de vermelho deu um espirro, e logo um grito. Não um choro de desespero diante dos holofotes e do frio da balança, diria Frederick Leboyer, mas aquele pequeno porém necessário grito de liberdade que inicia os trabalhos respiratórios da vida. Toda a dor abandonou o quarto como uma lufada de vento. A pequena veio para o colo da mãe, abriu os olhos e nos fitou com a sabedoria inescrutável de quem acabou de chegar do infinito. Estando por ali, se interessou pelo peito uns meros minutos depois, e mamou meio desengonçada.

γ

Tivemos sorte. O parto consciente durou só umas três horas, com outras dez a doze horas de trabalhos que acreditávamos serem alarme falso, e agora sabemos que não eram. Imaginávamos um grande ritual mantra psicodélico, longo e etéreo, mas no fim foi como uma esquete dos Trapalhões.

Três quilos, cento e sessenta gramas de bebê, mãe com períneo íntegro, recuperação quase imediata.

Todos plenos e saudáveis. Sem intervenções, fora uma singela injeção de vitamina K na mãe após o parto, que ajuda na coagulação do sangue.

Penso sinceramente que deviam ensinar sobre isso na escola. Todo mundo deveria saber que as grávidas podem fazer exercícios respiratórios e podem massagear o períneo para se prepararem para o parto e tornarem as coisas mais fáceis e bem menos dolorosas (inclusive menos que uma cirurgia); que os companheiros podem participar ativamente com um pouco de estudo e com muito carinho, fazendo massagens e afagos, e mesmo racionalizando um pouco as coisas na medida do possível; que as pessoas são equipadas com uma estrutura reprodutiva que funciona e que pode, em circunstâncias normais, realizar todo o trabalho sem grandes problemas, sem necessidade de intervenções farmacológicas ou tecnológicas que possam prejudicar e mesmo traumatizar a saúde do bebê e da mãe; que amamentar não é fácil, mas com orientação e paciência praticamente todas as mães podem fornecer leite aos seus bebês pelo tempo que for necessário.

Todas as pessoas estão ligadas a essa questão de uma forma ou de outra. No mínimo, todas nasceram. Muitas verão seus filhos nascerem, ou os filhos de seus irmãos e amigos. É um tipo de conhecimento muito mais pertinente a ser formalizado e difundido através das nossas escolas do que os nomes e fórmulas de enzimas do sistema digestivo ou operações com números complexos e imaginários.

Recursos da medicina, incluindo a cesariana, podem ser incríveis para resolver complicações e salvar vidas em risco, mas seu emprego generalizado só faz sentido (se faz) no universo das margens de lucro da indústria farmacêutica, dos planos de saúde e das instalações hospitalares; no processo histórico de monopolização violenta das práticas de gestação e parto pelos setores técnicos e clínicos da sociedade patriarcal capitalista. E o Brasil está na frente.

Antes de ficarmos grávidos, lembro de um amigo de Facebook compartilhar um pequeno texto que ridicularizava de leve, com "bom humor", a crescente "paranoia do parto natural" - como se houvesse um policiamento excessivo das mães naturebas em relação a procedimentos hospitalares e ao direito ao parto cirúrgico. Ele comentou, com ironia, "mãe ativista: uma invenção do século XXI".

Sim! Uma das melhores, eu diria.

A esfera da maternidade consciente e ativa tem um grande potencial de contribuição ao pensamento e às práticas feministas, antiproibicionistas, libertárias de hoje em dia. Sua abrangência é inegável, seus efeitos podem ser revolucionários e sua situação está à beira do abismo.

Mas novos sinais de fumaça sobem por detrás dos muros eletrificados de uma hegemonia usurpadora sobre o nascimento. Há uma resistência, que cresce a cada ano que passa, personificada de alguma forma em Iris e em todos os bebês que tem sua existência e seus sentimentos respeitados e dignificados por novas mães ativistas, pais-mães ativistas, profissionais de mente aberta e quem mais se nega a seguir a trilha das setas luminosas rumo à distopia do Monty Python e o Milagre do nascimento. Que preferem tatear as superfícies em busca de boas tradições esquecidas e de novos caminhos mais simples.