OPINIÃO
28/04/2014 13:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Ainda sobre cogumelos

O que existe na esfera da crítica de arte é um silêncio constrangedor de uma parte, e, de outro, cogumelos a perder de vista. E o que faz o cogumelo? Um blog.

Masakazu Ejiri via Getty Images

Vargas Llosa não é apenas um grande escritor. Seus ensaios sobre literatura e cultura, frutos também de suas palestras mundo afora, revelam um observador crítico e pensador original.

No ano passado, publicou no Brasil um livro, A Civilização do Espetáculo em que trata um tema que lhe é caro: a ideia de que a cultura como a entendemos sempre não existe mais. Qual seja: um conjunto de valores, sistemas de conhecimentos estéticos e éticos, que funciona como um denominador comum da experiência humana, que nos oferece experiências profundas, que permite que saiamos de nós mesmos e nos projetemos no outro, e que por isso mesmo desperta nossa sensibilidade política, nossa vitalidade e tolerância para enfrentar um mundo complexo e absurdo e sobretudo terrível demais para que possamos dar conta apenas com os recursos que dispomos na nossa vida diária.

O que existe, diz Llosa, é um mundo onde o conceito de cultura se alargou de tal forma - a partir do momento em que os antropólogos, na maior das boas intenções (como frisa o autor), passaram a negar a distinção histórica entre "cultura" e "natureza", e incorporaram ao conceito de cultura o viver de uma comunidade, com seus valores, graus de parentesco, suas manifestações artísticas e religiosas - que atualmente "tudo é cultura". Temos a cultura do hip-hop, a cultura Harley Davidson, a cultura das telenovelas, a cultura do skate, a cultura da classe média, a cultura do rolezinho, a cultura dos blogs, e a cultura dos cogumelos. Num mundo onde tudo é cultura, todo mundo é culto. Melhor dizendo, não há incultos.

Não quero me alongar sobre as colocações de Vargas Llosa, porque o que me interessa aqui, nesse mundo que ele define quase como a realização profética de Eliot (que previa, na década de 40, um tempo que a a ideia de cultura estivesse ausente - Vargas acha que ela foi substituída pela ideia de entretenimento) é o papel da crítica.

Nesse mundo de Vargas - que tem certo paralelismo como mundo líquido de Zygmunt Bauman, um mundo onde tudo se desfaz rapidamente, valores, crenças, teorias -, como fica o papel da crítica?

Se essa cultura com C maíusculo é que alimenta a nossa inquietação, nosso desejo por mudanças, uma das implicações do alargamento da ideia de cultura seria exatamente o esvaziamento do espírito crítico.

Llosa não chega a falar sobre isso nesse ensaio, que por vezes tem um tom saudosista, mas a minha opinião é que também a crítica como sempre a conhecemos não existe mais.

O velho profissional - com conhecimento técnico e humano, que com sua racionalidade e sobretudo com sua imaginação poderosa é capaz de trazer à tona a infraerstrutura crítica de uma obra, e nos dar acesso aos insigths do artista, e nos fazer refletir sobre a arte e sobre nós mesmos - é exceção. Pior: pertence ao passado.

O que existe na esfera crítica é um silêncio constrangedor de uma parte, e, de outro, cogumelos a perder de vista.

E o que faz o cogumelo? Um blog. Porque o que move um cogumelo não é apenas sua frustração por não ser um artista, mas seu desejo de poder. Ele não quer ser, digamos, um profissional qualquer, um dentista, um professor. Ele quer ser nomeado, quer ser alguém visível, e se possível temido. Sua grande marca é a idiossincrasia. Seu gosto passa por questões meramente pessoais: quem são seus amigos, quem ele destesta, o que o humilhou, de quem ele quer se vingar. É isso que o move.

As questões estéticas ficam para segundo plano.

Para trazer a discussão ao nosso mundo euclidiano, vou exemplificar usando o debate cogumélico sobre as óperas do Theatro Municipal. Isso, de certa forma, me diverte, e me dá elementos para entender a lógica dos cogumelos.

A grande questão, para os cogumelos, não sendo estética, tende a ser social. E nacionalista, claro. Não importa a qualidade do elenco. Para os cogumelos o que interessa é sua nacionalidade, porque, para eles, a função do teatro é social: ele deve empregar, como se fosse uma sociedade beneficente, os artistas brasileiros, não importando se eles cantam como uma Callas ou uma cabra.

Seria divertido se não fosse perigoso. O discurso nacionalista descamba sempre para o bairrismo. Antevejo o momento em que os cogumelos estarão se perguntando: por que contratarmos um cantor carioca se temos cantores paulistas? Ou: porque contratarmos um cantor de Campinas se temos cantores paulistanos? Ou: e por que não usamos os artistas da casa em vez de sair contratando cantores por toda a cidade de São Paulo?

Outra característica dos cogumelos é ver o artista de forma horizontal. Não existe o cantor bom e o cantor ruim. Qualidade, aliás, é secundária. Existe o cantor. Tanto faz se ele é bom ou ruim (mesmo porque o que o cogumelo entende deste assunto?). Não existe o grande artista, o artista medíocre. Existem as panelinhas, os artistas que ele gosta, acha bonito, sente até frisson interno, a quem ele puxa o saco, ou aqueles que o bajulam, e que por isso mesmo TEM que estar no Palco de São Paulo. Por que trazer um artista de qualidade para cantar no lugar de um artista medíocre, que ele "acha" ser exatamente do mesmo nível que "esses estrangeiros"?

Para os cogumelos, a ideia de exatidão e verdade são ainda de menor valia que a própria discussão estética. O que ele não sabe, nomeia e inventa como quer: fala em gastos vultuosos, e não apresenta números. Porque isso implica em outra de suas características: ele é amador, não sabe fazer isso. Precisaria dar alguns telefonemas, falar com pessoas competentes, ter noção orçamentária, e, sobretudo, ter noção de como funcionam os teatros não só no Brasil mas nesse mundão afora, que ele desconhece totalmente. E como fazer isso, se o seu talento original é obturar cáries ou ensinar acidentes geográficos? Com que tempo? Melhor chutar. Inventar. Mentir.

Claro, alguns são preguiçosos também. Têm preguiça de se informar. Mas o verdadeiro cogumelo, o pai de todos os vegetais, esse é realmente mal intencionado. Ele não gosta de projetos de excelência porque ali se sente deslocado. Não cabe ali. Ali, sua falta de conhecimento e suas opiniões cogumélicas são motivo de riso.

Por isso, ele se comporta como uma viúva. Tem saudades da época em que éramos um teatrinho provinciano, sem projeto e sem futuro. Talvez porque, naquele mundinho, ele tinha seu desejo de poder realizado.

Lembro sempre de Coleridge, quando penso nos cogumelos: (Cito em inglês, porque além de amar a língua de Shakespeare não sou tradutora profissional e não ouso emporcalhar o poeta com meu amadorismo)

Lord, enlighten our enemies. We are in danger from their folly, not from their wisdom.