OPINIÃO
27/03/2015 16:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Francisco e os tubarões

O poder exercido em uma perspectiva individual interessa às tecnologias da opressão. A palavra de poucos silencia a palavra de muitos, apenas os poucos se beneficiam e são alçados ao patamar do privilegiado existir humano, político, social.

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Há muitos anos, conheci certo escrito de Bertold Brecht que falava sobre homens e tubarões.

Como seria o mar se os tubarões fossem homens? Essa é a pergunta que Brecht responde ao longo de algumas preciosas linhas. O mar seria uma sociedade civilizada na qual os tubarões opressores comandam seus peixinhos oprimidos através do poder da força política e da cultura.

Mas tão somente se os tubarões fossem homens. Homens são mais cruéis, violentos e tristes que tubarões.

Em uma cena do instigante filme Som ao Redor dirigido por Kleber Mendonça Filho, Francisco - a personagem que representa uma espécie de coronelismo urbano - vai tomar banho de mar à noite em uma praia do Recife.

Vai solitário por entre suas ruas - ele é o proprietário da maioria das casas da região, sua família é o pilar dos dinamismos imobiliários daquela fatia da cidade. Sua história pessoal é arraigada na história da terra e da desigualdade social. Francisco anda.

Um dos vigias noturnos comenta algo sobre ele vagar sozinho por aí. Francisco chega à praia. Corta para uma plaquinha de aviso (dessas que encontramos nos oceanos mais revoltos) na qual o espectador lê: "cuidado tubarões". Neste ínterim, Francisco surge no meio das águas salgadas a realizar seu mergulho noturno.

A primeira leitura que fiz da cena foi a de que a personagem nada junto aos seus iguais; mais tarde, conversando com o poema de Brecht novamente, compreendi não se tratar de uma comparação.

É provável que a trama crítica e poética da cena esteja de fato em outro lugar: Francisco e os tubarões não são iguais, Francisco não teme os tubarões porque os tubarões temem Francisco. Até os tubarões temem Francisco.

Essa lógica do medo me lembra dos ensinamentos dos adultos na época em que eu era criança e tinha pavor de bichos como onças e dragões. Minha avó dizia que diante de um cão bravo, por exemplo, eu não deveria demonstrar emoções.

Se fosse possível guardar todo o meu temor e me afiançar pela coragem, eu conseguiria inverter a situação e exercer autoridade sobre o animal. É assim, uma postura autoritária garante a sobrevivência e em alguma medida, o poder.

Mas será mesmo que o único jeito de fugir do posto de oprimido é tornar-se opressor? Qual será a saída dessa manutenção da desigualdade?

Eu não tenho resposta, mas algumas pistas têm se revelado nesses últimos anos em que eu participei de várias lutas populares por realizações políticas nas quais eu acreditava e acredito. O poder exercido em uma perspectiva individual interessa às tecnologias da opressão. A palavra de poucos silencia a palavra de muitos, apenas os poucos se beneficiam e são alçados ao patamar do privilegiado existir humano, político, social.

O poder organizado pela reunião de muitas pessoas, entretanto, tem por objetivo o benefício coletivo, pelo menos idealmente. É pelo ideal que se sai às ruas com pulmões inflados, em busca de horizontes muitas vezes esmaecidos pelos grandes muros que mal e porcamente são construídos para tentar nos convencer de que para além do que se vê nada mais há.

Brecht permanece vivo nas paisagens marítimas que constantemente brotam na vida cotidiana. Tubarões sufocando peixes que sufocam peixes menores. Novamente o mar salgado a entrar nos olhos como lágrimas ao revés ou como o efeito lacrimogêneo de algumas bombas da paz. Que sorte a dos tubarões de não serem criaturas humanas. Corta. Sonho com cardumes.