OPINIÃO
03/04/2015 13:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O complexo Marina Abramovic

Marina Abramovic, atualmente aos 68 anos de idade, tornou-se um tipo de mestra das artes performáticas e analisa o seu trabalho como a expressão de um acúmulo de frustrações pessoais que, em grave medida, propiciaram sua ascensão para o patamar de gênio da arte. Segundo a performer, quanto mais fraturada é a estrutura emocional de uma pessoa, melhor artista ela pode vir a ser. Nesse sentido, é importante que nos perguntemos, diante de nosso cindido contexto sócio-cultural, por que não temos grandes gênios nascidos nos ambientes mais violentos e precários da geografia brasileira e latinoamericana?

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Para o performer e professor brasileiro Renato Cohen a definição da performance é, com efeito, um exercício paradoxal de conceituação na medida em que na construção performática se organiza uma busca pelo estado desviante dos modelos cênicos que, por uma eleição da oficialidade histórica, prevalecem na cultura dominante. Para Cohen, a performance apresentaria um formato livre e anárquico constituindo assim uma forma híbrida de linguagem não-nomeável que agrega em seu bojo a participação de artistas de diversos campos da atuação estética como em "uma espécie de Legião Estrangeira das artes". Pode-se dizer, portanto, que a performance é uma prática estética baseada na desconstrução e reconfiguração aleatória ou combinada de estruturas normativas do corpo, do espaço/tempo e do discurso. A performance é, portanto, uma prática de contestação do artista contemporâneo. O corpo é mídia possível e pungente - esse talvez seja um dos únicos pontos de concordância entre a maioria dos performers e pensadores ocidentais que se dedicaram à teorização das artes performáticas.

Marina Abramovic atua nas duas frentes, sua atividade como performer é histórica, bem como a publicização de suas reflexões teóricas; sendo assim, hoje Marina é considerada um dos maiores expoentes da performance no mundo. A artista começou seu percurso na década de 70 quando ainda era uma jovem inundada por anseios estéticos que se apresentassem como problematização dos modelos vigentes. Um dos trabalhos mais marcantes de sua carreira foi realizado exatamente nos primeiros anos em que começou a se aproximar do mercado das artes; trata-se de um manifesto do corpo em que Marina talha com uma lâmina sobre a própria barriga uma Estrela de Davi enquanto sua postura física nos remete à configuração austera de um militar. Essa imagem lancinante recortando a carne feminina explode em efeitos discursivos que vão muito além do debate sobre as atrocidades genocidas do século XX. O ponto de vista apresentado por Abramovic nessa obra, através da visibilização do papel da mulher na luta contra o controle dos corpos exercido pela cultura política hegemônica, é um convite ao aprofundamento da discussão sobre os regimes totalitários no globo.

Os outros trabalhos de Marina, entretanto, à medida que as décadas foram passando começaram a apresentar um caráter muito mais subjetivo e quase sem realce político. Pouco a pouco a natureza compartilhável de suas ações performáticas foi perdendo espaço para outro viés artístico associado muito mais à individualização da experiência em face à anteriormente pretendida manifestação do corpo-discurso na esfera pública. A performance deixa de ser meio de difusão ideológica e se torna o próprio objeto discutido esteticamente pela performer.

Marina, atualmente aos 68 anos de idade, tornou-se um tipo de mestra das artes performáticas e analisa o seu trabalho como a expressão de um acúmulo de frustrações pessoais que, em grave medida, propiciaram sua ascensão para o patamar de gênio da arte. Segundo a performer, quanto mais fraturada é a estrutura emocional de uma pessoa, melhor artista ela pode vir a ser. Nesse sentido, é importante que nos perguntemos, diante de nosso cindido contexto sócio-cultural, por que não temos grandes gênios nascidos nos ambientes mais violentos e precários da geografia brasileira e latinoamericana?

A questão proposta acima não é de todo maliciosa, trata-se de um apontamento crítico sobre a percepção datada, restrita e colonizadora de Abramovic sobre a idéia de artista e sobre como encaramos as artes como um ofício genial, isso é, como um trabalho produzido por pessoas dotadas de talento e inteligência extraordinária.

O fazer artístico tomado como um ato genial corrobora com um estranho processo de "desdemocratização" das artes. Na música (linguagem essa de altíssimo grau performativo) temos bons exemplos de "desdemocratização": quando um menino ou menina da periferia tem a oportunidade de aprender a tocar algum instrumento de orquestra, imediatamente torna-se digno de atenção, pois, ao conseguir assimilar os refinados códigos das artes "eruditas" (ainda tacanhamente consideradas superiores quando comparadas às manifestações artísticas tomadas como "populares"), reitera valores meritocráticos neoliberais; esse menino ou essa menina passa a ser visto como uma pérola no deserto, a exceção da regra. A questão pautada a partir desse exemplo é: quanto custa um violino?

Se mais meninos e meninas pudessem ter acesso a violinos de forma democrática, a lógica da genialidade seria solapada, pois, a partir do momento em que todos podem ter relação com um instrumento musical criativamente, nas escalas "eruditas" ou "populares" - pouco importa -, cai por terra a teoria de que o espírito artístico é uma dádiva para raros.

Quanto custa o corpo e a lida com a subjetividade enquanto matéria de expressão? A "desdemocratização" das artes nada mais é do que o processo social de elitização de suas formas de produção e fruição.

O pressuposto de Marina Abramovic dita que a arte está radicalmente relacionada à vida e aqueles inclinados à prática da performance devem ser criaturas prenhes de valores suprapsicológicos. Por essa razão, como articulador do próprio existir, o performer estaria acima das questões mundanas - sua função seria, por conseqüência, explorar e atualizar as experiências energéticas individuais extraídas de fórmulas editadas a partir de práticas tradicionais da cultura oriental, ritos xamânicos, vivências metafísicas etc. cuja finalidade é a elaboração de simbologias íntimas e intransferíveis. A partir desses fatos, uma questão ético-filosófica insiste em falar: uma experiência apropriada, privatizada, que gera lucro para o seu "difusor" ainda pode ser chamada de experiência?

Marina, como grande precursora dessa base de ação performática, trouxe para nosso país o Método Abramovic com o intuito de realizar uma partilha de saberes junto ao público brasileiro. A série de encontros ocorrerá entre os meses de março e abril e foi organizada pelo SESC-SP junto ao Instituto Marina Abramovic. Essa e outras atividades fazem parte da programação de Terra Comunal, evento produzido em homenagem à performer.

Para quem?