OPINIÃO
20/07/2015 18:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O que os professores podem aprender com quem ensina surf

Surfar é difícil, eles sabem. Não subestimam sua complexidade, nem reduzem a longitude do caminho. Mas tampouco se dissociam dele; apropriam-se. E agora pegam ondas em seu tempo livre, assistem a vídeos de surf em casa, conversam entre eles sobre surf, estimulam seus amigos a viver a mesma experiência, convidam a mãe para fazer o mesmo etc. Sua relação com o surf não se restringe ao tempo de cátedra; pelo contrário, o tempo de cátedra multiplica suas instâncias de vínculo com o surf. O que não daríamos nas escolas para que acontecesse isso com o inglês, não é verdade?

TED ALJIBE via Getty Images
Enthusiasts learn to surf along the Songjeong beach in Busan on October 13, 2013. Songjeong beach stretches for 1.2 km, covering an area of 62,150 square meters and is the favourite for surfers and vacationers because of its shallow waters and fine white sand. AFP PHOTO/TED ALJIBE (Photo credit should read TED ALJIBE/AFP/Getty Images)

Eu sei que se trata de aulas de surf e que as extrapolações costumam incomodar e são pouco aceitas; mas insistirei. Não importa que seja surf, e não geografia; em mais de um ponto, trata-se do mesmo e, sem dúvida, fazemos o oposto.

Confesso que não tinha ideia de como seria uma aula de surf; sobretudo levando em conta que o mar me intimida. Era para meus filhos, de 7 e 8 anos, não para mim; já passou esse trem na minha vida. Interessei-me pelo processo. Os instrutores são todos surfistas, o que parece óbvio, e nenhum deles é educador, o que talvez pareça menos óbvio. Muitas vezes, em geografia ou em história, encontramos o contrário. De imediato, repartiram-se os papéis, que são absoluta e necessariamente complementares; não importa a seniority de cada um, distribuem-se funções frente à dinâmica do processo pedagógico em jogo.

De tudo o que me interessou e continua me interessando, houve algumas coisas que me interessaram até me deslumbrarem. Deslumbrei-me de imediato com a seriedade e o compromisso com que esses meninos faziam suas tarefas nesse contexto tão pouco sério de alguns turistas - estrangeiros, além de tudo - de férias e de passagem por essa praia.

Ou seja, não posso imaginar a priori um cenário mais efêmero e trivial que o nosso naquele primeiro dia de aula. Ainda assim, eles se posicionaram com a maior seriedade como se aquilo fosse profissional e fosse durar pelo menos alguns anos. E, claro, isso tem impacto; impacto nas crianças, que sentem essa seriedade, que se traduz imediatamente e sem mediar palavras na admissão de sua responsabilidade. Digo que o fazem com seriedade não só pelo curso do processo, senão também porque na classe circulam ao mesmo tempo as dimensões técnicas e as dimensões místicas do surf, nenhuma em detrimento da outra. Bem-vindos ao espírito do surf, foram as boas-vindas tácitas que receberam meus filhos naquela manhã; ainda assim, no dia seguinte, decidiram não voltar.

Talvez não importe, mas convém que saiba - leitor - que esse primeiro dia acabou levando a outro e a outro e, agora, acontece que vamos a essa praia a cada três semanas e que meus filhos investem duas horas diárias em suas aulas de surf, minuto a minuto, incansavelmente.

Mas, além da seriedade, interessou-me muito a maneira pela qual esses grandes professores combinam discurso e prática, experiência e técnica. Não diria de nenhuma maneira que as aulas são teóricas, porque não são; mas tampouco diria que deixam de sê-lo. Meus filhos (que têm hoje em dia umas 25 horas de aulas acumuladas cada um) sabem bastante teoria do surf; até eu sei, por intermédio deles. Sabemos como se leem as ondas, o que quer dizer parede, tubo, maré, "tomar caldo", os tipos de pranchas, as diferentes posturas corporais etc. Receberam a informação necessária enfiados no mar, encostados nas pranchas, esperando a próxima onda. Ali, dentro da experiência, eles estudam.

Também receberam parte da mística, em condições parecidas. Contam que o surfista pode morrer, que o mar emite mensagens, que o surfista sempre observa ao mesmo tempo o horizonte da costa e a parede lateral da onda etc. Os rituais de fixação crescem a cada aula, entrar no traje, passar parafina na prancha de uma determinada maneira e em seu ritmo, levar a prancha embaixo do braço, caminhar até o mar, colocar o traje para secar, sacudir o cabelo na saída de cada onda etc.

