OPINIÃO
17/03/2015 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

'Falta empatia social dos próprios gays na luta contra a homofobia'

Na noite dessa segunda-feira, enquanto Fernanda Montenegro e Nathália Timberg mostravam ao País que o amor, em todas as suas formas, não deve esperar último capítulo de novela para ser expressado, cerca de 30 pessoas se reuniam no Rio de Janeiro para organizar um ato político contra mais um recente ataque motivado por homofobia na cidade. Em uma casa na Lapa, o grupo tinha o objetivo de pensar, discutir e planejar ações que serão realizadas nas próximas semanas com o objetivo de repudiar essa opressão cada vez mais frequente a homossexuais, travestis e transexuais nos espaços públicos cariocas.

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Na noite dessa segunda-feira, enquanto Fernanda Montenegro e Nathália Timberg mostravam ao País que o amor, em todas as suas formas, não deve esperar último capítulo de novela para ser expressado, cerca de 30 pessoas se reuniam no Rio de Janeiro para organizar um ato político contra mais um recente ataque motivado por homofobia na cidade. Em uma casa na Lapa, o grupo tinha o objetivo de pensar, discutir e planejar ações que serão realizadas nas próximas semanas com o objetivo de repudiar essa opressão cada vez mais frequente a homossexuais, travestis e transexuais nos espaços públicos cariocas.

No início de março, dois turistas mineiros foram agredidos com copos e garrafas de vidro após trocarem um beijo na badalada e democrática Praça São Salvador, no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul da cidade. O local é famoso por receber intervenções artísticas, debates educativos e pessoas dos mais variados estilos, de todos os cantos da cidade, que, em clima de amizade e confraternização, ocupam um ambiente que valoriza a integração de todos. Ou pelo menos deveria ser assim.

Ignorados por agentes da Guarda Municipal e por policiais militares que estavam na região, os dois rapazes atacados encontraram apenas em alguns dos frequentadores da praça o apoio e a proteção para reagirem à violência sofrida. Imediatamente, outras pessoas intervieram a favor do casal e protagonizaram, espontaneamente, um beijaço em sinal de protesto.

Diante da cena, os agressores retomaram a violência quando - pasmem! - o bar Casa Brasil, estabelecimento que fica em frente à Praça São Salvador, passou a munir os criminosos com novos copos de vidro, tudo sob o olhar complacente da Polícia Militar. Segundo informações de vítimas que foram até a delegacia para registrarem a ocorrência, os agressores são os conhecidos "justiceiros" acusados de cometerem outros crimes pelas ruas do Rio, incluindo o caso do menor infrator preso a um poste com uma trava de bicicleta, no início do ano passado.

A convocação para a organização do ato de repúdio aconteceu pelo Facebook, com a confirmação de presença de mais de 500 pessoas. Participaram efetivamente do encontro apenas 30, dentre eles homens e mulheres atuantes na promoção dos direitos humanos, além de frequentadores da São Salvador. Nessa ágora carioca, todos os presentes ofereceram o que podiam para ajudar não apenas em uma única ação de protesto e conscientização, mas se mostraram comprometidos em seguir adiante com essa luta que não se restringe a fatos isolados.

De acordo com o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil, divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, 326 pessoas foram mortas vítimas de homofobia no país, em 2014. Ou seja, uma média de um assassinato a cada 27 horas. Desses, 163 eram gays, 134 travestis e 14 lésbicas. Se esses números já assustam, saiba que o levantamento é realizado apenas com notícias veiculadas na imprensa, isto é, ainda temos muitas vítimas invisíveis que não puderam nem virar estatística.

Talvez já tenha passado da hora de os homossexuais se unirem em torno de discussões políticas e sociais que impactam diretamente os direitos individuais e que dizem respeito às suas próprias vidas. Parece que é mais fácil organizar uma orgia do que uma reunião que debata ações propositivas de enfrentamento e oposição aos políticos extremistas e ao fragmento mais conservador da sociedade. O levante de ódio contra os gays nas redes sociais exprime uma realidade cotidiana fora do ambiente virtual.

Em conversas com alguns amigos gays, muitos relatam possuir a mesma necessidade de acolhimento, mas, ao mesmo tempo, não enxergam uma saída possível, pois, segundo eles, os homossexuais são igualmente preconceituosos e não se veem como classe, além de rejeitarem aqueles que não se enquadram no padrão viado-discreto-macho-sarado. Falta empatia social para levar adiante um grupo de discussão ou qualquer outra denominação que acolha, converse, oriente e lute ao lado daqueles que são diariamente violentados por conceitos retrógrados.

Claro que não estou negando a contribuição de inúmeros atores que estão dentro da política - e também dentro da sociedade - trabalhando arduamente nas trincheiras dessa guerra que só tende a crescer. Os cerca de 30 bravos lutadores citados anteriormente, comprometidos com um movimento que garanta o direito à livre manifestação de carinho nas praças e ruas do Rio, são um bom exemplo disso. No entanto, eles ainda são poucos e precisam de apoio e de maior engajamento social. É preciso engrossar essa massa até ela ser vista não como minoria, mas como uma parte significativa da sociedade que exige representação e respeito.

O silêncio de cada homossexual que se orgulha de ser "100% macho" e de "não dar pinta" mata e contribui para que a discussão sobre a homofobia fique no limbo das pautas públicas. Enquanto isso, líderes fundamentalistas e extremistas de direita se organizam e sobem, a cada eleição, mais um degrau em direção ao controle da única arma que dispomos nessa luta: a política. E de que lado você está? Para quem se interessar, a próxima reunião do grupo que organiza o movimento contra a homofobia no Rio de Janeiro será na próxima segunda-feira, 23 de março, na Casa Nuvem, na Lapa.