OPINIÃO
31/03/2014 09:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

50 anos do Golpe e os filhos da democracia

Esse desajuste (entre a sociedade do século 21 e o sistema político do século 19) é comum a todas as democracias de hoje. Mas poucos países tem essa oportunidade - que o Brasil tem - de ter uma democracia consolidada, mas ainda em construção.

2014 marca dois aniversários que nos fazem pensar sobre a democracia brasileira. O mais falado, sem dúvidas, é o do Golpe de 1964. 50 anos. Mas há outro que merece ser lembrado. São 25 anos da primeira eleição para Presidente na Nova República.

Aquela eleição foi algo impressionante. É sempre bom voltar e olhar aqueles debates de 1989, sobretudo os do primeiro turno, mediados pela Marília Gabriela, com todos aqueles candidatos. A parte que eu mais gosto é o momento em que a mediadora passa a palavra para o Ex-Vice Presidente Aureliano Chaves e ele, um pouco atônito, responde: "eu vou falar ou vou perguntar?"

Aquele é um episódio incrível, pois ele é um exemplo da inexperiência dos brasileiros, naquele momento, com o debate democrático. Ninguém sabia como se portar, como interagir.

25 anos depois é preciso reconhecer que nossa demcoracia está em outro patamar. Mas é preciso reconhecer isso com o cuidado para compreender os avanços, os riscos e as oportunidades para o futuro.

Temos, pela primeira vez na história do Brasil, uma geração formada politicamente na democracia. E essa é uma geração que tem a missão de criar o verdadeiro debate democrático no Brasil.

A geração anterior. A que está hoje no poder é a geração que conquistou a democracia. Temos que ser muito gratos a todos que lutaram por isso. Mas não há como negar que se trata de uma geração que se formou politicamente na guerra fria. Em um contexto onde adversários políticos eram inimigos. Matar, morrer, prender, ser preso eram categorias que eram partes necessárias da vida política.

Não é tarefa fácil estabelecer um espírito verdadeiramente democrático em um país governado por pessoas que se formaram politicamente neste contexto.

Se somos verdadeiros democratas, devemos acreditar que o ambiente democrático deve conseguir formar uma geração mais apta à democracia do que a ditadura.

Não se trata de ser ingênuo de se imaginar que a democracia resolverá todos os problemas. Mas um debate genuinamente democrático, com um engajamento público que reconheça o outro como alguém que tem ideia legítimas, é algo que a atual geração tem a missão de tentar construir no Brasil.

Há ameaças e oportunidades para isso no Brasil de hoje.

Uma das grandes ameaças vem da internet. A lógica do debate nas redes sociais atualmente vai nos confinando em grupos fechados de interesses, em que conversamos com pessoas que compartilham de nossa opinião, radicalizamos nossos argumentos, provocando um debate nada construtivo nos pouco momentos em que nos deparamos com o diferente.

Entre "petralhas" "privatarias" e outros adjetivos pouco construtivos, vai se despedaçando o ambiente propício para o debate.

Mas é também da internet que podem surgir oportunidades sensacionais de aprofundar a democracia no Brasil.

Junho nos deixou claro que há uma distância gigantesca entre as expectativas das pessoas e a capacidade das nossas instituições para lidar com isso. As pessoas se conectam de uma forma nova, sem a necessidade das mediações tradicionais para expressarem suas vozes. Mas nosso sistema político ainda está ancorado em estruturas do século 19, construído a partir de outra sociedade.

Esse desajuste (entre a sociedade do século 21 e o sistema político do século 19) é comum a todas as democracias de hoje. Mas poucos países tem essa oportunidade - que o Brasil tem - de ter uma democracia consolidada, mas ainda em construção.

As inovações das estruturas democráticas, que possibilitarão a utilização das novas tecnologias para mudar completamente a interação entre cidadãos e o poder, não virão nem dos EUA e nem da Europa. Democracias que, de tão consolidadas, enrijeceram.

A América Latina, e o Brasil particularmente, tem uma posição única no mundo no sentido de se afirmar como liderança na inovação democrática. Essa inovação deve ser capitaneada pela geração democrática. A geração que não precisa mais ter inimigos e pode interagir de forma a produzir um futuro plural.

O Marco Civil da Internet, aprovado na Câmara enfrentando lobbies poderosíssimos, foi o primeiro projeto do mundo construído em um debate colaborativo pela internet. Esse é apenas o começo das possibilidades de uma nova democracia.

Essa democracia vai se construir na disputa com os golpes cotidianos sofridos pelo radicalismo produzido pelos debates nas redes sociais.

É este o grande desafio da geração filha da democracia: a utilização da tecnologia para radicalizar processos que permitam aos cidadãos interagir cotidianamente com os governos e não radicalizar debates de forma a desanimar os cidadãos a participar da vida democrática.

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