Vejo como cresce o surf neles, integralmente, organicamente, verdadeiramente. Vejo como cresce o surf e não vejo crescer a geografia, que em vez de 25 horas deve levar umas 250 horas acumuladas neles.

Também venho acompanhando de perto a gestão da confiança. O maior perigo para um menino diante do imenso desafio de surfar é seu próprio medo. (E ao mesmo tempo, a ausência de uma dose eficiente de medo será seu maior risco.) Não é nada fácil administrar esse processo. Se o menino não ganha confiança e, com ela, independência, nada caminhará bem. Mas, por outro lado, se um menino de sete anos como Mateo tiver confiança demais, pode morrer a qualquer minuto. O mar não sabe que ele tem apenas sete anos. Por isso, esse jogo de soltar e pegar é um jogo de sutileza máxima. Mas se Mateo não tiver confiança, o processo será completamente inútil. O professor avisa que o mar é perigoso (que mata), mas também dá recursos para construir uma boa amizade com ele. Como festejam as boas ações! Mas nunca os vi aplaudir alguma coisa que não tenha mérito. São justos e retos. E sempre dão um passo a mais de exigência, não será uma coisa que se sinta que aquilo é fácil e já se conseguiu.

A técnica vem, mas pouco a pouco. Ninguém disse à minha filha Eva como era surfar na parede até que ela conseguisse se estabilizar em sua prancha. Ninguém falou demais. Deixaram que ela se interessasse e perguntasse. E sempre responderam. Ela - previsivelmente - agora pergunta o tempo todo.

Entretanto, eles não têm sua prancha. Não é o momento ainda. Devem querer tê-la. Sem dúvida, já passam horas no mar, surfando ondas com o corpo, ou tentando, ao menos. Passam ondas umas por cima das outras - dependendo de sua configuração - por baixo. Intuem sobre o mar infinitamente mais que há dois meses; e não porque tenham tido experiências prévias do mar e da praia, mas porque essas aulas de surf estão potencializando suas capacidades de viver a experiência da praia e do mar, exponencialmente.

Essa curva ascendente até a vertigem não a vejo na matemática, nem na linguagem. Não vejo a aceleração que vejo no surf; pelo contrário, diria.

E se quisesse exagerar, diria também que não conectaram um só dado obtido na aula da escola com a experiência viva do mar. E isso que estudaram os mares. Estudaram, mas não se relacionaram subjetivamente com eles, como fizeram agora com esse mar, pelo surf.

Surfar é difícil, eles sabem. Não subestimam sua complexidade, nem reduzem a longitude do caminho. Mas tampouco se dissociam dele; apropriam-se. E agora pegam ondas em seu tempo livre, assistem a vídeos de surf em casa, conversam entre eles sobre surf, estimulam seus amigos a viver a mesma experiência, convidam a mãe para fazer o mesmo etc. Sua relação com o surf não se restringe ao tempo de cátedra; pelo contrário, o tempo de cátedra multiplica suas instâncias de vínculo com o surf. O que não daríamos nas escolas para que acontecesse isso com o inglês, não é verdade? Ou com a leitura? Imaginam?

Então, não acontece porque somos muito piores professores que eles, os do surf. E não devem sequer saber que existe uma ciência a que nos obstinamos a chamá-la de pedagogia.

Eu disse lá em cima, de passagem, que todos eles eram surfistas e quero voltar a isso. Não costuma acontecer o mesmo com as escolas, onde o professor de matemática muitas vezes não é matemático, nem o de biologia, biólogo; costumam ser todos demasiadamente professores e simplesmente professores. Quer dizer, não fazem geografia com a geografia, nem literatura com a literatura; limitam-se a ensiná-las, que é uma maneira elíptica de não fazer, nem fazer com que os alunos façam.

Certamente, ficou fixada também em mim a imagem dos professores de surf aproveitando o curto break de almoço para entrar de novo no mar com suas pranchas e fazer seu surf, dia após dia; para comer sempre haverá tempo - parecem dizer. Em paralelo e em contraste, não consigo me lembrar de nenhuma professora de linguagem nem professores de ciências sacrificando seus almoços para ficar pesquisando no laboratório ou lendo seus livros como passatempo ou até como vício.

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