OPINIÃO
09/04/2015 19:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A escola inútl

Shutterstock / JoeyPhoto

São úteis as instituições inúteis?

Sim, para evitar a eclosão de outras novas. Impedem sua própria transformação. São úteis porque, ainda que inúteis, ocupam o lugar. São úteis porque obturam a angústia que gera o vazio e empurra à produção do novo. São úteis, em suma, porque não nos deixam ver que temos um furo essencial. São úteis para evitar a vivência da crise, mas não a própria crise.

Mas só são úteis para isso.

Creio que a escola hoje é uma dessas instituições inúteis. Das que só servem para que não vejamos o quanto de mal estamos em matéria de educação. Das que subsistem apenas para acalmar em nós a necessária crise existencial que deveríamos estar vivendo e assumindo. Das que estão ali para ocupar o lugar e evitar a debandada angustiante do fracasso que pretendemos manter no curral das coisas pendentes.

A escola que temos já não serve mais. Já não serve para nos tornar melhores. Já não serve para nos constituir. Quer dizer, já não serve. Serve - digamos - como paliativo, que é uma maneira um pouco elíptica de dizer que, em realidade, já não serve. Serve para umas coisas, para as quais não é necessária nem digna uma escola (ter uma rotina esportiva, ser aprovado em exames universitários, acolher as crianças e coisas desse tipo). Já não serve, se a escola deve servir para nos superar. É não é que não sirva esta ou aquela escola; nenhuma serve. Não serve o arquétipo.

Conservamos e conservamos, como se o próprio fato de conservar fosse um valor. Como se fôssemos próceres sociais, porque estamos tornando crônica uma instituição fracassada. Mas em realidade conservamos para evitar a angústia da crise que não queremos saber que temos. Ficamos sem escolas. Ficamos sem um modelo de escola. As milhões que existem por aí são fantasmas, miragens de uma educação que já não existe. Estamos enganados e seguimos nos enganando. Devemos aceitar que acabou. Que a escola que temos fracassou.

E que venha o que tiver que vir, e corram as angústias que tiverem que correr. De uma vez. Não façamos com que seja mais suave porque, no final, à força de tentar suavizá-lo, estamos negando o fato. Esta escola de hoje não opera, apenas obtura.

A escola fracassou, mas isso não torna os educadores inúteis, nem muito menos profissionais fracassados. Não. A escola histórica já não serve, mas a nova, que deve substituí-la, também é outra; é nossa melhor tarefa.

Eu sei que atrás desta escola vem outra, muito melhor. Que está vindo... A escola nova que se manifesta, que dá sinais, que se evidencia de maneira efêmera, que se insinua, avisa e não consegue emergir. Tem ainda seu status etéreo, insipiente, leve.

Devemos passar daquela escola informativa a esta outra, formativa. Nela, o tempo deve ser para isso, para essa formação. E é no interior desse exercício interativo e comunicativo, no meio desse jogo social, que se dá a construção da pessoa que buscamos. A informação, como já se repetiu até a saturação, é procurada pelos estudantes por meio dessa mesma interação e dentro do sentido do processo em marcha. Só assim ela se torna pertinente e significativa. Essa é a escola nova. Essa! Não veem?

Precisamos de mais cúmplices ativos para deixar que ela se constitua. Não há risco nenhum de ficarmos sem escolas. Há uma e outra, muito melhores novas escolas, esperando que lhes demos lugar. Atrás de cada uma das que já não servem, há outra esperando, como os dentes das crianças. E se o fizermos?

Dar-lhes lugar quer dizer deixarmos de nos perder e aceitar que devemos experimentá-la, vivê-la como nova para que, em seu devir, se ajuste e otimize. Deixá-la ser fresca; quer dizer, deixá-la ser inovadora e sem garantias. Deixá-la ser como é, nova. Experimental, necessária e convenientemente, porque é nova. Deixá-la ser como tem que ser. Assumir de uma vez por todas que os riscos da instabilidade do modelo da escola emergente são infinitamente menos nocivos que os efeitos fétidos da escola atual que, de tão madura, já fermentou e se tornou tóxica. Não percebem?

Prefiro passar por este mau momento de "faltar com o respeito" à escola em que não creio e que crê em mim a passar pelos milhares de milhares de maus momentos diários de assistir com frustração a ela e suas contorções para evitar repensar-se. Chegou a hora. Chegou a hora de nos resetarmos em educação e começarmos de novo. Tudo de novo? - provavelmente não. Mas tudo em um contexto novo, sob um novo paradigma do que vamos programar como educação. Outra escola, quer dizer, outro marco simbólico de valores, outras práticas.

Precisamos de pessoas valentes. Corajosas, que joguem o jogo da exposição ao risco de zombaria, pelo benefício da tranquilidade ética de estar tentando. Pontas de lança. Precisamos de pessoas avançadas; pelotões de exploração social que aceitem ser advogados do diabo de um diagnóstico evidente e irreversível. Precisamos que mais alguns, dos tantos que sabem que estamos em uma via morta, tenham jogo de cintura e coloquem a renovação adiante, a que devemos chamar, sem rodeios e com orgulho, de transformação.