OPINIÃO
09/05/2014 15:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Genocídio autorizado

Quantos DGs terão que morrer para que a sociedade saia dessa pasmaceira, diante da matança que ocorre no país e demande uma reestruturação das nossas polícias, um novo modelo de Justiça? Não sei.

Reprodução/TV Globo

Se você, leitor psicopata, está pensando em matar alguém e não pretende passar a vida na prisão, basta seguir algumas regrinhas básicas. Uma: não mate na Barão de Jaguaribe, no Leblon, às 3 da tarde. Espere anoitecer. Procure um local isolado. E não escolha como vítima um loirinho da classe média, que estuda na Escola Parque ou no Vera Cruz. Prefira os pardos e pobres, moradores de periferia. E claro, evite o flagrante.

Agindo assim, você tem apenas 5% de chance de pagar pelo crime que cometeu. É isso mesmo: de cada cem homicídios que ocorrem no país, apenas 5% são solucionados.

Segundo recentes dados da ONU, ocupamos o vergonhoso décimo quinto lugar na lista dos países mais violentos do mundo (o que fez o Le Monde batizar a nossa copa de "Copa do Medo"). E das cinquenta cidades mais perigosas do planeta, dezesseis são brasileiras.

Esses dados só confirmam o que estamos cansados de saber: na terra onde cantam os sabiás, o crime compensa.

Por silogismo é fácil concluir que os assassinos do bailarino DG, que morava no Pavão-Pavãozinho, jamais serão descobertos.

Afinal, eles agiram no escuro, desovaram o corpo numa creche, não estavam na Zona Sul, não é verdade?

Senhores assassinos, lamento ser quem traz a notícia ruim. Mas vocês serão sim descobertos, vocês correrão risco de serem linchados ao saírem algemados do camburão, vocês serão condenados primeiro pela imprensa, depois pela justiça e irão para a cadeia.

Por quê? Porque vocês erraram o alvo. Se DG fosse apenas um pobre morador do Pavão-Pavãozinho, tudo continuaria sendo como sempre foi, e nós, cidadãos brasileiros - falo da parte ilustrada da sociedade - continuaríamos dentro das nossas fortalezas, atrás de nossas grades, na direção de nossos blindados, sem demonstrar nenhum sinal de indignação. Mas DG dançava no programa da Regina Casé! Regina Casé foi ao velório do seu bailarino que "era sempre o primeiro a chegar nas gravações da Globo". A Regina Casé chorou pelo DG e o programa Esquenta fez um programa-luto em homenagem ao bailarino. Claro que isso não parou por aí. Dias atrás, Fernanda Torres escreveu um artigo indignado na Folha de São Paulo.

Realmente, nossa indignação é muita. Afinal, onde estamos? Na faixa de Gaza? Não duvido que a revista Caras tenha também se indignado e feito uma reportagem com uma manchete do tipo: "Famosos prestigiam velório de bailarino."

Nós somos assim: assistimos anestesiados o genocídio autorizado que ocorre no país - mas só até o momento em que um "dos nossos" é morto. Se matam nossos maridos, nossos filhos, nossos empregados, os bailarinos que dançam no programa que assistimos aos domingos, bem, aí é diferente. Aí retomamos nossa humanidade e arreganhamos nossos dentes e nos comportamos como cidadãos decentes, exigindo respostas e atitudes dos nossos governantes e órgãos competentes.

Quantos DGs terão que morrer para que a sociedade saia dessa pasmaceira, diante da matança que ocorre no país e demande uma reestruturação das nossas polícias, um novo modelo de Justiça?

Não sei. O que sinto é que, nem na década de noventa - quando houve até uma CPI de crimes de extermínio - a questão da violência esteve tão grave como nos dias de hoje.

É uma vergonha o que ocorre no país. É um genocídio autorizado. Autorizados sobretudo por nós: a sociedade civil.