OPINIÃO
12/09/2014 18:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Por que a ópera Salomé fez minha cabeça (e a de outros espectadores) rodar

Um coquetel de luxúria, incesto, decapitação e necrofilia... em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo.

Um coquetel de luxúria, incesto, decapitação e necrofilia... Não é preciso ceder à tentação de assistir aos deprimentes vídeos do ISIS (o autoproclamado 'Estado Islâmico') no Iraque e na Síria para dar vazão ao nosso às vezes incontrolável apetite por cenas de decapitação e sangue derramado.

Tudo isso e muito mais acontece neste mês de setembro no palco do Teatro Municipal de São Paulo, onde a ópera Salomé está em cartaz até o próximo dia 20. Os ingressos já estão esgotados, mas com um pouco de sorte e insistência, quem sabe ainda não dá tempo de descolar um?

Montagem da ópera Salomé, de Richard Strauss, no Teatro Municipal São Paulo, em setembro de 2014 (Desirée Furoni/Divulgação)

Conheça 9 bons motivos para conferir essa inesquecível montagem.

1."Eles têm uma Salomé de verdade"

Assim o bailarino Paulo Vinícius Pinheiro Pedro, professor de balé e amante de ópera, definiu o incrível trabalho da soprano alemã Nadja Michael. "Ela canta, ela dança... parece mesmo uma menina de 15 anos, linda e voluntariosa", descreveu Paulo. "E não dá para fazer Salomé sem uma Salomé", concluiu. De fato, Nadja arrasou nas primeiras três récitas e ainda fará mais uma neste domingo, 14 (nos dias 16, 18 e 20, o papel será interpretado por Annemarie Kremer). Com total domínio vocal e corporal, ela faz uma Salomé ao mesmo tempo leve e dramática e arranca tanto risos quanto expressões de horror da plateia.

A soprano alemã Nadja Michael em Salomé no Teatro Municipal São Paulo (Desirée Furoni/Divulgação)

2. Salomé é uma mulher livre e expressa seu desejo como se fosse um homem

Para José Garcez Ghirardi, professor do curso de arte e direito da Direito GV em São Paulo, a personagem Salomé "inverte completamente os padrões de gênero" ao expressar seu desejo "como se fosse um homem". "Ela não tem barreiras, expressa seu tesão de forma direta e objetiva, enquanto que ao homem que é objeto de seu desejo resta o papel de casto", afirmou.

3. É inspirada em uma peça do irlandês Oscar Wilde (1854-1900), um dos precursores da literatura moderna

O autor de O Retrato de Dorian Gray escreveu a peça Salomé diretamente em francês, de um só fôlego, em 1891 para desafiar Flaubert e Mallarmé na língua deles e porque queria ter a diva Sarah Bernhardt como protagonista. A peça criou muita polêmica na França e na Inglaterra, foi traduzida para o alemão por Hedwig Lachmann e encenada em Berlim em 1902. O compositor Richard Strauss (1864-1949) assistiu à montagem alemã, apaixonou-se pela sonoridade da história em sua língua natal e convidou Lachmann a escrever o libreto.

Assista a vídeo da montagem de Salomé atualmente em cartaz no Teatro Municipal São Paulo.

4. A sonoridade estranha e ao mesmo tempo envolvente de Richard Strauss, gênio da música dos Séculos 19 e 20

Em Salomé, o compositor alemão Richard Strauss abre mão de árias, duetos e trios para investir no que o crítico Irineu Franco Perpetuo define no programa da montagem como 'quase um poema sinfônico vocal', com intenso uso da bitonalidade e um colorido e uma dramaticidade que remetem a Wagner. No começo parece difícil de absorver, mas aos poucos a música e o canto vão entrando nos ouvidos e acabam tendo um efeito hipnótico arrebatador. E tudo está muito bem executado pela Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, sob a batuta do maestro John Neschling.

5. A ação se passa nos primórdios do cristianismo, mas a temática (como já vimos no início do texto) segue bem atual

Iokanaan (personificado pelo impressionante baixo-barítono Mark Steven Doss na noite de 11 de setembro) é o nome em aramaico de João Batista, que batizou Jesus e foi um de seus primeiros e mais leais seguidores. Por ele, Salomé se apaixona e, não correspondida, exige sua cabeça em uma bandeja a Herodes, rei dos judeus. São personagens do Velho Testamento da Bíblia e todo o enredo se passa na terra seca e ensolarada de Israel/Palestina, região até hoje intensamente disputada por judeus e árabes.

6. O cenário limpo, funcional e muito contemporâneo valoriza o essencial

Diferentemente de muitas montagem de óperas, que apresentam cenários pesados, com complicadas mudanças e cheios de detalhes, nesta montagem a parte externa do palácio de Herodes, onde se passa a ação, parece um híbrido de palácio, tumba e bunker parcialmente enterrado pela areia do deserto. "Sempre me chamou a atenção o contraste entre sensualidade e aridez presentes na obra. Por isso criamos essa coexistência da sinuosidade das dunas do deserto e a dureza do concreto do palácio", explica a diretora cênica Livia Sabag no programa. A cenografia é de Nicolás Boni.

Cena da dança dos sete véus da ópera Salomé no Teatro Municipal São Paulo (Desirée Furoni/Divulgação)

7. A iluminação reproduz os tons únicos do Oriente Médio

A ópera Salomé começa com uma referência à lua e durante boa parte da encenação a luz indireta do luar banha o elenco e o cenário. À medida que a história se aproxima do clímax, as primeiras luzes da aurora, de um púrpura intenso, surgem de trás do palco, recortando os personagens em silhueta. Sutil e, ao mesmo tempo, dramático. Como a luz e os tons do Oriente Médio.

8. A montagem tem apenas um ato e menos de 2 horas de duração

Diferentemente de outras óperas que duram quase três horas (algo inimaginável nos tempos que correm), Salomé não tem intervalo pra respirar, esticar as pernas, conversar... É radical, uma porrada. Pouco mais de 1 hora e 40 minutos muito intensos... e acabou!

9. Conferir a temporada de óperas do Teatro Municipal de 2014

Sob a direção artística do maestro John Neschling (ex-Osesp), o Municipal de São Paulo voltou a apresentar em 2014 uma ousada e bem-sucedida temporada de ópera. Apenas neste ano já realizou montagens elogiadas de Il Trovatore, Falstaff e Carmen. Agora, detona com Salomé. E ainda tem Cavalleria Rusticana e Tosca vindo por aí... Não é pouca coisa.

Pelos motivos acima e outros não explicitados aqui, a Salomé paulistana diz a que veio. "Ela fez minha cabeça rodar, que nem a de João Batista", brincou José Garcez. "Salomé colocou a cabeça de todos nós na bandeja", afirmou Paulo Vinícius.

Uma sugestão pra quem ainda não viu: Vai lá pra porta do Municipal e tenta entrar!

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