OPINIÃO
28/09/2018 09:27 -03 | Atualizado 28/09/2018 09:27 -03

Por que eu, você e Anitta devemos nos posicionar

Escolher não se posicionar é escolher a omissão, favorecendo que outros grupos decidam sobre a sua vida.

Mauricio Santana via Getty Images
Anitta é cobrada por fãs para se posicionar contra Jair Bolsonaro.

Antes de tudo, é importante dizer: somos cidadãos políticos. Por isso, todos nós, pessoas públicas ou não, temos o dever de nos posicionar diante de tudo que gere ou motive preconceito, desrespeito e ameaça à liberdade dos cidadãos.

Se o vizinho está espancando a esposa, é nosso dever chamar a polícia e evitar um crime de feminicídio. Se um uma pessoa negra recebe ofensas racistas, é nosso dever se impor contra, dar apoio à vítima e denunciar um crime racial. Se um casal homossexual está sendo perseguido na rua, é nosso dever defender a sua integridade física.

Se um homem com ideais autoritários, violentos e contrários às liberdades mais básicas dos cidadãos tem pretensões de governar o País e executar uma agenda política que coloca em risco a democracia, é nosso dever se insurgir, bradar e lutar pelos direitos de todos.

Posicionar-se politicamente, portanto, é mais um dever do que um direito. Isso porque uma sociedade só consegue alcançar paz, justiça e bem-estar quando os seus cidadãos entendem que não existe uma sociedade apolítica e que as atitudes de cada um importam.

Logo, tudo o que os cidadãos pertencentes a essa sociedade fazem — desde escrever um textão no Facebook criticando o governo até poder decidir se irão rebolar a bunda hoje — é um ato político. Escolher não se posicionar é escolher a omissão, favorecendo que outros grupos decidam sobre a sua vida.

Quem tem um palco tem uma responsabilidade ainda maior.

A cantora Anitta fez o seu único e tímido posicionamento nesta campanha eleitoral somente após as críticas à sua falta de engajamento alcançarem um patamar perigoso para quem pretende ser uma das principais cantoras do País. Contribuiu também para o seu posicionamento o desafio feito pela cantora Daniela Mercury, convidando Anitta a usar e compartilhar a #EleNão. Mas parou por aí.

Pessoas públicas possuem o privilégio de falar às massas e de amplificar vozes de grupos que historicamente foram silenciadas. Então, Anitta, se antes de ser artista você é uma cidadã, é seu dever utilizar sua força de visibilidade para lutar pela causa que diz defender, a qual, coincidentemente, é a mesma causa daqueles te seguem e que legitimam sua arte.

Essa responsabilidade deve vir à consciência não somente de Anitta, mas também de todos os artistas brasileiros que, diante de um cenário de iminente ameaça às liberdades individuais, preferem se reservar ao silêncio, aproximando-se de uma ideia de Jovem Guarda contemporânea altamente midiática e tristemente esvaziada politicamente.

Não estamos aqui querendo dizer, por exemplo, que Beyoncé é uma artista mais ou menos "diva" ou "lacradora" só porque vem, nos últimos anos, dedicando o seu trabalho à denúncia das políticas e da cultura que matam e empurram a população negra norte-americana para a marginalidade.

Não estamos aqui querendo dizer, por exemplo, que Madonna e Lady Gaga sejam artistas mais ou menos "divas" ou "lacradoras" só porque utilizam ou utilizaram o seu trabalho como ferramenta de promoção à liberdade sexual, liberdade feminina e apoio à população LGBT, carente de referências que comprassem essa briga sem medo da indústria.

Longe de entrarmos numa discussão simplória de quem merece o título de rainha "da porra toda". Até mesmo porque poderíamos ainda citar inúmeros outros exemplos de artistas nacionais e internacionais, dos mais variados estilos musicais, que, em algumas épocas, inclusive, colocaram a própria vida em risco em prol da nossa liberdade.

Estamos querendo dizer somente que esses artistas compreendem melhor o seu papel como cidadãos responsáveis por impactar e ajudar a construir um mundo com mais direitos e menos omissões.

Nosso posicionamento não é só contrário a um candidato à Presidência, tampouco somente às suas questionáveis propostas para a economia. É contrário a uma cultura antidemocrática, violenta e machista, a qual ele representa e dissemina. É uma cultura que ganhará legitimidade política caso o candidato se torne presidente do País, tendo como consequência uma onda popular de perseguição, banalização da violência e afundamento do País nas mais tristes estatísticas de desrespeito a direitos fundamentais.

Independentemente de sua ideologia política, independentemente de dar Ciro, Marina ou Haddad, ser contra Bolsonaro é um dever e um favor ao futuro do País.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.