OPINIÃO
11/12/2015 18:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Educação 3D

school

Cada vez que escuto um educador usar a palavra "educação", ou "ensino", ou "aprendizagem", "didática", "pedagogia", "conhecimento", "saber", "instrução" etc., não sei muito bem do que ele fala. Não sei porque essas palavras se desgastaram e os conceitos que supõem ou poderiam supor estão cada vez mais confusos e misturados.

Precisamos de uma matriz conceitual eficiente para poder recuperar nosso vocabulário essencial e nosso trabalho teórico; e precisamos explicitá-la. E então encaixar cada uma dessas palavras - e outras - nela, para que as coisas venham se rearticulando em um ecossistema consistente e claro, para que cada vez que alguém do mundo educacional disser algo, esteja dizendo realmente algo. Precisamos poder concordar com isso ou discordar disso. Hoje perdemos tanto a possibilidade de consenso, como a de dissenso, porque tudo é mais ou menos tudo e mais ou menos nada e mais ou menos isso e mais ou menos também o contrário.

Na escola, ou nos dedicamos a formar, ou nos dedicamos a informar. Não se pode fazer as duas coisas, até porque a própria etimologia nos impede, avisando que uma (informação) nega a outra (formação). Não se pode ser moral e imoral ao mesmo tempo; nem culto e inculto. Sem dúvida, quando os escuto falar em nossos constantes congressos, seminários, encontros, fóruns, espaços e oficinas, nunca termino de saber se estão trabalhando a partir da capa formativa da educação ou a partir da contracapa informativa dela. E é aí que me confundo e me perco.

Educar é formar; ou seja, não é informar. Formar exige colocar o sujeito sempre diante do objeto. O saldo do processo educativo não é a informação, senão o formado. Se a História Medieval serve para algo, é para tornar mais sólido o aluno que a aprende; a química não vale por si - se vale - mas pelo saldo que produz no formado em química. A química deveria nos constituir. Mas não o faz. E não o faz porque chega em "modo informativo", como a geografia, a biologia, a física e em geral as demais. Todo o sistema educacional passa qualquer tema em "modo informativo", até a literatura, a geometria, a alfabetização e as ciências. Tudo chega empacotado para que seja recebido e armazenado. E a isso costumamos chamar de "saber" ou "conhecimento". Quando dizemos que "sabemos" algo ou de algo estamos dizendo que podemos dar testemunho, é do pacote informativo desse algo que estamos falando. Estamos equivocados.

Mas as coisas, às vezes, voltam a se confundir, quando vamos à matemática ou à língua; aí não parece que se trate estritamente de um processo informativo. Em matemática, os alunos aprendem a resolver exercícios, não somente a conhecer a informação matemática. Sabem - os bons - resolver operações, equações, funções das mais diversas complexidades. O mesmo acontece com a língua, com a que acabam sabendo escrever redações, frases gramaticalmente corretas, conjugar verbos, alinhar gêneros, números e, além disso, governar as formas sintáticas estabelecidas de sua língua. Estão aptos a executar operações, mas não estão para reformulá-las, matizá-las ou produzi-las.

A escola que não forma e informa desconhece a instância produtiva do saber (que alguns chamam de "criatividade" e pode ser, ainda que me soe um pouco naif o substantivo). Produzir é construir com isso; propor algo mais que o que havia. Porque o que havia chegou a mim empacotado em seu "modo informativo". Formar é transcender o que nos é informado. E isso é produzir.

A informação é um meio para a formação e não o fim em si mesmo; e o é sempre que tiver direção suficiente para não interromper, atrofiar, inibir, reduzir e passivar, que é o que costuma acontecer em nossas escolas. Essa direção é timing, timing pedagógico, que a informação entre quando houver sujeito para fazer algo com ela.

Formar é aprender a fazer algo com o que sei. Fazer é mais que saber. Não quero que, em Educação Sexual, me informem sobre a sexualidade, mas que me formem para ela e que eu possa fazer mais e melhores coisas com minha sexualidade. Mas a escola não me entende.

Você deve estar se perguntando - leitor - por que então intitulei esse texto de "Educação 3D", se nada falei sobre isso. Tem razão; deixei essa parte para o final. Precisava desse contexto para apresentá-la.

Estamos convencidos de que a educação deve se organizar por temas; assim são os currículos. A noção de tema parece axiomática. Eventualmente, a comunidade educacional se mostra às vezes disposta a discutir quais temas e em que ordem, mas não a própria noção de tema. Sem dúvida, sob a matriz de formação-informação, o que devemos discutir é o conceito de tema. Costumamos entender por tema um recorte, por exemplo, a escravidão ou os numerais romanos; e estamos convencidos de que devem ser estudados neles mesmos, cada um em sua hora. Os temas no mundo educativo são unidimensionais.

Recortamos o período colonial e o desenvolvemos de maneira centrípeta, como se fosse possível. Não nos ocorre que seria muito melhor fazê-lo de maneira centrífuga e deixar que nos leve a monarquias europeias, à religião católica, às crenças geográficas e astronômicas ou aonde deseje nos levar. A multidimensionalidade nos causa medo. Resistimos a colocar a redação para trabalhar junto com a literatura, e deixar que essa tensão total entre elas alimente o objeto e fortaleça a formação do sujeito. Por isso o tema 3D, porque quando conectamos, rompe-se o modo informativo e coloca-se em marcha o modo formativo. Tudo é infinitamente mais complexo do que parece, mais relativo do que gostaríamos e muito, muito mais atraente. Mas falta colocarmos os óculos e vermos em 3D; a partir de todos os lados e para todos os lados, em volumetria.

Senão, as coisas não são entendidas, ainda que sejam lembradas. A escravidão, o racismo, a colônia, os sistemas de perspectivas... Se conseguimos focar em 3D o objeto de estudo, então o sujeito da formação aparece e se constitui. Se não, não. Por isso gosto tanto das sinalizações rebeldes à redução ao modo informativo; mas no fundo, é o mesmo ridículo que surge se nos perguntássemos para que serve ter informação sobre a História do Brasil se não conseguimos tomar uma posição política sobre o Brasil. E assim ocorre com a mecânica da função de segundo grau, se não somos capazes de construir uma equação de segundo grau, ou do Teorema de Pitágoras, se somos incapazes de produzir algo a partir dele.

Ou nos dedicamos a formar, ou nos dedicamos a informar. Não se pode fazer as duas coisas. Proponho essa matriz dicotômica e excludente para começarmos a nos entender.

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