OPINIÃO
20/05/2015 19:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Decisões irreversíveis

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Cette dernière option est déjà disponible, bien que la nouvelle version fonctionne seulement pour Android pour le moment.

Um dos maiores desafios da vida adulta é justamente a escolha, ou seja, a capacidade de discernimento para tomada de decisões que surtirão grandes efeitos na vida da pessoa.

Há decisões difíceis, como a profissão, principalmente quando precisa ocorrer ainda na juventude, quando o acúmulo de informações e experiências ainda não traz conhecimento suficiente, seja técnico ou pessoal, para saber qual a melhor opção.

Mas a categoria de decisões que não têm volta, ou em inglês "point of no return", são provavelmente o grupo mais complexo. Basta dizer para alguém, veja bem pois não vai ter como se arrepender depois, para que a pessoa paralise, fique sem saber qual caminho trilhar.

Alguns exemplos de escolhas que estão neste rol são: quando e com quem perder a virgindade, engravidar (ter um filho), até mesmo cometer um crime, como o de matar, seja ele justificável ou não (dependendo da cultura de cada comunidade e das escolhas morais, religiosas, bem como da lei, faz toda diferença se a motivação foi o de praticar homicídio, instigar suicídio, realizar um aborto ou ajudar na eutanásia).

O trabalho fantástico realizado pelo professor norte-americano Michael Sandel, da Universidade de Harvard, sobre o tema Justiça, tem justamente esta abordagem: o que é fazer escolha a certa?

Dependendo do contexto, pode ser que a decisão pelo menor dano possível seja a melhor, mesmo que tenha efeitos colaterais. Muitas teorias, como a utilitarista, foram construídas com base nesta questão, sobre como saber tomar a decisão certa, principalmente se a mesma for definitiva, se não puder ser

desfeita.

Hoje, quando um jovem decide enviar uma foto nua por prova de amor para outro adolescente, ele tomou uma decisão irreversível. Mas será que sabia o que estava escolhendo? Algo tão simples e fácil como compartilhar uma imagem pode ter um efeito devastador na vida de alguém, e na era digital, não tem volta.

E isso está tão próximo de todos nós... Veja o caso recente na cidade de Encantado no Rio Grande do Sul, onde a jovem de 13 anos tentou suicídio. A menina cortou os próprios pulsos, após se dar conta do efeito da foto que havia compartilhado.

Que trauma! Ela confiou em um menino e a foto foi parar no grupo de WhatsApp e depois se espalhou na web. A sensação de impotência mediante um resultado irreversível pode gerar este tipo de desfecho.

Logo, como estamos formando nossos jovens que serão o próximo time de profissionais das empresas, para tomarem decisões no dia-a-dia de suas vidas?

A técnica do estudo de cenários, que avalia o risco a partir da capacidade de antever os desdobramentos positivos ou negativos de um evento, poderia estar mais presente na grade curricular, tamanha sua utilidade em nossas rotinas.

Tomamos decisões o tempo todo, das mais simples como sair ou não de casa hoje, ir de carro ou de metrô, aceitar uma carona ou não, pegar as escadas ou o elevador, até as mais impactantes, como curtir uma foto ou não?

Dependendo da foto, pode-se ir de um cenário tranquilo e inofensivo até a uma situação de envolvimento em pedofilia e pornografia infantil.

Para o Direito, que busca soluções legais para questões sociais e comportamentais, o grau de dificuldade para uma decisão determina inclusive qual a idade mínima recomendada para prática daquele ato de forma autônoma (sem assistência de um adulto ou responsável legal). Quanto maior a necessidade de perícia, técnica, experiência, maior é a mesma.

Portanto, há idade mínima para dirigir, para ir a uma discoteca, para consumir bebida alcóolica, para fumar, para praticar esportes radicais, entre outros.

Logo, será que haveria uma idade mínima para navegar sozinho na internet, ou para poder ter um celular de verdade (não a versão de brinquedo)? Será que estes dispositivos exigem um certo grau de maturidade e preparo?

Cada um de nós é o resultado do conjunto de suas escolhas e das escolhas que foram feitas por você, quando ainda era muito jovem. A grande diferença é que para esta geração digital aumentaram os tipos de decisões que são irreversíveis. Será que ela está pronta para tomá-las?

Qual será a nossa escolha como adultos, pais, líderes? Vamos capacitá-los, com uma nova educação mais atualizada para tratar destes desafios da nossa realidade "humana-digital", ou vamos deixá-los a sua própria sorte? Esta também pode ser uma decisão irreversível.