OPINIÃO
25/11/2014 09:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Burocracia, maconha, paranoia e eleições no Uruguai

Desde os finais de agosto, quando habilitaram o cadastro de residências para o plantio doméstico de maconha, fazer o registro entrou na minha lista de pendências.

Shutterstock / Artazum and Iriana Shiyan

Desde os finais de agosto, quando habilitaram o cadastro de residências para o plantio doméstico de maconha, fazer o registro entrou na minha lista de pendências. Queria, mais que nada, saber com detalhes como funcionaria a aplicação da lei. No último sábado, finalmente, juntei os documentos (identidade uruguaia e conta de luz no meu nome) e fui a uma agência do Correio me inscrever.

Não fosse porque a funcionária já me conhece de outras idas ao local, confesso que a situação seria um tanto constrangedora. Não há nenhum tipo de privacidade para realizar o trâmite. O/a atendente faz as perguntas presentes no formulário em voz alta e você vai respondendo como se estivesse falando para que país deseja enviar tal carta.

Uma das primeiras perguntas era quantas plantas eu iria cultivar. Pensei que isso seria irrelevante já que a lei permite um máximo de seis. Meio com vergonha e sem ter a menor ideia de quanto rende uma planta, respondi: "Duas". O segurança da agência, muito humilde e simpático, interveio e disse: "É melhor você declarar mais porque se plantar menos não tem problema". Ainda meio tímida, concordei e alterei a resposta para quatro.

A atendente continuou e, mais adiante, me perguntou que tipo de semente e que tipo de maconha quero plantar. Por sorte, era um item de múltipla escolha: a) cannabis sativa; b) cannabis indica; c) desconhecido. Nem preciso dizer a opção que marquei.

Outra pergunta era o lugar da casa onde eu pretendia manter a planta. Como eu não havia entendido bem a expressão em espanhol, o segurança novamente ajudou e explicou: "Isso é se você vai plantar na sala, na varanda, no terraço, etc". Depois emendou: "Eu sei porque sempre aparece alguém para se cadastrar e esses são os lugares que mais costumam responder".

Lendo assim, parece até que ele podia estar mentindo, que sabe porque entende bem do assunto já que o Uruguai é "mó legalize" (em outro post comentarei sobre os estereótipos). Não, não. Era um homem em seus 45 anos que se conhecesse a cachaça poderia ser um fã, que deve gostar bastante de uma cerveja, mas que de verdade parece nunca ter experimentado um "porro" como dizem aqui.

Voltando à burocracia, uma das últimas perguntas do formulário também me chamou a atenção. A data de nascimento dos menores de idade da casa. Logo no início é necessário declarar quantas pessoas vivem na residência, entre elas, quantos menores. Mas declarado isso, achei que fosse suficiente. De qualquer forma, respondi. E, por fim, faltava imprimir e assinar para que a solicitação fosse enviada ao Instituto de Regulação e Controle de Cannabis (Ircca), que tem 30 dias para analisar e aprovar o registro.

Mas a impressora não funcionou. Durante uma hora tentamos fazê-la funcionar. Outros clientes que entravam também sugeriam macetes e nada (era uma agência pequenina e felizmente pouca gente decidiu ir ao Correio naquela manhã). Voltei para casa apenas com um recibo de que a operação foi anulada (foto) como garantia de que meus dados não estariam gravados.

Meu primeiro pensamento foi voltar outro dia. Mas ao longo do fim de semana, conversando com amigos uruguaios, decidi esperar um pouco mais. Algumas declarações do candidato favorito a vencer o segundo turno destas eleições tem gerado polêmica com relação à lei de regulamentação da maconha no país. Tabaré Vázquez, que foi presidente antes do nosso querido Pepe, declarou em entrevista a uma rádio em plena campanha eleitoral que o cadastro de usuários poderia servir para lhes oferecer reabilitação.

A declaração assustou a muita gente e a militantes da lei que já haviam protestado contra a possível exposição e vulnerabilidade das informações declaradas no registro. De fato, no último balanço de cadastros divulgados pelo Ircca a meados de outubro, apenas 600 pessoas haviam solicitado inscrição para o plantio doméstico, número abaixo do esperado. "Estamos falando de um senhor (Vázquez) que faz o que quer politicamente, ignorando suas bases de apoio e a orientação do partido como quando vetou a lei do aborto em seu mandato", lembrou um uruguaio.

Enquanto isso, vou estudar mais sobre a maconha: a cannabis sativa, a indica e os tipos de semente.

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