OPINIÃO
08/09/2015 17:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O quê que tem na caixa preta?

A performance solitária é uma criação do norte-americano Shamel Pitts, integrante do grupo israelense Batsheva Dance Company. A obra tem um caráter biográfico motivado pelas experiências do performer nascido no bairro do Brooklyn, em Nova York

Black Box, esse memorável solo de dança, foi apresentado na cidade de São Paulo pelo projeto Terça tem Teatro do Itaú Cultural, no último dia 25 de agosto. O trabalho se revela uma profunda experimentação sobre raça, história e sociedade que mereceria ter mais apresentações nas bandas de cá.

A performance solitária é uma criação do norte-americano Shamel Pitts, integrante do grupo israelense Batsheva Dance Company. A obra tem um caráter biográfico motivado pelas experiências do performer nascido no bairro do Brooklyn, em Nova York, em meio às raízes africanas e à cultura do hip hop.

Black Box, em português, significa Caixa Preta e é justamente a partir desse referente material (equipamento resistente a fortes impactos capaz de documentar o que ocorre no interior das aeronaves) que Pitts compõe as estações líricas que permeiam o solo. Dessa vez, a Caixa Preta que sobreviveu a todos os catastróficos processos históricos envolvendo o genocídio da população negra no planeta, é aberta hoje - qual uma Caixa de Pandora contemporânea - para que nós, espectadores, possamos testemunhar um evento estético que denuncia e interpreta poeticamente a opressão racial sofrida por milhares de negros no decorrer de séculos e mais séculos de apartheid político, social e cultural.

O corpo de Shamel Pitts, quase inteiramente nu, revela a cor e a mobilidade de uma população inteira. À medida que o dançarino traz à tona, em uma recitação gravada, discursos referentes à ancestralidade e ao movimento de um mundo pessoal inundado por exclusão e preconceito, sua performance traça, através da justaposição entre formato-dança e tema-raça, um desenho político muito claro em que o corpo de um homem negro se mostra como estrutura de expressão de um processo físico e subjetivo coletivo, referente ao todo de uma população historicamente dizimada.

Ainda em 2015, o povo preto é compulsoriamente desumanizado e o trabalho de Pitts se ergue contra o racismo e seu apelo institucional naturalizante, mas não apenas: Black Box se faz uma obra também de discussão microcontextual a combater a minimização do sujeito negro, afirmando-o como elemento humano também fundante da cultura e da sociedade. Ser negro em Black Box é um ato político, o indivíduo apresentado em cena é por si uma cosmogonia social importante, plena de saberes, experiências e elaboração psíquica.

Shamel Pitts organiza em cena uma forma de reversão do status quo que determina a presença e interpretação negativada do corpo do negro na sociedade (essa presença se relaciona mais à ideia de coisa, de objeto de força produtiva a ser explorada, do que necessariamente à ideia de vida humana), criando um circuito imaginário não-linear em que a reflexão sobre o próprio existir, apresentada tanto pela dança quanto pela palavra proferida no tom do devaneio, vem a ser uma fala afirmativamente política em favor do poder intelectual e criativo do autor negro na concepção de sua conjuntura e de suas projeções simbólicas.

A cor preta da pele de Shamel Pitts torna-se, diante de nossos olhos, a fonte de um brilho dourado (germinado na negritude e não sobreposto a ela), proporcionado pela articulação entre a encenação, a linguagem corporal e o texto pausadamente declamado, sublinhado por uma trilha sonora que oscila entre o zen e o ritualístico, apresentando-nos uma verdade poética que historicamente foi atomizada para que o racismo se instaurasse enquanto leitura normativa de mundo, de modo a subjugar o fenótipo racial negro nas instâncias de poder e padronagem estética, política e cultural.

A pesquisadora Ieda Maria Martins comenta sobre uma possibilidade cênica de um imaginário não-branco no livro A Cena em Sombras:

O prazer de ser negro manifesta-se, no palco, pelo desejo de mostrar-se negro, exibindo-se o corpo como fala, enunciação. A construção da identidade racial persegue, pois, a experiência do prazer de reconhecer-se negro e de jubilar-se com essa imagem.

A Caixa Preta que resiste bravamente, intacta ao massacre racial, faz-se alimento de um instinto de sobrevivência ancestral, atemporal, latente, a pulsar em outros corpos negros, construídos em apelo físico e subjetivo em Ferguson, no Capão Redondo, na Bahia, no mercado de São Brás.

A performance em Black Box surge como dispositivo sensível de debate, de modo a acessar criticamente os espectadores, convidando-nos a uma fruição estética nova, além, possível - dissociada da expectativa superficial e homogeneizante produzida por uma articulação de cena racialmente excludente.

Num país em que as comunidades periféricas, majoritariamente negras, são representadas na televisão por atores e atrizes de pele branca, vide a novela global I Love Paraisópolis, a composição de Pitts nos traz a urgência de experimentar formas outras de representação da negritude nos campos simbólicos que constituem nosso cotidiano material e metaforicamente. Vida longa.