OPINIÃO
23/03/2016 18:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O que o famoso 'beijo fraternal' diz sobre os líderes mundiais

reprodução

Sete de outubro de 1979 comemorava-se o trigésimo aniversário da Alemanha Oriental.

Os festejos previam desfiles militares, discursos e visitas de líderes de outras nações socialistas para que prestassem suas homenagens.

Anfitrião, o líder alemão Erich Honeker recebia cordialmente seus "camaradas". A imprensa registrava os cumprimentos, solenidades, babação de ovo até que, quando o governante soviético Leonid Brezhnev, provavelmente o mais ilustre dos convidados, deu o ar da graça, o inesperado deu ao evento relativamente banal seu lugar na história: ao se cumprimentarem, os dois se abraçaram, trocam tapinhas nas costas e um carinhoso beijo na boca.

O repórter fotográfico francês Regis Bossu apontou sua Nikon para a cena e imortalizou O Beijo, que ganhou páginas inteiras em jornais e revistas mundo afora.

Não foi um descuido, nem um arroubo, mas sim uma versão mais intensa de um tradicional cumprimento entre líderes socialistas, o beijo fraternal.

Uma pesquisa breve (mais esclarecimentos são bem vindos) me disse que ele consistia em uma troca de abraços, tapinhas nas costas e três beijos nas bochechas, e a explicação da sua origem pode estar tanto na demonstração de entusiasmo dos trabalhadores socialistas ao cumprimentar seus pares, quanto em uma tradição da Igreja Ortodoxa Russa, a saudação de Páscoa, que também previa abraços e bitocas nas bochechas.

Nenhuma das tradições incluía o beijo na boca, mas, no costume socialista, ele poderia acontecer em casos de profunda admiração, respeito e camaradagem mútua entre os líderes.

Onze anos depois, com a Alemanha já unificada, armado com certo distanciamento histórico e de liberdade para se expressar, o artista russo Dimitri Vrubel reproduziu a cena em um grafite do lado oriental de um pedaço remanescente do Muro de Berlin, e batizou sua obra de Meu Deus, ajuda-me a sobreviver a esse amor mortal.

A cena, então, ganhou nova vida, status de arte e de mercadoria estampada em camisetas. Deu origem a outras leituras e foi reproduzida, quase sempre como um elemento de provocação, em diversos outros âmbitos, mesmo sem ligação alguma com seu contexto histórico.

Um exemplo foi seu uso em outdoor publicitário de uma empresa de telefonia alemã em 2006, com um slogan dizendo algo próximo a "todo mundo com todo mundo".

Até que uma bela releitura de O Beijo apareceu debaixo da minha porta, na capa da edição de janeiro da revista Piauí.

A capona traz uma ilustração assinada pela artista americana Nadia Khuzina, que retrata o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e o Vice-presidente da República Michel Temer aos amassos, tais quais os velhos camaradas.

Achei criativa, pertinente e provocativa a proposta de equiparar os pares de "representantes de um partido e de um modo de pensar -- que fazem de tudo para ficar no poder seja lá isso moral e democrático ou não".

Cunha e Temer têm aspectos amarelados, aparentam estar doentes, sujos e mal intencionados. Cunha cola um adesivo de "Fora Dilma" nas costas do vice, como se fosse uma punhalada.

Um belo retrato do recente show de trairagem, rancor e manobras obscuras em que eles e seu partido andam protagonizando.

Para um cara do meu tipão, classe média relativamente bem educada formalmente, que preza pela liberalidade no que diz respeito a comportamento, o exercício de interpretação proposto pela capa da revista foi um deleite. Me levou, inclusive, à buscar mais informação sobre a cena, que eu conhecia sem lá muitos detalhes.

Mas para a babá da Bia, migrante do sertão mineiro de seus 50 e tantos anos, da classe batalhadora e com fortes convicções religiosas, ver dois marmanjos amarelados se beijando foi uma agressão, que provocou uma reação cheia de lamentos por esse mundo estar tão perdido e desviado do caminho de Deus.

Já a Bia, com seu ano e onze meses de experiência, analisou o desenho atentamente, botou o indicador na cara de Cunha e disse "olha, ele tá beijando".

E, assim, talvez O Beijo tenha ganhado sua mais pura e bela interpretação, livre do peso da história, das tensões políticas, da palavra de Deus e da ira dos juízes que determinam quem pode beijar quem.

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