OPINIÃO
25/02/2016 11:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Pela dignidade do cérebro

Esse posicionamento de que falo é uma intuição; uma construção forçada, subjetiva e às vezes extremada que talvez contribua para o debate geral, mas que sobretudo serve como esqueleto vertebral da sua voz crítica. Não importa que esteja certa, importa que seja boa. Você é alguém na medida em que se posicionou sobre algo. Está obrigado a interpretar a realidade para existir. Mas, voltando. Me agrada e me estimula a posição crítica que adotei naquela primeira publicação perante a demasiadamente celebrada neurociência. E logo comecei a vasculhar.

John Lund via Getty Images
Light trails coming from African American's head

Antes de me documentar, me posicionei. Disse no meu artigo Esse Conto dos Hemisférios que essa ideia neurocientífica da divisão de sensibilidades dos hemisférios do cérebro me parecia pouco atraente e que estava pensando que não é verossímil que um órgão tão, mas tão complexo como o cérebro tivesse uma topografia tão elementar, apoiada em categorias tão rudimentares. Tive mais comentários do que de costume e quase todos eles indignados. Interessa-me refletir sobre essa reação.

Creio que causam indignação duas coisas que esse artigo coloca como manifesto com mais radicalismo que outros. Uma é a construção de uma visão desrespeitosamente crítica de uma ideia encantadora para a visão comum; uma ideia "científica", atacada a partir da ensaística conceitual é uma ofensa moral insuportável (como se um negro pretendesse impor-se a algum branco) e um desatino próprio de um improviso. E outra é que é pouco científica e documentada a base conceitual da minha crítica. Incomoda que me apresse em tomar posição; incomoda que abandone o tom ponderado cientificista da verdade revelada; e enche o saco que eu me atreva a mexer com seus totens. E eu me dedico a isso.

Mas além disso creio fervorosamente nessa lógica da construção do sujeito crítico como condição essencial da criticidade e da subjetividade: intuo e me coloco diante do problema e logo então me debruço sobre ele e suas profundidades, se valem a pena. Enquanto o posicionamento não for uma atitude inicial e uma ética irrecusável, jamais haverá criticidade, sagacidade e sobretudo construção.

Você deve definir quem é diante dessa problemática; e não pode esperar demais para fazê-lo; corre o risco de se desconcertar diante de tanta informação. Os excessos de documentação sem posicionamento construído acabam com o documentado e o resumem a uma patologia de difícil reversão, que se chama às vezes de erudição ou outro academicismo.

Esse posicionamento de que falo é uma intuição; uma construção forçada, subjetiva e às vezes extremada que talvez contribua para o debate geral, mas que sobretudo serve como esqueleto vertebral da sua voz crítica. Não importa que esteja certa, importa que seja boa. Você é alguém na medida em que se posicionou sobre algo. Está obrigado a interpretar a realidade para existir.

Mas, voltando. Me agrada e me estimula a posição crítica que adotei naquela primeira publicação perante a demasiadamente celebrada neurociência. E logo comecei a vasculhar.

Vejam o que encontrei.

Disse então que não entendia bem qual era a diferença entre a neurologia e neurociência e quanto mais procurei, mais adoeci. Não há conceito que justifique a diferença (Encontrei que neurologia é - etimologicamente - o estudo do nervo e que a neurociência é o estudo do sistema nervoso. Encontrei que parece que a neurologia é associada com a cura de enfermidades neurológicas e a neurociência com o estudo dos comportamentos neurológicos...).

A diferença entre elas é uma convenção que talvez esteja a serviço de dotar de esoterismo uma disciplina científica milenar com o afã de encontrar padrões gerais de comportamento que alimentem o discurso apaziguador e simplificador de nossa humanidade, que preconiza a quatro ventos a tão vendida autoajuda.

Felizmente, quando vasculhei, encontrei também dentro da neurociência algumas consciências claras sobre a torpeza das esquematizações que circulam emanadas delas mesmas. ("A ideia de que os dois hemisférios do cérebro possam aprender de maneira diferente tem, na prática, bases na investigação neurocientífica. A ideia surgiu do conhecimento de que algumas habilidades cognitivas estão diferentemente localizadas em um hemisfério específico - exemplo, as funções de linguagem são comumente realizadas por regiões do hemisfério direito do cérebro nas pessoas destras sãs.

