OPINIÃO
18/11/2015 19:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Como essas bombas chegarão às escolas?

Hindustan Times via Getty Images
KOLKATA, INDIA - MOVEMBER 18: Students from different colleges and schools organized a candle march as they protest against Friday's Paris massacre by Islamic State of Iraq and Syria (ISIS) from Jodhpur Park to Alipore, on November 18, 2015 in Kolkata, India. At least 129 people lost their life in terror attacks by terrorists in Paris at the packed Bataclan concert hall, restaurants and bars, and outside the Stade de France national stadium. Islamist jihadist group IS, that has seized control of large parts of Syria and Iraq, claimed responsibility for the attacks. (Photo by Samir Jana/Hindustan Times via Getty Images)

De repente, uma explosão detona outras. Umas bombas caseiras em Paris nos colocam diante da complexidade social do nosso tempo. A mesma complexidade que as antecedia, mas que não emergia; pelo contrário, até que aparecesse o crack das bombas, parecia não haver complexidade, senão apenas maniqueísmo do mais simplório.

Estávamos todos tranquilos e Paris explodiu.

E a complexidade é um valor. "Bum" em Paris e, em poucas horas, alguém nos diz: "Acreditem em mim, se a população pudesse portar armas na França, a situação teria sido diferente"; outro diz: "A violência é injustificável. Minhas condolências pelos falecidos, tanto na França, como na Síria, no Líbano e na Palestina" e um terceiro que, se imaginarmos... "Quanto duraria um terrorista europeu com uma arma em uma mesquita síria na hora das orações? Não teria tempo nem de recarregar".

Uma bomba previsível e nossa monotonia manipulada da realidade (que parece um conto de escola) se estraçalha em pedaços; e emergem os mil matizes, as fissuras profundas, a complexidade em seu sentido puro, as conotações... O inexpugnável como ponto constitutivo, as interpretações como necessidade, a tomada de posição como dever e a vida como uma construção simbólica irredutível a nenhuma didática barata. E estávamos tão tranquilos.

A relação entre Ocidente e Oriente é a própria complexidade; e não há maneira de entrar nela sem honrar essa complexidade. Nem Pérez Reverte, nem Trump, nem Maradona tem total razão; não há "totais razões" nisso, nem em quase nada. Eles, postos em relação e em tensão como os põe o tecido social, são a verdade da complexidade do que acontece conosco. E como os três são homens de massas, os três se esforçam para poder dizer algo além dos estupores, das condolências e das quantidades de mortos que diz e repete a imprensa até a saturação.

Quando acontecem essas coisas, penso em como elas logo aterrissarão nos materiais didáticos e nos discursos dos professores. Chegam - quando chegam, quando já não dói em ninguém, quando já não faz sentido para ninguém - como dado histórico, que é o mesmo que o estereótipo da imprensa de hoje, mas sem o sensacionalismo que o sangue ainda úmido lhe confere. Chegam como um fenômeno natural, ou exclusivamente como um ato bárbaro irracional, inexplicável e injustificável em meio àquela calma ocidental. Chegam como uma certeza, ocultando que provêm de um desajuste essencial, de uma equação que não fecha. Quando explode uma bomba, emergem as verdades. Não é - felizmente - a única maneira de emergirem, mas é uma das mais eficientes.

Sempre que explode uma bomba, emerge a verdade como trama aberta e tensão complexa. Explode a história oficial e então estamos todos obrigados (por um momento, enquanto dura o impacto, enquanto governa o desconcerto) a nos postular com os elementos que temos, sem voz dominante que nos diga como temos que ler o que acontece. Isso é a verdade. Nos obriga a interpretar. Então surgem o Trump mais liberal e violento, o Reverte mais ácido e sutil e o Maradona mais outsider e consciente. E surgem outros milhares mais, que aproveitam a janela da ausência da voz oficial para definir quem são. Através da bomba, vivemos umas horas de hiperlucidez mundial; um insight pedagógico de escala planetária.

Isso até que o poder se reacomode, a imprensa tome conhecimento, os políticos se alinhem, o real se acalme um pouco e voltem todos a escutar os repetitivos proclamas da professora que nos contará que havia bárbaros e havia santos e que naquela ingênua e festiva noite parisiense de novembro, algo se quebrou nos sistemas de segurança e ocorreu o que não deve ocorrer nunca mais e morreram os que não tinham que morrer em mãos dos que deveriam ter morrido... E assim vai. Condolências, estupores, testemunhos comoventes dos sobreviventes, saltos pelas janelas, fotos de crianças colocando flores em frente ao restaurante.

Sempre é assim diante do inesperado. Não aprendemos. Não aprendemos que o mais verdadeiro do que nos acontece é esse inesperado, e não sua calma artificial e maniqueísta que o precedia e que voltará a acontecer.

Não proponho que a escola seja um culto às feridas abertas, mas tampouco que continue sendo a negação da condição humana como complexidade e ambiguidade. Inclusive, nem que seja necessário que essa complexidade entre na vida das crianças apenas pelos nós dramáticos da história; também pode entrar por outras instâncias menos sangrentas. Mas tem que entrar.

Negamos na escola da mesma maneira que negamos com a imprensa algumas horas depois. Reduzimos o real e sua trama infinita a uma realidade manipulada e idiota. E à força de repetição e de alinhamento, a impomos ou a deixamos de impor. É um processo repetido e atroz. No fundo, tão atroz quanto a bomba homicida de ontem em Paris, que me motivou a escrever essa nota.

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