OPINIÃO
22/10/2015 13:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Banda Renatinho, Petra Lazlo e transfobia

Tal qual o racismo, por exemplo, a neutralidade se revela como ideologia quando nega a si mesma, isso significa que todas as vezes que um humorista decide responder a uma crítica com a justificativa do isso não faz mal a ninguém

Divulgação

Eduardo da Silveira Campo, em curta e assertiva análise sobre o episódio Petra Laszlo, fala sobre a atitude da cinegrafista húngara em relação aos refugiados que agrediu, como uma metáfora de seu posicionamento político como jornalista diante do episódio documentava. Em tempo, para quem não soube do ocorrido: Petra, em determinado momento da ação narrativa que executa com sua câmera, dá uma rasteira em um migrante que carregava uma criança no colo, impedindo-o de continuar o seu processo de deslocamento territorial e, talvez, de sua salvação político-social. Laszlo também desfere chutes e pontapés contra outros refugiados, adultos e crianças.

Silveira Campo nos fala sobre como esse golpe não captado pela câmera de Petra torna-se um imperioso símbolo - quando retratado por lentes distanciadas de um segundo cinegrafista - do que viria a ser a ilusória neutralidade no jornalismo.

Tomo a liberdade neste texto de desdobrar a ponderação de Eduardo da Silveira Campo para uma zona mais massificada da comunicação social, gostaria de falar aqui sobre piadas.

A neutralidade exercida de forma naturalizada e naturalizante por Petra, em seu duplo agir na cena dos refugiados, é a mesma que dá governo aos argumentos de grande parte dos humoristas brasileiros do passado, do presente e, intuo, do futuro.

Em todas as instâncias em que esses ditos comediantes são questionados sobre o ponto de vista ético de suas pílulas humorísticas, a resposta é sempre a mesma: trata-se apenas de uma piada. É apenas humor. Não faz mal a ninguém. Em outras palavras: trata-se de um discurso neutro que não fede nem cheira. Aí reside o perigoso movimento da neutralidade enquanto abrigo de conservadorismo e destilaria de velhos preconceitos: a afirmação do caráter neutro do que se fala e de como se fala é a maior expressão do real valor tendencioso e parcialista da neutralidade.

Tal qual o racismo, por exemplo, a neutralidade se revela como ideologia quando nega a si mesma, isso significa que todas as vezes que um humorista decide responder a uma crítica com a justificativa do isso não faz mal a ninguém, ele na verdade está a afirmar, pelas entrelinhas, justamente o contrário: isso está fazendo mal a alguém, mas não importa.

Toda piada tem uma mira e alguém sempre sairá doído. Essa lição já foi amplamente difundida, é um saber exaustivamente repetido pelas celebridades do humor que têm verdadeira adoração por demonstrar como compreendem matematicamente as fórmulas de suas cantilenas.

Entretanto, a questão levantada aqui - e em tantas outras elaborações sobre o tema, como o documentário O Riso dos Outros - é mais profunda do que a logística entre a flecha e o alvo a ser ridicularizado pelo ridicularizador.

Minha indagação não é inédita: por que as anedotas dos humoristas celebrados pela grande mídia atacam, na maior parte das vezes, as minorias políticas e sociais?

A Banda Renatinho é mais um desses projetos de humor supérfluo que tenta engatar no mercado da comédia basicamente pela força de dois esteios: o primeiro deles são as composições autorais bobocas que se avalizam justamente pelo segundo elemento fortalecedor do projeto: a fama dos integrantes da banda. Todos ali são conhecidos, em maior ou menor escala, por seu trabalho na comédia stand up e variantes. Esse é, a meu ver, o que motiva os espectadores/ouvintes a curtirem e compartilharem a música Travesti de Fogo.

A graça da composição se localiza unicamente no reconhecível humor de Tatá Werneck (a figura mais massificada do conjunto), fora isso, a canção tem um tratamento transfóbico, misógino e desumanizador que já deveria ter deixado de existir há muito tempo na criação de artistas conhecidos.

Os versos de Travesti de Fogo nos contam sobre o medo que as travestis produzem nas pessoas. Mais adiante, o mesmo se fala de tupperwares, de modo a constituir na letra da música um quê absurdo a partir do qual se manifesta o dado cômico. Nesse sentido, travestis e tupperwares, são elementos que, conjugados semanticamente, operam como o verniz nonsense da canção.

Essa poderia ser somente mais uma produção tosca no lamaçal do humor brasileiro não fosse pelo grave fato, político fato, de que travestis foram mais uma vez coisificadas, objetificadas, excluídas novamente dos limites normativos do que é ser humano.

As travestis e transsexuais não podem ser vítimas de uma pérfida simbologização que reitera os preconceitos por elas vividos, para alimentar o ego e os bolsos de jovens comediantes brancos, cis, muito bem nascidos.

Fui acusada de exageros. O número de travestis e transsexuais que são assassinadas porque as pessoas "têm medo delas" parece também um exagero, mas não é. A violência transfóbica é uma dura realidade.

Se piadas não tivessem efeitos sociais, psíquicos e políticos objetivos, não teriam por tema referenciais reais e sim abstratos (o problema é que uma piada sobre abstração não existe, a piada precisa ter elementos reconhecíveis ao público para se constituir - por esse e outros motivos ela é, por excelência, material político). O humor é sempre político, é sempre social, cultural e econômico. Os humoristas da grande mídia lucram o suficiente para recusarem o risco de criar algo novo, algo de viés menos conservador e que pudesse talvez, em alguma medida, libertá-los primeiramente de si mesmos.

Melhorem.

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