OPINIÃO
06/04/2015 14:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Matam-se negros e pobres em nome da falida política antidrogas

Não podemos achar normal cidadãos morrerem diariamente vítimas de tiros de fuzil disparados a esmo porque - fazer o que? - há confrontos entre policiais e bandidos nas favelas. Quantos ainda vão morrer? Afinal, será que não foi possível perceber que a política de guerra e enfrentamento se mostra cada vez mais ineficaz? Para o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, parece que não:

O pré-feriado de Páscoa começou com crucificações no Rio de Janeiro. Em pouco mais de 24 horas, sete moradores foram alvejados por tiros no Complexo do Alemão, na Zona Norte da cidade. Desses, quatro perderam a vida em nome da fracassada política antidrogas do Governo Estadual. Mais quatro que, agora, integram a nebulosa estatística oficial de mortes em meio aos rotineiros confrontos entre policiais e bandidos dentro das favelas cariocas.

Uma das vítimas, Eduardo de Jesus tinha apenas 10 anos e esperava a irmã retornar do trabalho sentado em frente à sua casa quando, de repente, um tiro de fuzil dilacerou o seu rosto. Testemunhas afirmaram que o tiro partiu da arma de um policial militar. Em entrevista ao Portal G1, a mãe do menino contou que foi ameaçada pelo PM ao interpelá-lo sobre o ocorrido:

Eu marquei a cara dele. Eu nunca vou esquecer o rosto do PM que acabou com a minha vida. Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei "pode me matar, você já acabou com a minha vida".

Não podemos achar normal cidadãos morrerem diariamente vítimas de tiros de fuzil disparados a esmo porque - fazer o que? - há confrontos entre policiais e bandidos nas favelas. Quantos ainda vão morrer? Afinal, será que não foi possível perceber que a política de guerra e enfrentamento se mostra cada vez mais ineficaz? Para o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, parece que não:

"As nossas forças de segurança vão continuar enfrentando a criminalidade. E o Estado também, se preciso, vai continuar cortando na própria carne para perseguir esse objetivo. Não vamos recuar diante da covardia de criminosos".

Já na sexta-feira, o Governo do Estado divulgou uma nota informando sobre a possibilidade da reocupação do Complexo do Alemão pelo Exército. Ou seja, prova de que o trabalho realizado nos últimos cinco anos na região falhou. Por isso, é indubitável que o Estado age de forma leviana e despótica ao insistir na manutenção das forças de segurança nas favelas, colocando a vida de pessoas inocentes em risco e levando imprevisibilidade à rotina desses moradores.

E o pior são os que, sem nenhuma empatia, aplaudem incursões violentas em regiões historicamente desamparadas, contribuindo para a banalização da vida de negros e pobres. Nessas favelas brasileiras, não se discute redução da maioridade penal, pois, desde criança, já se está na linha de tiro, mesmo não tendo cometido crime. Já se nasce criminoso. Mas, quem se importa? Há quem diga que teremos menos bandidos em potencial no futuro.

Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para investigar a morte de Eduardo de Jesus. As armas dos policiais foram apreendidas pela Polícia Civil e a Divisão de Homicídios será responsável pela elucidação do crime. No entanto, fatos trágicos, como o de Eduardo, são comumente marcados apenas pela impunidade e a população não confia mais em uma apuração idônea.

Basta relembrar o caso de Claudia Silva Ferreira, de 38 anos, arrastada por uma viatura da Polícia Militar após ser baleada durante um confronto no Morro da Congonha, em Madureira. Um ano após a barbárie, os seis agentes envolvidos na troca de tiros e no transporte do corpo não foram julgados e muito menos expulsos da corporação. Continuam impunes.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de cidadãos mortos por policiais cariocas aumentou 30% em 2014. Ainda segundo o Fórum, entre 2009 e 2013, mais de 11 mil pessoas foram mortas por agentes públicos em todo o País, com destaque para a atuação da PM do Rio, considerada a tropa mais letal do Brasil. Desculpem, Claudias e Eduardos, o caso de vocês pode até virar notícia - por sorte e especialmente pelo choque causado pelas cenas registradas em vídeo -, porém, infelizmente, não vai dar em nada.

As fotos foram retiradas da página Alemão Morro, no Facebook.