OPINIÃO
23/01/2015 11:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

7 chaves para entender as eleições na Grécia

Às 19h de domingo, quando as urnas estiverem fechando na Grécia e as primeiras pesquisas de boca-de-urna forem divulgadas em Berlim, Bruxelas, Londres, Frankfurt e Nova York, todos os responsáveis por decisões políticas e financeiras - e as pessoas que os ajudam na tomada das decisões - estarão de olho nas telas de seus computadores, prontos para ler e interpretar os números.

Não há como negar que as eleições gregas sejam um evento global, cuja importância transcende as fronteiras do país. A importância reside no fato de que essas eleições são parte de uma série de eleições críticas na Europa, das britânicas, em maio, às espanholas, em novembro.

A Grécia foi o primeiro país da zona do euro a atravessar uma crise econômica. Foi também o primeiro país a receber a receita básica da União Europeia para curar a crise: a receita da austeridade. Portanto, a Grécia será o primeiro país a revelar as consequências políticas desse plano, cujo resultado ameaça criar uma longa deflação e um desânimo generalizado dentro da ONU. Observar essas eleições de longe levanta uma questão: será que a reação dos gregos à austeridade e suas consequências, a despeito da eleição, vai abrir uma nova crise europeia? Ou vai representar os primeiros passos de uma solução?

Antes de tentar responder essa pergunta, precisamos entender os resultados da eleição. Eis alguns pontos-chave.

Primeiro: o vencedor. Segundo a lei grega, o partido vencedor, mesmo que por um único voto, recebe um bônus de 50 cadeiras, num Parlamento de 300. Portanto, mesmo que o partido vencedor não acumule a maioria dos votos, o Parlamento não consegue formar uma maioria sem sua ajuda. Segundo as pesquisas do mês passado, o Syriza estava na liderança.

Segundo: a porcentagem dos votos recebida pelo Syriza.Partido nascido em 1991, logo depois da saída do Partido Comunista da coalizão Esquerda Unida, o Syriza tem origens em ideais da esquerda democrática e passou por duas grandes transformações até hoje. A primeira foi em 2004 , quando incorporou outros partidos menores de esquerda -- e o espírito rebelde das organizações antiglobalização, adotando um discurso mais "radical". A segunda e mais importante transformação aconteceu em 2011 quando o Syriza se tornou o principal representante dos gregos que protestaram enfurecidos contra as políticas de austeridade. Portanto, um partido que representava de 3% a 5% dos eleitores em 2009 chegou a 27% em 2012 e pode passar dos 30% na eleição de domingo. Mas qual é sua verdadeira força eleitoral? O partido consegue ultrapassar os 35%, para obter a maioria no Parlamento?

Terceiro: a soma dos dois maiores partidos. Desde o início do século 20, a Grécia é um país com forte tradição de bipartidarismo; nos últimos 40 anos, cresceram os conservadores da Nova Democracia e os social-democratas do Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok). A queda do Pasok e o declínio da Nova Democracia levaram a uma difusão do eleitorado. Agora, se os dois primeiros partidos, Nova Democracia e Pasok, conseguirem atingir porcentagens acima de 65%, se confirmará uma nova forma de bipartidarismo, enquanto o Syriza vai representar uma nova força política de longo prazo, não apenas um partido temporário, de protesto, como afirmam alguns analistas.

Quarto: a participação dos eleitores. Em 2004, 7,5 milhões de gregos foram às urnas enquanto em junho de 2012 o número mal chegou a 6 milhões. As pesquisas indicam que metade dos eleitores não está filiada a nenhum partido. Quantos votarão no domingo? Esse fato pode não só determinar o resultado da eleição, mas também apontar para o futuro do novo equilíbrio de forças políticas.

Quinto: a resistência dos partidos menores e mais ao centro. Se os partidos menores e mais ao centro, entre a Nova Democracia e o Syriza (como Potamo, Pasok e o novo partido de Georges Papandreou), se envolverem na polarização e participarem do novo Parlamento, as chances do partido ganhador obter a maioria é zero. Se não, o partido mais votado será capaz de escolher parceiros para formar uma aliança de governo.

Sexto: a força da extrema direita neonazi. O Aurora Dourada foi um dos vencedores da política de austeridade na Grécia. Ele tinha votações insignificantes 0,29% em 2009; de repente, teve 9,4% nas eleições europeias do ano passado. Essas eleições são um teste de resistência do núcleo do seu eleitorado em bairros pobres de Atenas e Piraeus, onde os índices de desemprego passam dos 30%. Portanto, é parte da ameaça às instituições democráticas.

Sétimo: o presidente da democracia. Antes de formar um novo governo, o novo Parlamento tem de eleger o presidente, algo que o último Parlamento não conseguiu fazer. Se essa eleição acontecer dentro do consenso e da maioria, será um sinal de que, qualquer que seja o vencedor, o novo governo poderá seguir em frente em um clima menos competitivo do que a Grécia tem visto nos últimos cinco anos. Se não...

Vamos voltar à questão inicial: será que as eleições gregas vão reviver a crise do Euro e ameaçar a Grécia de expulsão da UE - ou até mesmo precipitar o fim da União Europeia? Será que as eleições são motivo para uma correção de curso mais ampla, com menos austeridade e mais crescimento?

A maioria dos analistas europeus chega à seguinte conclusão: a Europa está lenta mas inevitavelmente se voltando a políticas econômicas soberanas; Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, é o líder dessa primeira fase. Se, portanto, o novo governo grego tem a sabedoria e as competências necessárias para sincronizar suas demandas e negociações com o timing dessas mudanças, existem chances de sucesso político. Os perigos iminentes estão em uma incapacidade inerente de se ajustar.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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