OPINIÃO
17/04/2015 11:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

10 perguntas sobre Verônica Bolina

Os indícios de tortura sob tutela do Estado são tão claros que o caso assume proporções ainda mais sombrias após a divulgação de uma gravação, possivelmente obtida sob constrangimento, na qual Verônica afirma não ter sido submetida a maus-tratos na prisão.

montagem/reprodução

É chocante a imagem da travesti Verônica Bolina sentada no pátio de um presídio de São Paulo com as mãos algemadas, o rosto desfigurado e os seios de fora. O episódio coloca em evidência uma série de abusos da polícia e uma nítida percepção da condição de extrema fragilidade à qual os transexuais de ambos os gêneros são constantemente submetidos. Os indícios de tortura sob tutela do Estado são tão claros que o caso assume proporções ainda mais sombrias após a divulgação de uma gravação, possivelmente obtida sob constrangimento, na qual Verônica afirma não ter sido submetida a maus-tratos na prisão.

Verônica é acusada de agredir uma vizinha. Conduzida à detenção na última sexta-feira, teria se envolvido em uma confusão na cela e, durante a briga, ferido a dentadas a orelha de um carcereiro. Nada disso serve de amparo legal ao constrangimento e à violência exibidas na foto. Amplamente compartilhada nas redes sociais, ela não foi usada neste post por respeito à integridade da vítima. Ficam as perguntas:

1. Por que Verônica foi colocada numa cela com outros homens, quando a lei lhe garante a detenção em cela individual ou com outros transexuais?

2. Por que Verônica foi despida e mantida sem blusa na carceragem?

3. Como foi feita e divulgada a foto de Verônica com seios à mostra, num momento em que a retratada estava sob custódia do Estado? Verônica teria sido humilhada por sua dupla condição de negra e travesti?

4. Por que não foi permitido a Verônica preservar suas roupas de mulher e sua peruca ao ser presa?

5. Como Verônica teve seu rosto desfigurado?

6. Imaginando-se que Verônica teve de ser contida em nome da ordem, a força usada contra ela foi apenas a mínima necessária para contê-la?

7. Em que circunstâncias foram obtidas as gravações em que Verônica afirma não ter sofrido violência na prisão, uma vez que, dias depois, relatou os maus-tratos para representantes de entidades de Direitos Humanos e de ativismo LGBT que foram lhe visitar?

8. Tem sustentação legal um depoimento em áudio obtido (e divulgado!) por uma autoridade do governo do Estado, numa conjuntura em que a vítima permanecia presa, sob coerção, e sem a presença da defensoria?

9. Cabe à autoridade policial punir (física e psicologicamente) um acusado, qualquer que tenha sido seu crime, atropelando a Justiça, o processo judicial, o direito à defesa e, sobretudo, o resultado do julgamento?

10. Teria acontecido tudo isso se Verônica não fosse travesti?

SAIBA MAIS:

- #SomosTodasVerônica: Travesti tem o rosto desfigurado dentro da prisão e gera discussão nas redes

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