OPINIÃO
19/11/2015 20:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Ocupações retratam luta por espaço na cidade

No último dia 15 de novembro, Cia. Motosserra Perfumada se envolveu em um nó político difícil de desatar.

No último dia 15 de novembro, Cia. Motosserra Perfumada se envolveu em um nó político difícil de desatar. O grupo de teatro vinha há aproximadamente dois anos elaborando o projeto Aquilo que me Arrancaram foi a Única coisa que me Restou e no mês de novembro começou a ocupar a passagem subterrânea da Rua Xavier de Toledo e o Museu do Teatro Municipal , depois de solicitação junto à subprefeitura da Sé, para a realização de temporada do espetáculo bem como show de bandas e festa ao final da apresentação do espetáculo.

No domingo pela manhã, ao chegar ao espaço, o grupo se deparou com uma surpresa nada agradável: materiais de luz e som quebrados, ausência da mercadoria de bebidas que seria vendida para arrecadar fundos para a manutenção do grupo e muita sujeira instalada no local como uma espécie de rastro pós-festejo foi o que se apresentou. Um pouco depois do ocorrido, o Coletivo Laboratório Compartilhado TM13 soltou uma nota em que assumiu a responsabilidade da ação. Em resposta, a Cia. Motosserra Perfumada respondeu com uma carta que imediatamente foi também divulgada.

A discussão com o passar das horas, nas redes sociais, começou a adquirir os velhos tons do binarismo "bandidos e mocinhos" (porque avançamos no que concerne as nossas plataformas de comunicação mas o modelo discursivo é absolutamente o mesmo, de uma moral cristã puída, disforme, mas ainda viva): um grupo de teatro relativamente jovem da capital, composto por pessoas do interior de São Paulo, de algumas cidades do nordeste e outras regiões do País, que deu o seu quinhão para realizar um trabalho sobre a desconstrução da masculinidade e do patriarcado, viu-se combalido por uma atitude autoritária e intransigente de um grupo de pessoas que também se alcunham agentes sociais. Evidentemente o caso não é tão simples e, como em qualquer questão política, há que se considerar as contradições dos dois lados como elementos fundantes do debate.

Justiça seja feita, o grupo da outra ponta não é tão maquiavelicamente criminoso como pintado nas redes sociais, e se assim for considerado estaremos incorrendo, via de regra, em uma escabrosa série de preconceitos de classe e de raça, haja vista que os componentes do TM13 que estavam na Ocupação da Ocupação são jovens periféricos que apresentam em sua carta a intenção de empoderar a população preta e das periferias através de festivais e eventos nestes espaços públicos ociosos.

Aqui o que se pretende é, para além de levantar perniciosas constatações (tão recorrentes no tribunal das redes sociais), refletir a respeito de alguns pontos que tangenciam o fazer artístico na cidade de São Paulo e a relação que se trava entre as artes e o meio público. O que se apresentou na trama da Ocupação da Ocupação é uma fagulha do embate político sobre as ocupações culturais em São Paulo.

A Casa Amarela, espaço esse também composto pelo Coletivo Laboratório Compartilhado TM13, cumpriu no decorrer dos últimos anos um longo histórico de gestões e projetos políticos mal sucedidos que visavam ampliar o debate junto ao poder público sobre as verbas para os trabalhadores da cultura, sobre os pontos de produção e democratização da cultura e sobre os espaços abandonados ao largo das ruas e avenidas da cidade.

Bem no número vizinho da Casa Amarela, à mesma Avenida da Consolação, existe outra ocupação, dessa vez com o objetivo de garantir moradia para os ocupantes - um direito básico de todo e qualquer habitante citadino e rural. Essa segunda casa ocupada não tem nem de longe a visibilidade pública que A Casa Amarela conquistou. Pelo contrário, cada dia mais figura em sua fachada o descaso e a ausência de resoluções práticas que propiciem a melhora de vida das famílias e indivíduos ocupantes.

Enquanto os movimentos de ocupação cultural, com uma pequena visibilidade (a qual oscila entre a condição de copo meio cheio para os otimistas e copo meio vazio para os que avaliam de modo menos positivo o processo como um todo) se digladiam constantemente, os grupos de reivindicação por moradia, silenciados pelo Governo do Estado de São Paulo e pela mesma prefeitura que muitas vezes abre ouvidos às demandas da categoria artística, permanecem dinamicamente organizados em estrutura de movimentos sociais plurais cuja pauta base parte do mesmo lugar. Essa forma de organização pode servir de exemplo à categoria de artistas/ trabalhadores da cultura/ativistas/agentes culturais que interveem na cidade através das ocupações simbólicas; talvez ao perceber que existe um mínimo privilégio na reverberação do debate sobre o tema, os grupos em questão possam se dar conta de que são ambos avatares de outra luta, em nada abstrata, associada diretamente aos mais importantes personagens de toda a situação: os espectadores - isso é, a população.

Motosserra Perfumada e TM13, com estratégias diferentes e até questionáveis, não estariam ambos discutindo exatamente sobre o usufruto da cidade não apenas por aqueles que trazem no arcabouço de suas ações o discurso estético, mas por toda a comunidade?

Quais as pautas e os apelos do Coletivo Laboratório Compartilhado TM13 e quais as pautas e apelos do Motosserra Perfumada, para além da realização do espetáculo e dos festivais?

Importante levar em consideração que, para os movimentos de luta por moradia, tomar um prédio abandonado, uma casa, um espaço inutilizado na cidade significa encampar um meio de luta, ou seja, trata-se da realização de um método e não de uma finalidade. A finalidade é a vitória política que, sim, também vem acompanhada de aplausos.

(Nesse momento em que termino o texto, há mais de 40 escolas ocupadas em São Paulo. Amanhã será maior.)

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