OPINIÃO
05/03/2014 10:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Cuidado com a reputação digital!

"Você viu sua foto no Face?" Esse é o tipo de comentário que gera arrepios! Estamos criando uma nova constituição digital, feita pelos próprios usuários, independente do Estado e em paralelo ao sistema legislativo.

"Você viu sua foto no Face?" Esse é o tipo de comentário que gera arrepios! Pois a memória da internet não nos deixa esquecer, nem nos arrepender do que ficou registrado, documentado e compartilhado.

Para muitas empresas, o carnaval, assim como outros eventos festivos, pode trazer um grande risco de exposição de imagem de pessoas e repercussões para as marcas.

"Vejam só a foto do CEO vestido de mulher bêbado dançando em cima da mesa!" Hoje, episódios assim derrubam ações e geram demissões.

Será que estamos respeitando mais a vontade do outro em preservar a própria privacidade, ou vivemos uma era do vale tudo, em que não temos mais qualquer controle sobre o conteúdo a nosso respeito que cai na rede?

Temos que ficar o tempo todo analisando o quanto determinada imagem, foto, texto poderá afetar nossa reputação em âmbito global-digital?

Recentemente, o frenesi em torno de aplicativos como o Lulu, cuja promessa é divertir e entreter através da exposição da reputação alheia, prova justamente que não somos mais donos de nossa própria privacidade.

A era digital eliminou muros, portas, paredes. A web se tornou uma grande janela indiscreta que não consegue ser fechada.

Mas por que somos tão seduzidos pela exposição? Como diz o professor Luiz Felipe Pondé, o "politicamente incorreto é o que atrai". "O homem de Hobbes está solto" nas ruas físicas e digitais. Junto com a exposição cresce também o preconceito. Vivemos uma época em que a liberdade de expressão está sem freios.

Por que será que o distrato e a difamação parecem algo mais comum na vida das pessoas e não fatos criminosos que mereçam ser repudiados e punidos? Por que não acreditamos mais no efeito da prisão e na proteção do próprio Estado?

O problema é que, socialmente falando, a discussão da licitude de algo nasce primeiro na ética e termina na lei. Mas qual é a ética digital vigente?

Para Manuel Castells, aquele que decide se conectar aceita, mesmo que tacitamente, o resultado da "socialização dos seus dados", ou melhor, a perda do controle das suas próprias informações.

Portanto, há um preço a pagar para se sentir inserido no mundo digital, para participar de mídias sociais, para ter o direito de usar uma imensidão de aplicativos viciantes que são oferecidos gratuitamente em um esquema muito bem elaborado que troca superficialidades e banalidades por dados da intimidade, vida e rotina das pessoas que aceitam participar.

Depois de escolher entrar pela porta dessa internet colaborativa que promete mais transparência, será que tem volta? Ou melhor, será que temos escolha? Hoje a maior parte dos termos de uso destes serviços deixa muito claro que por mais que a pessoa deixe ser usuário, o que ela compartilhou por ali fica lá e na galáxia da internet para sempre.

Logo, cabe a cada um de nós apenas o direito de refletir antes sobre qual legado de conteúdo queremos deixar a nosso respeito e pedir para nossos amigos e familiares evitarem sabotar esse nosso desejo de criar uma imagem digital planejada ou desejada sobre nós mesmos.

O mais cruel desta realidade interativa é que estamos praticando liberdade de expressão coletiva, onde, às vezes, alguém sai ferido. E é aí que deveria entrar a lei. Com a finalidade única e exclusiva de delimitar limites, ou seja, até onde cada um pode ir sem ferir o outro.

Bem, o ordenamento jurídico surge justamente com o objetivo de equilibrar a relação entre os mais fracos e os mais fortes. Senão, voltaríamos ao estado de natureza e abandonaríamos tudo que foi construído de civilidade e urbidade.

Sendo assim, do ponto de vista dos valores, há uma percepção de que o direito à informação, a liberdade e a transparência total sobre cada um está vencendo. E, então, a privacidade está perdendo.

Afinal, o que é o aplicativo Lulu e tantos outros que vemos surgir? É a demonstração prática da mudança da cultura, de um conflito entre o que acontece na internet e o que está nas leis em vigor.

Pela lógica do comportamento dessa coletividade digital, rotular alguém, opinar sobre suas qualidades e defeitos, de forma pública e documentada, mesmo que isso possa gerar ridicularização, exposição perante terceiros, discriminação, não seria mais considerado abusivo ou ilegal (art. 5ª. da CF/88, incisos IV e X, arts. 20, 21, 186, 187, 927 do Cód. Civil e arts. 138 à 145 do Cód. Penal).

Estamos criando uma nova constituição digital, feita pelos próprios usuários, independente do Estado e em paralelo ao sistema legislativo. É a anarquia da web. Quem vai ganhar?

Pessoalmente, eu gostaria que fosse a privacidade e o direito a proteção da honra e da reputação. Ou seja, precisamos sim de mais inovação tecnológica mas com MUITO mais educação!