OPINIÃO
26/03/2014 10:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Me chama pelo nome, beleza?

Creio que quando paramos para pensar em como nos chamávamos, paramos para pensar em como éramos e, talvez, não nos reconheçamos mais.

Dia desses um amigo dos tempos de colégio me deu a boa nova bem no meio da cervejada sagrada de sábado. Trabalharíamos juntos já a partir de segunda. Opa! Já chamei o brinde... Em meio ao tilintar das tulipas, ele veio no meu ouvido, quase murmurando: 'Chicão, lá dentro, me chama pelo nome, beleza?'

Nem me lembrava mais a 'identidade secreta' do Pistola. Um dia, ele distraído, vi o RG na carteira e, óbvio, fui logo tirando onda. Pra quê? O Pistola não digeriu a provocação e saiu de lá espumando. De lá pra nunca mais.

Decerto, ele tinha razão, aquele nome não lhe cabia, ou melhor, não lhe representava. Assim era com todos da turma. Tal como as fotinhos dos perfis que escolhemos para as nossas redes sociais, acontecia do mesmo jeito com os apelidos. Criação própria, bullying ou apropriação indevida, não importa, o apelido era a nossa busca pela batida perfeita, como diria o compositor.

E, sabe da real, nos tempos dos apelidos, as coisas e nós mesmos éramos mais leves, mais informais, menos presunçosos. Mas, talvez o Pistola, ops, Ronaldo, um dos poucos que conheço que ainda tem um, tenha razão. No ambiente corporativo, Pistola pega mal né? "Não 'chama' respeito", como ele mesmo argumentou.

Enfim, fiz que sim com a cabeça para ele, mas levei o assunto do bar para casa. Abri para debate entre os meus e fui confrontado com a dura realidade: "Afinal de contas, quantas pessoas que você conhece hoje ainda tem apelido, Chicão?" Tirando jogador de futebol, lutador de MMA e dançarina da programa de auditório, não consegui completar os dedos de uma mão.

Ok, diminutivos tem de monte, aumentativos nem tanto, e eu me incluo aí, se bem que Chicão não fere a moral, né? Mas, apelido 'que engaja mesmo' como o do meu amigo Pistola, para pegar uma expressão da moda, é raro de se ver. De vez em quando, um ou outro surge à tona lá nas redes sociais quando um velho conhecido desavisado chega, chegando na sua timeline. De resto, o Caveirinha, a Maresia, o Piolho, a Sininho (esse, a bem da verdade, traria algum desconforto nos dias atuais), enfim, todos estão muito bem escondidos no porão dos nossos subconscientes.

Creio que quando paramos para pensar em como nos chamávamos, paramos para pensar em como éramos e, talvez, não nos reconheçamos, como aconteceu quando eu bisbilhotei o RG do Pistola, ops Ronaldo, só que ao contrário. Mas e daí né? Pra quê ficar chafurdando o passado? Melhor mesmo é ser o Zé no crachá do trabalho fazendo 'cara' de ChonChon no Facebook...