OPINIÃO
02/12/2014 13:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

Carona para votar

Steve Allen via Getty Images

O retrato de Montevidéu neste segundo turno das eleições poderia se resumir a um velhinho com uma bengala em uma mão e um guarda-chuva na outra indo votar. No Uruguai, não existe o voto facultativo dependendo da idade. É obrigatório a partir dos 18 anos e para o resto da vida. "Apenas podem justificar a ausência aqueles que estejam fora do país, doentes ou impossibilitados de se mover", declarou o vice-presidente da Corte Eleitoral, Wilfredo Penco, a fins de outubro. Obrigações à parte, muita gente, no entanto, parecia enfrentar com orgulho a chuva incessante do domingo.

E para evitar que o dilúvio se tornasse um obstáculo, os simpatizantes do presidente eleito, Tabaré Vázquez, que já liderava com folga as pesquisas, se mobilizaram para ajudar os eleitores com dificuldades de transporte. Menos de 24 horas antes do dia decisivo, o partido de Vázquez, Frente Ampla, lançou um comunicado propondo que os eleitores que tivessem carro oferecessem carona a outros que fizessem sinal. Por sua vez, o texto também orientava aos eleitores pedestres que fizessem sinal aos carros identificados com bandeirinhas do partido. A campanha "Bandera solidaria" (foto) fez sucesso nas redes sociais.

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Porém, segundo um jornal local, na prática, nem tudo era cor de rosa como se pintava. Muito pelo contrário, Montevidéu estava mais cinza que de costume. De acordo com a matéria, o repórter esperou uma hora debaixo de chuva torrencial e contou 15 carros com bandeirinhas aos quais fez sinais como podia. Apenas um teria parado, mas o motorista seguiu logo indicando que ia em direção contrária.

Certamente, de um dia para o outro, em pleno fim de semana, a campanha não tenha tido tempo suficiente para alcançar um número maior de eleitores solidários dispostos a triplicar a atenção no trânsito com a chuva. De qualquer forma, a iniciativa surtiu efeito. Depoimentos e fotos no Twitter e no Facebook comprovam que muitos conseguiram carona.

O que chama a atenção é que a intenção foi realmente movida à solidariedade e não a desespero, já que a candidatura da Frente Ampla liderava as intenções de voto com vantagem bastante confortável. No Brasil, com uma disputa muito mais acirrada, enquanto a criatividade nas redes sociais produzia uma guerra virtual eleitoreira, ninguém teve a ideia de promover a carona para votar. Talvez não funcionasse devido ao medo de ser assaltado que a direita aumenta e a esquerda finge que não tem. Mas aqui o risco também existia e o comentário que mais se repetiu nas redes foi "Confianza mutua".

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