OPINIÃO
23/05/2014 12:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Virando pai

Deixei passar diversas oportunidades de tentar definir o "estado de pai", até me convencer - na semana passada, quando a Bia completou dois meses - a dar tempo ao tempo e não correr para dar cara a sentimentos ainda nublados.

Paulo Darcie

Quando trago de volta à memória a avalanche de emoções dos momentos que antecederam e sucederam o nascimento da minha filha (doravante denominada Ana Beatriz, Bia, Biazinha ou gordinha), me lembro de uma passagem quase hilária. Depois da madrugada mal dormida do parto, saí da maternidade de carro e fui buscar minha trouxa em casa para passar mais uma noite no sofazinho das visitas ao lado da minha esposa (doravante Ana). Assim que ganhei a rua, segurei firme no volante e disse pra mim mesmo "agora eu sou pai, tudo mudou!". Dirigi dez minutos até minha casa tentando sentir nos braços, na respiração e nas cores com as quais eu enxergava o mundo, o que é que havia mudado. Cheguei com uma ponta de decepção por não ter sentido na pele lá tanta mudança.

Mesmo assim, pensando à moda do óbvio, naqueles dias ameacei jogar no papel o que poderia terminar como um monte de clichês sobre o momento do nascimento de um filho. Algum senso (do ridículo, de autoproteção ou só confusão mental?) me fez refletir a segunda vez, que levou à terceira, que me levou a poupar vocês de mais uma tentativa provavelmente pífia de descrever "a maior emoção do mundo" - nunca saberemos se foi o certo. De lá para cá, deixei passar diversas oportunidades de tentar definir o "estado de pai", até me convencer - na semana passada, quando a Bia completou dois meses - a dar tempo ao tempo e não correr para dar cara a sentimentos ainda nublados.

É verdade que fui encontrando pelo caminho pequenos indícios de que eu já era um pai propriamente dito. Um deles veio ao ler texto do meu avô, cronista de um jornal lá do interior, relatando as diferenças que percebeu na minha postura em relação à de seus contemporâneos, que pouco se envolviam com a criação dos filhos. Tarefas simples e corriqueiras para mim e para muitos pais de hoje, como montar o berço de viagem e ajudar com o banho de balde, deixaram clara para ele a evolução, e o relato me deu evidências mais palpáveis de que a coisa estaria mesmo mudando, não só fora, como dentro de mim. Bons sinais, mas não exclusivamente meus.

No último sábado recebemos um casal de amigos vindos de longe. Sérios candidatos à paternidade, perguntaram bastante sobre o modus operandi de um neném nesse começo de vida. As respostas que eu e a Ana demos invariavelmente tinham a estrutura "antes era assim, agora é assado", sendo que "assim" trazia consigo conceitos como caos, incerteza e despreparo, enquanto "assado" vinha carregado de controle, harmonia e experiência. Isso tudo em dois meses! Viemos mesmo dando passos consideráveis, no "macro", como casal, mas isso me parece dizer respeito a outra questão: aquela batalha sem fim da criação de filhos - diferente da procura por se entender de uma nova maneira.

No dia seguinte, antes de chover pedra, eu vesti o "canguru" e nos jogamos na aventura de passear a pé por alguns quarteirões com a filhote, rumo a uma sorveteria ali no Paraíso. Lá não tem gelatto de stracciatella ou de chocolate belga, e nem tem cara de camarote de balada. O mobiliário dos anos 90, sundae e banana split no cardápio, velhas taças de vidro bem grosso. Nada mais do que um sorvetinho, um singelo passeio de domingo em família, aconchegante e em paz. Ao ver a Bia observando o ambiente sorridente no colo da Ana, que cavucava uma bola de limão, uma de chocolate e pedia para o simpático garçom "mais uma daquelas casquinhas mais murchinhas, com um monte de quadradinhos", eu sorri. E ao sorrir, senti tudo o que procurava ao dirigir até minha casa dois meses antes. Entendi que tudo mudou e que nunca fui tão feliz.

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