Sem dúvida, uma grande quantidade de conexões fibrosas une os dois hemisférios do cérebro nos indivíduos neurologicamente sãos. Cada habilidade cognitiva que tem sido investigada com o uso da neuroimagem utiliza uma rede das regiões do cérebro estendida com o passar dos dois hemisférios, incluindo linguagem e leitura e, portanto, não existe evidência de que para qualquer tipo de aprendizagem há um lado específico do cérebro"). Alegrou-me, mas não invalidou minha posição crítica. Cansei de escutar discursos apoiados na neurociência que se baseiam naquela divisão maniqueísta topográfica elementar e a partir daí soltam um modelo educacional simplório. Não pretendo atacar a neurociência; pretendo desmontar a impostura desse pacote conceitual que se oferece como cimento de excessivos preconizadores da nova educação.

E continuei vasculhando. Então encontrei mais evidências da complexidade insondável e apaixonante de nosso cérebro em algumas outras manifestações dos neurocientistas. ("A tarefa central das neurociências é a de tentar explicar como funcionam milhões de células nervosas no encéfalo para produzir a conduta"). Tentar explicar com um modelo binário tonto um órgão com milhões de componentes e sua consequente incomensurabilidade estatística de variáveis combinatórias é no mínimo desproporcional. A ansiada complexidade do real começou a voltar ao debate e eu comecei a sossegar.

Assim, sim. O cérebro nos interessa, mas não para desmistificá-lo.

Mas já sabem que sou educador e, então, enquanto vasculhava, desviei um pouco e fui ver como estava chegando esse debate aos alunos; que tipo de estímulos cognitivos recebia um aluno sobre essa questão, atravessada pela ciência, a medicina, a psicologia, a política e o esoterismo. Mas não fui a um livro didático, quiçá porque não tinha nenhuma esperança nele para dar espessura às coisas; fui ao Rincón do Vago, supondo que no ambiente rebelde de uma web feita para ajudar os alunos que não querem estudar poderia encontrar versões mais vivas, menos estigmatizadas, mais dispostas a deixar ver as inconsistências do estereótipo academicista da informação.

Mas fracassei de novo, estrondosamente. Deparei-me com um muro de concreto de um metro de espessura ("Psicobiologia e neurociência têm uma parte comum, ainda que sejam diferentes. O campo da neurociência é muito mais amplo e trata de estudar as bases biológicas da conduta, concretamente, o sistema nervoso. O grande problema da neurociência é que não se pode estudar diretamente o sistema nervoso humano porque a experimentação não é ética. Para isso, deve-se abordar de uma forma indireta, através das patologias, lesões etc., experimentos com que nos brinda a própria natureza.

A neurociência avançou muitíssimo nos últimos dez anos, ainda que isso não signifique que saiba tudo. Em neurociência, não apenas influi a psicologia, mas também outras disciplinas como a física, a química, a citologia, a imunologia, a anatomia etc., com todos os conhecimentos com que tem contribuído com relação ao sistema nervoso. A neurociência é a que tem a informação sobre o sistema nervoso em todos os níveis"). Se, talvez, alguém, alguma vez, entrasse por curiosidade no site dos inadaptados, sairia morto ou padronizado.

Não há maneira de encontrar nesse texto para confusos algum giro que nos abra alguma coisa que valha apena. Outra oportunidade perdida e cada vez sobram menos. Então me esqueci dos hemisférios e me voltei a meu espaço natural. Conclui de uma vez que já nem os que cultivam a conspiração nos ajudarão na revolução e que os estereótipos academicistas, positivistas e elitizados são tão hegemônicos que vão desde vários de meus leitores ocasionais até aqueles rincões virtuais nascidos para desestabilizar, tornados funcionais ao positivismo cientificista.

("Então me permitam resumir e concluir. Tratei de mostrar que o cérebro é plástico. Está construído para mudar em resposta à experiência. (...) Qualidades como a paciência, a calma, a cooperação e amabilidade deveriam realmente agora melhor serem consideradas como habilidades que podem ser treinadas. Não são recursos que estão irrevogavelmente dados por nosso meio ambiente ou por nossa genética").

Encontro publicações que mostram que cérebro biológico e psicologia começam a imbricar-se, não tanto para nos trazer soluções superficiais, senão para nos devolver a essencial complexidade necessária. Não será pela via de esquemas do tipo "eu aqui, você ali" que encontraremos os caminhos.

Por isso respiro novamente. Inclusive, agora podemos devolver os créditos à neurociência; a aquela que honra seu espaço de trabalho e seu objeto de estudo. Aí sim, e não por meio de placebos conceituais, é que chegaremos alguma vez a perfilar uma escola definitivamente nova para essas crianças irredutivelmente complexas.

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