OPINIÃO
30/07/2014 18:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quando as diferenças de classes sociais desaparecem numa conversa de avião

maria blog otávio

"Não vejo guerra de ricos e pobres. Todos ganharam, mas quem ganhou mais? É fato que os pobres ganharam mais. Acho que tem gente que sente ao ver sentar ao lado no avião uma empregada doméstica ou uma secretária".

Dilma Rousseff em sabatina na Folha, em 28 de julho

Esta frase me lembrou de um emocionante encontro que tive três anos atrás ao voltar de uma viagem de férias ao Rio Grande do Norte. Não sou muito de conversar em avião, o voo já chegava à metade quando, de repente, me peguei rindo de um programa que passava na televisão junto com uma senhora que estava na poltrona ao lado. A gargalhada nos uniu e desatou um diálogo que durou até o fim da viagem.

A senhora, na faixa dos 60 e poucos anos, contou que aquela era sua primeira viagem de avião e a primeira vez, após muitas décadas vivendo e trabalhando em São Paulo, que retornara à sua terra natal para visitar a família em Currais Novos, município no sertão do Rio Grande do Norte.

Recentemente aposentada do trabalho de empregada doméstica, o que mais a impressionou foi a animação da pequena cidade: "Lá tem festa toda noite, ninguém dorme", contou, com um sorriso largo no rosto.

Contou-me que morava com um filho e uma filha na faixa dos 20 anos, ambos formados na faculdade ("um orgulho") e já independentes numa casa pequena mas confortável em uma cidade da Grande São Paulo. Fazia pequenos serviços de costura, mas sem maiores compromissos. "Faço porque gosto de estar ocupada."

A conversa fluía gostoso, parecia que a conhecia há muito tempo... quando de repente caiu a ficha. Aquela senhora simples e tão sábia, feliz com a vida e consigo mesma, apesar das durezas do dia a dia, me lembrava a Maria da Glória, que trabalhou para a minha família durante muitas décadas como empregada doméstica.

Maria entrou em casa logo após meu nascimento, em 1967. Veio trabalhar em uma família de classe média alta, pai advogado, mãe dona de casa, com quatro filhos, dois meninos e duas meninas. No início morávamos em um sobrado em Pinheiros. Depois, em um apartamento nos Jardins.

Quando ela chegou, já havia a Mia, cozinheira, que trabalhava na família desde que minha mãe tinha 15 anos. Tornaram-se ambas, cada uma do seu jeito pois sempre foram totalmente diferentes, parte central da família.

Era com a Maria que eu gostava de estudar, não com minha mãe. Ela era muito rápida e eu queria estudar a jato para poder brincar, ouvir música, ler. Ia até o quarto dela, sentava-me na cama, entregava o caderno em suas mãos e, em questão de minutos, ela ditava a tabuada e batia as questões de história, português, geografia... Era decoreba mesmo, eu respondia tudo sem errar uma vírgula. Com a ajuda da Maria, sempre tirava notas boas e nunca fiquei de recuperação (a não ser já adolescente, meio em crise existencial e sem a Maria por perto).

Quando tinha uns 15 anos, a Maria da Glória resolveu se casar com o motorista da família, um sujeito bonitão e vaidoso, que mal saiu da igreja a proibiu de continuar a trabalhar. Ela sumiu por alguns anos, foi morar no interior, passou muita dificuldade e alguns anos depois, com o marido já doente, reconquistou o direito de ser independente.

No início foi trabalhar com a minha irmã Celina, mas assim que voltei de uma temporada em Londres, com 29 anos de idade, montei meu primeiro apartamento em São Paulo e a chamei para trabalhar comigo.

Foram mais 15 anos de intensa convivência. Ela me conhecia como ninguém e não ligava para o meu jeito aparentemente sério, às vezes um pouco ríspido. Sabia que era só casca. Eu sempre disse que os problemas da casa quem resolvia era ela: "Não quero nem saber. Você me diz quanto custa, eu dou o dinheiro." E ela cuidava de tudo.

Quando os dois filhos dela, um menino e uma menina, terminaram o colegial, convenci meu pai a bancar a faculdade deles. Eduardo se formou em administração, Marina em fisioterapia.

Maria tinha problemas cardiovasculares sérios, sua mãe era diabética, tentei fazê-la parar de fumar, mas ela continuava a pitar seu cigarrinho escondido. Cheguei a levá-la num superespecialista, que fez um terror danado sobre o hábito do tabagismo, tudo em vão.

Preocupado com o futuro, fiz um seguro de saúde para a Maria. E assim a vida foi correndo, ela sempre lá, igual, imbatível, apesar das pernas cada vez mais inchadas e pesadas. Aos 60 anos, Maria se aposentou, mas quis continuar trabalhando.

Um dia foi hospitalizada. Recebia notícias diárias de sua filha, mas muito ocupado com a correria da vida de jornalista, demorei alguns dias para visitá-la. Num domingo de manhã acordei cedo e fui até o hospital, em Santo Amaro. Encontrei-a ótima, com um sorriso no rosto, parecia que tinha superado aquele momento de dificuldade.

De noite, veio o telefonema fatal. Maria havia piorado subitamente e morrido, aos 63 anos de idade. Perdi minha fiel escudeira, em quem podia confiar 100%. Tenho certeza de ela também sabia que podia confiar em mim.

O diálogo com a senhora do avião aconteceu uns dois meses depois do desaparecimento da Maria. Após uma hora e meia de deliciosa prosa, coroada pelo surgimento de uma incrível lua cheia na janela do avião, compreendi por que aquele encontro me sensibilizara tanto.

"A Maria sentou ao meu lado no avião", pensei comigo mesmo, olhando para a vizinha de poltrona, ambos já de volta ao silêncio. Enquanto o avião descia em Congonhas, meus olhos encheram de lágrimas. Desembarquei em paz na Pauliceia desvairada. E feliz de ter tido um último encontro com a saudosa Maria da Glória, na pele daquela senhora tão digna.

Não sou petista nem eleitor automático de nenhum partido. Acredito que os avanços econômicos e sociais no Brasil são uma conquista da nossa jovem democracia e de toda a sociedade brasileira. Mas obrigado, Dilma, pois sua frase me fez reviver esse encontro maravilhoso nos céus do Brasil.