OPINIÃO
12/02/2015 14:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Perigos embutidos

São os mais perigosos. Inventariando os passos que, segundo ele, o Brasil deve dar para emular a China (Xangai, fundamentalmente), nos diz que o terceiro passo deve ser: "só invente quando necessário. De resto, copie e adapte. Os chineses mandaram - e continuam mandando - suas melhores cabeças para todo país em que algo de bom está sendo feito. Copiam sem pruridos nem remorsos. Eles entenderam que talvez a única vantagem de começar atrasado é não precisar repetir os erros que muitos países desenvolvidos cometeram até encontrar o caminho certo. Se esse caminho é aplicável à realidade chinesa, ele é copiado. Se precisa de correções, é adaptações". Ele é Gustavo Ioschpe, em seu artigo para a Veja.

São os mais perigosos.

Inventariando os passos que, segundo ele, o Brasil deve dar para emular a China (Xangai, fundamentalmente), nos diz que o terceiro passo deve ser: "só invente quando necessário. De resto, copie e adapte. Os chineses mandaram - e continuam mandando - suas melhores cabeças para todo país em que algo de bom está sendo feito. Copiam sem pruridos nem remorsos. Eles entenderam que talvez a única vantagem de começar atrasado é não precisar repetir os erros que muitos países desenvolvidos cometeram até encontrar o caminho certo. Se esse caminho é aplicável à realidade chinesa, ele é copiado. Se precisa de correções, é adaptações".Ele é Gustavo Ioschpe, em seu artigo para a Veja.

São os perigos mais perigosos - dizia - porque vêm disfarçados de enunciados dados como óbvios, verdades de fato e até truísmos, proclamados pelos consagrados de sempre. O tom do parágrafo transpira essa suficiência própria daquele que sabe que está dizendo algo que não aceita a menor discussão, que se impõe e ganha o aplauso em qualquer debate aberto, e com isso ele está reforçando significativamente o eixo de seu artigo. Um tiro certeiro; a carta vencedora; um esquema profissional.

Mas tomar como óbvio que é melhor copiar do que inventar? E muito mais quando se é subdesenvolvido, periférico, pobre e lateral (ainda que seja o Brasil)... Isso é o que me preocupa e é disso que não gosto.

Já me referi à dimensão política do assunto, mas não me aprofundarei nela. Vou me centrar em outras duas; na ética e na pedagógica, ainda que também pudéssemos chamá-la psicológica.

Ainda sem ir a fundo, não vou deixar de assinalar que copiar é uma ação de ética duvidosa. Não pela infração que supõe (que, além disso, nesse caso de "modelos", não é clara nem finalmente), senão pela posição subjetiva que revela. Não leio que ele nos esteja propondo que os chineses ajudem o Brasil em matéria educacional; leio que propõe que copiemos os chineses, sem os chineses. E posso imaginar porque o faz...

Mas a dimensão do problema que mais me interessa é a pedagógica-psicológica (que não é a mesma coisa que psicopedagógica, seja dito de passagem). Quando Gustavo recomenda a cópia e subestima quase com sarcasmo a invenção - "só invente quando for necessário" - transpira uma concepção dos processos constitutivos das pessoas e das organizações que se foca exclusivamente no produto delas e ultrapassa, como se não existisse, o valor constitutivo do próprio processo. Ele gosta de chegar, não de viajar. E isso - creio - por duas razões.

A primeira é porque não compreende que educar não é "produzir produtos", senão produzir produtores. E os produtores - em minha semântica - são os inventores. O processo de copiar anula; ao menos atrofia, reduz inexoravelmente. É redutor. O processo de inventar - em mudança - desenvolve, molda, estimula e constrói. O saldo subjetivo do processo é diametralmente oposto quando se fala de cópias ou de invenções. De criações, poderíamos dizer (porque, às vezes, o verbo "inventar" parece demasiado pretensioso e queria retirar detratores ou provocadores distorcivos de meu argumento).

Inventar constrói sujeitos; obriga à apropriação do produzido por parte do produtor. Pelo contrário, a cópia nos confina à reprodução, simplesmente; nos torna quase objetos. O que inventou faz seu o invento; confunde-se com isso. O que copiou se terceiriza de seu produto; se dissocia dele. E o inventor - individual ou em grupo, insisto - é um tipo de sujeito, com um tipo de potencialidade, totalmente diferente do copista. Talvez o copiado sirva, mas o copista, não. E no inventado, pelo contrário: talvez o inventado não sirva, mas o inventor, sim.

E outra, porque para Gustavo elites são elites; e não consegue pensar que as invenções possam surgir das periferias, desacreditando o poder cultural hegemônico das elites que insiste em chamar de "países desenvolvidos". E nem imagino se ele conseguiria perceber finalmente que o que estou propondo não é apenas que nos ponhamos a inventar - esquecendo aqueles desenvolvidos -, senão que o saldo disso não será apenas o inventado, senão os exércitos de inventores que ficarão por estas selvas.

Sei que poderão dizer que estou exagerando; que coloquei Ioschpe em um lugar que não pretendia e que estou forçando a intencionalidade de sua publicação. E é verdade. Só que é justamente a dimensão tácita de seu argumento, que parece clara no tom, ainda que esteja ausente de sua consciência, a que gera o perigo embutido que me assusta e de que quero prevenir.