OPINIÃO
26/03/2015 14:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A rotina de quem vive sob uma intervenção militar

Para jogar luz em cima de arbitrariedades e protestar contra uma cultura militar marcada pela opressão e pelo desrespeito, alguns moradores da Maré utilizam a tecnologia e a internet como ferramentas de denúncia e de humanização. O vídeo acima, por exemplo, foi postado na página Maré Vive, no Facebook, e já possui cerca de 100 mil visualizações. A Maré Vive é mais uma experiência de resistência, que desempenha um papel de divulgadora de uma realidade que nem sempre encontra espaço nos principais jornais e emissoras de TV do país.

Esse vídeo revela uma realidade cotidiana vivida por moradores do Complexo da Maré, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro e considerado o maior conjunto de favelas da cidade, com cerca de 130 mil habitantes. As pessoas que saem de suas casas para trabalhar ou estudar convivem, diariamente, com as abordagens de guerra dos soldados do Exército. Ou seja, cidadãos colocados na mira de um fuzil e tratados como potenciais inimigos a serem combatidos.

De acordo com o autor do vídeo, um segurança de 29 anos, a reação agressiva naquele momento não aconteceu apenas por mais uma vez ter sido alvo de uma interpelação autoritária de um comboio do Exército, mas, sobretudo, pelo sentimento de revolta com a violência cada vez mais presente dentro da favela depois da chegada dos militares.

O segurança relata alguns casos que evidenciam o cenário que mais parece um campo de batalhas dentro do Complexo da Maré. Segundo ele, um pedreiro foi morto pelos soldados enquanto trabalhava em cima de uma laje. Quando questionados sobre esse assassinato, os agentes do exército se justificaram: "achamos que fosse um bandido". Ainda segundo o segurança, um de seus amigos chegou a perder uma perna ao levar um tiro de fuzil.

Esses são apenas dois casos testemunhados por um morador, em meio às variadas histórias de pessoas que são violentadas e têm a vida interrompida nas vielas do conjunto de favelas. Tudo isso em nome de uma "paz" prometida pelos governos estadual e federal há aproximadamente um ano.

A região foi ocupada pelo Exército em abril do ano passado e o objetivo inicial era de "abrir caminho" para que a Polícia Militar inaugurasse uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) até o final de 2014. No entanto, sem apresentar resultados efetivos contra o tráfico de drogas, o prazo para a permanência das forças armadas na área já foi estendido três vezes e, por enquanto, até junho deste ano a intervenção será mantida. E, a exemplo do que acontece em favelas que já contam com as UPP's , nada garante que a tal paz chegará tão cedo ao Complexo da Maré, mesmo após a saída do Exército.

Realidade exposta ao mundo

Para jogar luz em cima de arbitrariedades e protestar contra uma cultura militar marcada pela opressão e pelo desrespeito, alguns moradores da Maré utilizam a tecnologia e a internet como ferramentas de denúncia e de humanização. O vídeo acima, por exemplo, foi postado na página Maré Vive, no Facebook, e já possui cerca de 100 mil visualizações. A Maré Vive é mais uma experiência de resistência, que desempenha um papel de divulgadora de uma realidade que nem sempre encontra espaço nos principais jornais e emissoras de TV do país.

Outros coletivos trabalham não apenas dentro da Maré, mas também em diferentes favelas do Rio dando voz àqueles que, historicamente, foram marginalizados e obrigados a silenciar diante de discursos hegemônicos. Múltiplas vozes gritam no âmbito da web e atribuem à comunicação um caráter dialógico, criando um ambiente no qual a participação social, antes ignorada, agora se faz politicamente presente e representada.

De olho nesse movimento, o jornalista norte-americano Matthew Shaer ficou imerso no conjunto de favelas do Alemão por algumas semanas observando e entrevistando moradores que se transformaram em ativistas ao descobrirem o poder de uma câmera. Intitulada "The Media Doesn't Care What Happens Here" (A mídia não se importa com o que acontece aqui), a primorosa reportagem elaborada para o The New York Times registra, em detalhes, o trabalho de alguns jovens que, apesar das adversidades, expõem o dia a dia de uma região "pacificada", onde pessoas são mortas todos os dias vítimas do próprio Estado e da fracassada política de combate às drogas.

Logo no início do texto, o jornalista narra uma história que se repete constantemente nas favelas cariocas:

Em uma noite do último mês de abril, a moradora Arlinda Bezerra de Assis, de 72 anos, colocou os pés para fora da frente da sua casa e saiu pelo emaranhado de ruelas do bairro junto com seu neto de 10 anos. Fazia horas que a polícia trocava tiros com os traficantes, mas o barulho dos tiros parecia ter diminuído e Arlinda, conhecida como Dona Dalva no Alemão, queria devolver o neto à mãe. Momentos depois, ela foi encontrada de costas no pavimento, sangrando de dois ferimentos de bala. Ela foi levada para um hospital próximo, onde morreu por causa dos ferimentos. Seu neto, protegido pelo corpo da Dona Dalva, escapou ileso. (...) Mais tarde, a polícia rotulou a morte de Dona Dalva como um acidente: ela teve o azar de entrar no meio de um tiroteio, disse um comandante a um jornal local. Mas quando Raull fez sua caminhada pelo meio da multidão, a história que ele ouviu era outra. Os tiros fatais, segundo testemunhas, foram disparados por um policial que confundiu Dona Dalva e seu neto com integrantes do tráfico. Assim que o policial se deu conta do seu erro, disseram as testemunhas, ele correu para sua viatura e partiu em alta velocidade.

(Confira aqui a versão traduzida da reportagem do The New York Times).

O segurança que, ao sair de casa, no Complexo da Maré, foi surpreendido com fuzis apontados para o seu rosto, assim como mostra o vídeo, afirma que é preciso acabar com o tráfico, mas defende a discussão de ações mais inteligentes que não deixem a população vulnerável: "O governo está utilizando o máximo de sua força e ainda assim não está resolvendo o problema de maneira eficaz. Deveriam usar outros meios para combater o tráfico. Exército e UPP só trazem mais guerra e mortes. E a prova disso está na minha vida diária".

Foto publicada na página Maré Vive