OPINIÃO
15/03/2018 18:52 -03 | Atualizado 15/03/2018 18:52 -03

Marielle Franco: Não mataram 'mais uma', assassinaram milhares

Junto com Marielle, morreram milhares de pessoas invisíveis aos olhos do Estado que eram representadas pela vereadora.

Marielle Franco posa ao lado de duas eleitoras da mesma família e de gerações diferentes.
Reprodução/Facebook
Marielle Franco posa ao lado de duas eleitoras da mesma família e de gerações diferentes.

Na cidade acostumada a contabilizar diariamente o número de cidadãos mortos, em uma escala somatória assustadora, o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol), na noite da última quarta-feira (14), representa muito mais que a morte de uma ativista, de uma mulher, de uma negra.

Junto com Marielle, morreram também milhares de pessoas invisíveis aos olhos do Estado e da sociedade e que tinham a vereadora como um dos poucos veículos de voz, representatividade e resistência.

Mas nada soa como novidade. O histórico de assassinato de jovens, negros e periféricos, assim como a displicência dos políticos que desde sempre (des)governam o Rio de Janeiro, é conhecido e experienciado todos os dias por quem vive na cidade.

Há alguns dias, Marielle vinha denunciando o que classificava como truculência e violência da Polícia Militar do Rio de Janeiro em operações na Favela de Acari, na zona norte do Rio. No sábado, ela compartilhou em seu perfil no Facebook o relato de que policiais do 41º Batalhão da PM do Rio estariam aterrorizando moradores da comunidade.

Como mostrou a jornalista Maiá Menezes, em artigo publicado nesta quinta-feira (15) no jornal O Globo, a morte de Marielle, com pelo menos três tiros na cabeça, faz lembrar o assassinato da juíza Patricia Aciolly, com 21 tiros, em 2011, em Niterói. A investigação concluiu que a juíza estava em uma lista de 12 pessoas marcadas para morrer. Havia prendido 60 policiais ligados à milícia e a grupos de extermínio.

Não se trata mais de uma questão somente social. Educação, oportunidades e bem-estar social são bases necessárias, mas que sozinhas não conseguirão mais reverter a realidade de "terra sem lei" do Rio.

E o assassinato de Marielle, mais uma vez, evidencia a existência de uma estrutura de poder paralela, maior e em condições favoráveis para fazer o que tiver que ser feito -- inclusive executar um político -- para se manter atuante.

Um dia antes de ser morta, Marielle postou em sua rede social uma pergunta: "Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?".

Seu assassinato, Marielle, nos leva a uma pergunta mais importante: quantos mais serão calados, apagados e amordaçados até que haja coragem de investigar, identificar e desmantelar os grupos institucionais que, há décadas, dominam o Rio de Janeiro e lucram alto com essa guerra urbana?

A luta de Marielle perdurará.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.