OPINIÃO
30/06/2014 15:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Abertura para a Copa do Mundo, mas não para o mundo

A multidão de visitantes internacionais que hoje lota os estádios é ainda mais impressionante porque o Brasil conta com credenciais significativas como destino turístico e deveria estar capitalizando essa tendência. No entanto, somente nos últimos 15 anos o país perdeu 38% de sua participação no turismo da América do Sul e 30% do turismo global.

BEN STANSALL via Getty Images
Tourists use a moblie telephone to photograph themselves with the Christ the Redeemer is seen on top of Corcovado hill in Rio de Janeiro, Brazil, on June 12, 2014, the day of the start of the 2014 FIFA World Cup in Brazil. AFP PHOTO/BEN STANSALL (Photo credit should read BEN STANSALL/AFP/Getty Images)

Com a chegada de uma multidão de fãs de futebol de todo o planeta, os brasileiros acolhem o mundo para uma longa festa. Neste momento, o Brasil é o centro do universo esportivo e a Copa do Mundo parece ter aumentado a curiosidade dos brasileiros em relação aos estrangeiros. Os brasileiros sem dúvida não perdem para ninguém em termos de hospitalidade e receptividade. Ironicamente, a economia brasileira continua relativamente apartada do restante do mundo - e das oportunidades de crescimento que outros países estão concretizando em uma economia global mais interligada.

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A caótica corrida para dar os toques finais nas arenas e na infraestrutura da Copa Mundial pôs a descoberto o crônico déficit de infraestrutura do Brasil. Não é surpresa que o Fórum Econômico Mundial classifique a qualidade da infraestrutura do Brasil em 114º lugar em uma lista de 148 países. A deficiência de estradas pavimentadas, ferrovias e capacidade portuária torna difícil para as empresas locais chegar até a população espalhada pelo Brasil - e ainda mais difícil para exportar. Essas deficiências, aliadas a uma grande burocracia, barreiras comerciais e impostos elevados, dão origem ao tristemente famoso "custo Brasil", que impede a economia de tirar pleno proveito do rápido crescimento dos fluxos comerciais globais.

Os economistas e legisladores vêm há muito debatendo as barreiras comerciais do Brasil e sua estratégia de proteção às indústrias locais. Hoje em dia, contudo, o isolamento do país não se limita ao comércio de produtos acabados e matérias primas. Ele se estende a outras áreas, entre elas os fluxos globais de pessoas e dados. Enquanto o mundo se torna mais móvel, mais dinâmico e mais conectado, o Brasil corre o risco de ficar para trás, sobretudo em termos de competitividade.

Perda de 30% de participação no mercado de turismo em 15 anos

A multidão de visitantes internacionais que hoje lota os estádios é ainda mais impressionante porque o Brasil conta com credenciais significativas como destino turístico. Distância não é problema; os viajantes de hoje não hesitam em voar para o outro lado do planeta. O Brasil, com seus ecossistemas únicos e suas lindas praias cheias de música e festa, deveria estar capitalizando essa tendência. No entanto, somente nos últimos 15 anos o país perdeu 38% de sua participação no turismo da América do Sul e 30% do turismo global. Graças a suas exigências de visto, precárias opções de transporte interno e má reputação de crimes urbanos, o Brasil passou a ser visto como um lugar caro e difícil de visitar.

Como muitos visitantes logo descobrem ao desembarcar em Guarulhos ou no Galeão, o conhecimento de línguas estrangeiras (até mesmo o espanhol) não é um forte do Brasil. O inglês se tornou a língua internacional dos negócios, mas a empresa global de educação Education First atribuiu ao Brasil o 38º lugar entre 60 países pesquisados em fluência no idioma inglês, colocando-o na categoria de "baixa proficiência". A atenção a esse aspecto do sistema educacional ajudaria não apenas o setor de turismo do Brasil, mas também melhoraria sua capacidade de fazer negócios com outros países e colaborar com pesquisadores internacionais.

Para agravar a dificuldade de comunicação, o custo de visitar o Brasil é alto. As exportações de commodities valorizaram o real, porém ineficiências e impostos altos exacerbam o problema da taxa de câmbio. O preço dos hotéis no Rio é o 5º maior em áreas urbanas do mundo, acima de Nova York, Hong Kong e Paris (São Paulo não fica muito atrás, no 15º lugar).

O Brasil pode reconquistar os turistas estrangeiros se seguir os passos de destinos como Dubai e México: investimento em infraestrutura, uso de regras de zoneamento para criar um leque completo de serviços para turistas e realização de sofisticadas campanhas internacionais de publicidade. Essas mudanças podem dar frutos rapidamente e, se o Brasil reconquistar a fatia de turismo que perdeu a partir de 1999, poderia facilmente acrescentar 0,25 ponto percentual - ou mais - ao crescimento anual do PIB 2030.

Internautas brasileiros conectados ao Brasil, mas não ao resto do mundo

Assim como o Brasil deixou escapar oportunidades de turismo, em geral ficou também à margem da explosão, em tamanho e alcance, dos fluxos mundiais de dados e comunicações digitais. A boa notícia é que a penetração da Internet no Brasil aumentou quase quatro vezes em uma década e a utilização de Internet por celular subiu de zero para 21% em menos de quatro anos. Os ingredientes para a inovação digital já estão prontos.

Os brasileiros, conhecidos por sua sociabilidade online e offline, adotaram a mídia social em número recorde. Começando com um contingente muito pequeno de usuários há apenas alguns anos, o Brasil passou a figurar entre os três principais países do mundo todo em termos de usuários do Twitter e do Facebook. Brasileiros já figuram também entre os grandes empreendedores digitais. O cofundador do Instagram, Mike Krieger, por exemplo, é brasileiro.

Contudo, o tráfego de dados do Brasil tende a restringir-se às fronteiras do país. O tráfego per capita de dados internacionais corresponde a apenas um sexto dos níveis dos Estados Unidos ou da Espanha, e meros 5% do nível observado no líder global, a Alemanha. É particularmente revelador o fato de que o país também esteja muito atrás de países sul-americanos como o Chile e a Argentina. Essa questão é importante porque a Internet não se resume à troca de mensagens entre amigos e ao compartilhamento de vídeos divertidos; ela é a argamassa que mantém unida a economia global. Os fluxos internacionais de dados são parte integrante do comércio, das finanças e da colaboração.

O Brasil pode vir a exercer um papel maior nessa economia global mais digital ao se livrar de algumas de suas velhas ineficiências - a começar pelos impostos de importação sobre produtos eletrônicos, que figuram entre os mais altos do mundo. Essas tarifas resultam em substitutos locais baratos e limitados, o que por sua vez dificulta aos programadores construir plataformas viáveis para exportação. Basta imaginar quantos Instragams mais poderiam sair do Brasil se o empreendedor que tivesse uma ótima ideia não tivesse que pagar três vezes mais do que pagaria por um iPhone fora do Brasil.

Os brasileiros querem vencer

As barreiras que têm mantido o Brasil isolado do restante do mundo não são complexas e podem ser eliminadas de uma só vez. Em áreas que vão da infraestrutura até a capacitação da força de trabalho, o país precisa recuperar o tempo perdido, devido ao investimento insuficiente feito no passado. Contudo, é possível atacar esses problemas se legisladores, líderes públicos e empresários reconhecerem que as recompensas potenciais da abertura e da competição global podem superar os riscos.

Quando os estádios se esvaziarem e os últimos torcedores voltarem para casa, o Brasil pode retomar o crescimento econômico - desde que decida continuar a receber o mundo de braços abertos, como os brasileiros já estão fazendo durante a Copa.

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