OPINIÃO
02/03/2015 20:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A redação e o Enem: estamos diante de um problema

Dizem em nossa cara que o sistema escolar adora escutar o politicamente correto e premia quem o propaga e que não lhe importa nem um pouco supor que os alunos estão se autocensurando, limitando, idiotizando, estereotipando e demais "andos" para nos satisfazer.

DENIS FERREIRA NETTO / Estadão conteúdo

No Brasil, existe o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). E o ENEM se transformou em um grande juiz dos resultados educativos escolares. Por isso, o grande determinador dos modelos educativos. Estamos diante de um problema.

Marina Rubini foi quem obteve a nota máxima do país durante dois anos seguidos em "redação" no ENEM. Hoje, tem 20 anos, estuda Medicina (era previsível) e trabalha, em paralelo, dando "dicas" aos alunos sobre como obter boas notas na prova. Foi entrevistada pela VEJA (29/10/2014, página 46).

À pergunta: "O que é que ninguém deve jamais escrever em uma redação"?, ela responde - aparentemente com segurança e comodidade - o que segue:

"Frases ou palavras que possam ferir alguém. Em um tema como 'cotas raciais' - assunto de maior importância no Brasil - sugiro que ninguém diga que os que têm direito a vagas por condição racial 'se aproveitam dessas vagas'. Outro segredo: manter sempre em mente a questão dos direitos humanos, porque gera sensibilidade. Eu sou católica e contra a legalização do aborto, mas, em uma redação, não escreveria nunca o que a Bíblia diz. Diria que a lei define o marco...".

E ninguém se escandaliza.

A garota está nos mostrando - de uma maneira quase obscena, ainda que involuntária e ingênua - que no ENEM se ganha mentindo, impostando, fazendo-se passar por outra pessoa, negando-nos em nossa condição de sujeitos com identidade e opinião. E não acontece nada. Dizem em nossa cara que o sistema escolar adora escutar o politicamente correto e premia quem o propaga e que não lhe importa nem um pouco supor que os alunos estão se autocensurando, limitando, idiotizando, estereotipando e demais "andos" para nos satisfazer.

E no final creem nisso, claro. E dão aulas disso, e declaram aos quatros ventos em um meio de comunicação de massa. É indignante. É denegridor.

Estamos validando coletivamente um modelo perverso e idiota que está nos devorando. Já me aconteceu outras vezes, em outros contatos, e aqui volto a confirmar: até os próprios alunos, alienados sobre o que os está matando, tornam-se vis defensores do modelo que os destrói. Apaixonam-se pelos seus algozes, outra vez. E até divulgam e engrandecem o feito. Estamos diante de um problema silenciado há muito tempo.

Não é possível que quando refletimos sobre redação apareça esse tipo de coisa. Não podemos permitir. Por respeito à linguagem e às pessoas que nos constituímos a partir dela. É uma provocação. Não é possível que a linguagem e sua complexidade, sua profundidade, sua vitalidade e sua expressividade se reduzam assim por uma garota desse jeito. Não, por favor. Não percamos essa necessária capacidade de assombro que deve nos caracterizar. E assombro, nesse caso, é indignação; explícita. Ou por acaso algum leitor supõe que eu esteja exagerando?

Se eu fosse avaliador do ENEM, exigiria antes de mais nada que, por trás de cada texto, houvesse um "quem"; a pessoa que se posiciona, que se expõe e se coloca do lado do que diz. Que se constitui escrevendo. Senão, não haveria maneira de aprovar nada. Em seguida, também pediria graça, ritmo, cadência, tom e voz próprios; respiração sintática. E uma trama conceitual que justificasse haver escrito. Precisaria justificar porque essa pessoa escreveu isso. E justificá-la dela para ela mesma, não para mim. Encontrar marcas firmes de que essa escrita impactou na subjetividade que produzo; moveu, comoveu, expôs e configurou. Senão, também reprovaria.

E assim por diante.

Mas, não. A habilidade de escrever, que está imbricada à de falar e, esta, à de pensar e interagir, tem entidade no ENEM, é verdade, mas logo a humilham, transformando-a em ferramentas, vil mecânica de desenvolvimento vulgar.

Escrever essa nota me fez bem. Ter cumplicidade - imaginar cumplicidade - com meus leitores me tranquiliza e até me faz sentir que avançamos. Mas justamente antes de colocar meu ponto final, me ocorreu revisar o final da nota com a "aluna 10" e me deparei com essa outra coisa: "É ético vender textos?", perguntam e ela. E ela responde: "Dou aulas de graça na internet e também vendo pacotes de dez redações. O aluno não consegue construir textos inteiros. O mais provável é que se lembre do argumento (que ela lhe deu) ou faça uma paráfrase. Não é cópia". Estou desconsolado.