OPINIÃO
07/06/2015 12:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Os gênios não recuam

MastaBaba/Flickr
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Historicamente, o tesão não encerra uma proporção nem um peso relativo específico importante no que diz respeito àquele outro atributo humano, muito mais carismático, a que chamamos inteligência.

Costumamos acreditar e aprendemos a convencer-nos de que o tesão era atributo dos aprimorados, mas não dos geniais. E que a inteligência e a genialidade estavam necessariamente vinculadas.

Entretanto, à medida que a vida passa, à medida que vejo, que empreendo e reconheço os caminhos de gênios e genialidades, de engodos e das coisas que merecem pena, encontro em geral que não é a inteligência o que caracteriza e determina essa genialidade, senão o tesão.

Provavelmente, trata-se de um tesão sofisticado, refinado e sagaz; não de um tesão bruto, teimoso e míope; mas tesão, enfim. Não recuar. A convicção torna-se insistência de que o que se faz vale a pena e que vale a pena insistir até que seja feito. A sensação de necessidade. A imposição. A compulsão. O impulso irrefreável... Tesão.

Por isso creio que é justo, necessário e oportuno refazer as contas. Também encontro uma correlação muito direta entre visão genial e tesão inquebrantável. Quer dizer que, quando a ideia é genial, quando é profunda, aguda, perfeita - eu me atreveria a dizer - o tesão é imanente. Os gênios não o perdem. Ou, pelo menos, os gênios não recuam. E aí poderíamos usar exemplos de todos os tipos, desde Jobs até Kafka. E não recuam inclusive com total independência do reconhecimento e até do próprio engano. Não recuam porque a visão tem um magnetismo que gera impulso. É fanática. Radicaliza os estilos. O brilho da visão funciona como se fosse um imã. Obceca. Coage. Determina e dá sentido a qualquer atividade. Joyce. Mandela. Garrincha.

Se o que vejo é genial, quase tudo o que eu faça a partir daí tem justificativa. Ou dito de outra forma: não fazer o que devo fazer seria injustificável. Como poderia eventualmente me dedicar a outra coisa? Como investir tempo em outro lugar? Como? Como alguma coisa que não fosse minha própria morte poderia interromper meu caminho, minha convicção de que é preciso insistir com independência dos editores torpes, dos executivos míopes e grosseiros, daqueles que têm o poder, dos milionários néscios ou de qualquer outro burocrata de terno?

Claro, a história do visionário em geral é difícil. Por isso o tesão dele é tão louvável e permite esse elogio. Ou talvez seja esse próprio tesão que o condene à dureza. Mas é assim. Porque o visionário costuma ter argumentos para justificar sua visão que não condizem nem coincidem com as matrizes básicas e simples do sentido comum. Por isso são visões, de algum modo. Porque a evidência não é compartilhável. Por isso são algo mais que boas ideias, conceitos razoáveis. São visões porque saltam sobre a dedução lógica, a contiguidade de pensamento e invadem os terrenos virgens da intuição; zonas que não se justificam nem por sua lógica, nem por sua consistência, senão por sua transcendência e previsão. São instantâneos de valor.

Por isso é duro e difícil ser genial. Por isso é um diálogo de surdos e um caminho de loucos. Por isso é que o tesão volta, vez ou outra, a ser a chave da realização. Não recuar.

Milhares de gênios incompreendidos, de ideias geniais, de visões fantásticas, de empreendimentos significativos andam dando voltas por aí. De seu tesão e de sua habilidade para aplicá-lo em tempos finitos e curtos de uma vida, depende a realização deles.

Por isso a partir daqui, de minha nota, faço um voto de boa sorte para os "tesoneiros" e de iluminação para os que - de uma maneira ou de outra - têm as ferramentas para ajudá-los a realizarem-se.