OPINIÃO
28/03/2016 21:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Estamos rodeados de miragens de inovação feitas para nos cansar

Shutterstock / ollyy

Subscrevemos com facilidade, e até com ênfase e entusiasmo, que a ciência trabalhe com afinco em favor de qualquer recurso que nos ajude a prolongar nossas vidas. Não temos nenhum tipo de problema em investir o dinheiro necessário na agenda da longevidade, ainda que seja muito e o resultado, ainda assim, escasso.

Queremos viver mais e só nos vêm à mente coisas boas quando imaginamos uma vida mais longa. Chamo esse traço de "evolução", ainda que não me escape que contém inovação, criação de outras ações da mesma série semântica.

É uma inovação não inquietante, mas, sim, ilusória: teremos mais do que já temos hoje e, inclusive, melhor. Como resistir a isso ou negá-lo? Só avançamos. É pura ganância. Não precisa de nenhum esforço intelectual para perceber seu "benefício", nem há tampouco nenhum duelo emocional a ser travado, porque se ganha sem perder nada. Parece a panaceia da inovação e pode ser que seja, mas é exatamente o tipo de inovação que não me interessa.

Inova-se, mas ninguém se inquieta. Por isso não me convence; não posso desconectar a inovação da desestabilização e da inquietude. Quando encaramos a longevidade como um feito, não identificamos em seu extremo, no seu limite - em sua projeção no horizonte - justamente aquilo que, ao mesmo tempo que a realiza plenamente, a desarma.

É sempre assim; no limite do que progride espera habitualmente sua exasperação e sua negação. Esse limite nefasto e intrínseco é o que me interessa na inovação. Essa é a inovação que me interessa, quero dizer. No extremo projetado da longevidade, aparece a eternidade, como sua realização e sua destruição, ao mesmo tempo. A ciência que amigavelmente está buscando o prolongamento da vida também trabalha - ainda que não o saiba, ou não o reconheça - com a abolição potencial da morte. E se assim fosse, o que seria?

Quero focar nesses extremos invertidos, que em vez de seguir colocando para frente voltam transformados. Armam-se ali nos extremos - sempre distantes e frequentemente difusos - e quando começam a regressar, a nós que continuamos avançando, nos causam vertigem, medo e um impacto nítido na retina daquele que nos transformou.

E nada é igual. E quero olhar para eles não quando voltam e saltam pelo ar as lascas de tudo o que destruiu com sua aterrisagem pesada, senão antes, quando estão em formação e os olhamos de soslaio como se olha para o meteoro que nos impactará; e sua figura é distante e pouco definida; quando é quase apenas conceito. Quero trabalhar com a eternidade hoje, porque temo que a ciência por fim a trará a nós e pressinto que ali, à distância, está se configurando agora. E se não estivermos prontos, talvez seja tarde e, principalmente, pouco interessante.

Esse limite que se desvela é transformação, não evolução; supõe uma ruptura; contém um salto; opera uma quebra. Mas também supõe uma negação. Costuma ser invisível porque a saturação conceitual incomoda; costuma não ser vista porque obriga a redefinir. Deixamos invisível porque é insuportável.

Saturado o modelo ptolemaico de dois mil anos de sobrevivência, vem Copérnico para estalá-lo e invertê-lo (não sem revezes, tensões, regressos e resistências - eu sei - como os movimentos de então do milionário e cientificista Tycho Brahe). E isso acontece porque os paradigmas são construções sociais que têm sua época e respondem a seu contexto. A cosmovisão que explica a realidade é histórica e muda; isso é o que muda, na realidade, quando a realidade muda. Isso acontece quando se inova; isso é o que se faz quando se inova.

E o paradigma é - também - um bastião político, um reduto de resistência e poder, um modelo conceitual e social que se move para cá e para lá e resiste a se deixar matar. É normal. Entre suas muitas resistências está também a da negação e da ridicularização de sua contradição. Julga e condena o que possa vir do horizonte porque sabe que se viesse, iria contra ele.

A longevidade se protege da eternidade; olha com ironia, a exclui do campo científico e a confia ao desvalorizado campo esotérico. Faz como se a subestimasse, mas na realidade é que a teme horrorosamente. O mesmo acontece com todos nós, todos os dias em nossos ambientes, sejam quais forem; sempre dormimos com o inimigo e convivemos de perto com o ignominioso. O limite que nos invalida e nos redefine é parte do que hoje nos estabelece; é parte, mas é seu revés; é sua contracapa; por isso muitas vezes não é visto.

Gosto de desvelar os revezes. Diverte-me e, além disso, creio que merece a pena; científica e eticamente, mas também politicamente. Gosto muito de ver como se desmontam as estruturas estabelecidas que se costumava chamar de realidade e, na realidade, são construção; gosto sobretudo de vê-las morrer de medo, tremer.

Me atrai analisar como operam em sua pós vida e como negociam sua morte. Me atrai assistir a construção de uma nova ordem e as tentativas iniciais de negociações de poder e de valor. Gosto quando reina o desconcerto e me entedio quando governa a certeza.

Mas além de me interessar e me divertir e de me entediar plumbeamente, além disso - dizia - a questão é que as coisas não são assim. Não advoguemos por evoluções bem tratadas midiaticamente porque, em geral, escondem o que dizem promover; sabem que são frágeis e, então, avançam com seus milhares de espelhos coloridos para que não nos demos conta e desistamos do que nos move.

Há exemplos do que estou dizendo em tudo e também em educação. Há muita - excessiva - tecnologia e nova pedagogia postas a serviço de levar eficiência a um modelo que está morto; de revesti-lo do que não tem para não desnudar seu niilismo.

Há iniciativas a cada cinco minutos trabalhando para que o modelo mestre evolua e, assim, adiemos sua transformação. O morto, ainda que morto, não fica quieto, como as aranhas depois que as pisamos; incorpora o que nós temos entre as mães para nos tirar a novidade, mas anula a intencionalidade disruptiva que possa ter.

Pensemos nos celulares, trabalho por projetos, aprendizagens ativas, construção do conhecimento, conteúdos livres e tudo mais. Não digo que haja uma ciência que trabalha com tanto tesão a favor de prolongar a vida movida - essencialmente - por diferenciar a agenda politicamente inquietante da eternidade; não digo, mas penso. O mesmo penso em matéria de educação.

Estamos rodeados de miragens de inovação feitas para nos cansar, confundir e dissuadir ao fim da profunda e definitiva transformação de que o modelo educacional precisa. Por isso é importante que, em publicações como essa, que promovem o que promovem e se comprometem com isso, possamos construir nossa posição. E abrir o debate, se for necessário.

Mas jamais ficarmos quietos e deixarmos que as coisas continuem como se nada estivesse ocorrendo.

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