OPINIÃO
22/04/2014 15:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Viva a grande crítica!

Críticos nascem como cogumelos nesse tempo de revolução midiática. Todo mundo que não tinha nada a dizer no passado, agora pode expressar livremente o seu nada para todos. A opinião desses vegetais não vale mais do que a da minha tia Rosinha que é fã do André Rieu e do Bocelli.

Sou casada com John Neschling há quase 15 anos. E, desde o nosso encontro, minha vida é plena de música. Diariamente eu o vejo estudar, ensaiar, reger. Tornei-me tão melômana, a ponto de conseguir o feito de assistir sequencialmente 6 vezes uma mesma sinfonia de Mahler, 8 Aidas ou 7 Don Giovannis, depois de ter assistido a alguns ensaios e provas gerais.

Sempre conversamos, ao final de cada récita ou concerto, sou curiosa, quero saber se minhas impressões têm fundamento. Fico feliz quando consigo notar um entrada atrasada ou um solo com problemas. Mesmo com toda minha prática de ouvinte, é difícil. John me diz quando há algo de que não gostou, algo que tenha dado errado, da parte dele ou dos músicos. Geralmente suas observações me surpreendem. Mesmo com toda a intensidade da minha vida de melômana, não sei ler partituras e nem estudei música, e é esse o meu limite.

Uma coisa é gostar de música, outra, completamente diferente é ser crítico musical. Isso pode parecer óbvio, mas não é o que acontece na prática.

As críticas embasadas que expressam conhecimento de causa e que contribuem de alguma forma para o entendimento de um espetáculo são uma das formas de um jornal, um blog, ou outra mídia observar e até participar da vida cultural de uma cidade.

Observo, porém, que na grande maioria das vezes, a crítica (e não só a musical) vem sendo praticada por pessoas profissionalmente desqualificadas para a função. São os críticos espontâneos. Nascem como cogumelos nesse tempo de revolução midiática. Todo mundo que não tinha nada a dizer no passado, agora pode expressar livremente o seu nada para todos. A opinião desses vegetais não vale mais do que a da minha tia Rosinha que é fã do André Rieu e do Bocelli.

Numa democracia todas as opiniões são aceitas e quase sempre bem-vindas.

Quando no entanto elas demonstram "parti-pris" e revelam o desejo de prejudicar um espetáculo ou uma pessoa, devem ser respondidas.

Estou falando do Falstaff, que assisti 8 vezes (entre ensaios e récitas).

Conversei com músicos, cantores, agentes, melômanos, maestros, e sobretudo com John, e todos me disseram o mesmo que senti: uma performance musical virtuosa, com vozes espetaculares.

Uma única pessoa, melômano como eu, achou que na segunda cena do segundo ato a orquestra poderia estar um pouco mais baixa de volume.

Só há duas razões para alguém dizer publicamente que houve desencontros no final do primeiro ato do Falstaff: total ignorância da partitura ou má intenção.

Não houve nenhum desencontro. Aliás quando os cogumelos não tem nada a dizer musicalmente inventam "desencontros".

As duas primeiras récitas do Falstaff poderiam ter sido gravadas, tal a acuidade da execução. Os homens de preto citados por um blogueiro inculto como gente que "atrapalhava", eram o coro masculino ao final do segundo ato da ópera.

Enfim, a democracia ainda é a melhor forma de vida em sociedade. Liberdade de expressão é estrutural. Isso não significa que posso dizer publicamente que Angola fica na França, e achar que "minha opinião cogumélica deve ser respeitada". Aliás, publicar "achismos" é algo que não se permite na medicina, na física, nem na geografia, É difícil achar cogumelos nessas áreas. Por que temos então que tolerar um champignon com suas opiniões descabidas sem dizer que ele é um ignorante cheio de ideias preconcebidas? E o que dizer de sites sérios que ainda repercutem as bobagens de um cogumelo?

Quem passa a récita contando os poucos lugares vagos no Theatro Municipal repleto, provavelmente não teve tempo de olhar direito para o palco, para entender a proposta de Livermoore, nem para ouvir a excelência musical da orquestra.

Quem escreve crítica é o critico profissional. Que estudou para isso e tem competência para tanto.

Viva a grande crítica! Abaixo, Harold Schoenberg, respeitado crítico do New York Times durante décadas. Seus artigos são lidos até hoje. Atenção cogumelos: Arnold e Harry não são a mesma pessoa, hem?

*

Serviço:

Falstaff

Últimas apresentações: 22 e 24/4, às 20h

Theatro Municipal, Praça Ramos de Azevedo, s/n, São Paulo

Tel.: (11) 3397-0327

Ingressos de R$ 40 a R$ 100