OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

DNA democrático

Nasci pouco antes do terceiro aniversário do Golpe Militar de 1964. Meu pai, José Carlos (que também escreve neste domingo no Brasil Post), se formou em direito no final de 1963, casou-se no ano seguinte e, desde os primeiros dias como advogado criminalista, se dedicou a defender aqueles que começavam a ser perseguidos pelo regime militar nascente.

Desde muito pequeno, aprendi com ele e com minha mãe, Margarida - que não era tão política mas sempre o apoiou 100% -, que a liberdade e o respeito aos direitos humanos, tanto do ponto de vista da sociedade quanto na vida cotidiana, eram princípios fundamentais, inegociáveis.

À medida que a ditadura se tornava mais e mais dura, testemunhávamos a cada dia a luta de meu pai e seus amigos, a maioria deles advogados, contra o autoritarismo. Por mais que tentassem nos preservar, de vez em quando ficávamos sabendo de alguém que tinha sido preso, desaparecido ou ido embora do Brasil.

Algumas vezes uma mala era arrumada, para o caso de meu pai ter de fugir dos milicos de uma hora para outra, mas isso acabou nunca acontecendo (confesso que em alguns momentos, sem ter ideia do que significava a dor do exílio, desejei que a aventura de viver no exterior se concretizasse).

Crescemos ouvindo muita MPB: Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, Maria Creuza... Um pouco mais pra frente, com o sucesso de O Bêbado e o Equilibrista e a campanha pela anistia, descobri a voz pungente de Elis Regina, que se tornou a maior referência artística da minha vida.

Meu pai preferia Chico Buarque, minha mãe, Roberto Carlos... gostos que pareciam irreconciliáveis! Naqueles (para nós, crianças) ensolarados anos 70, ouvimos falar pela primeira vez de uma coisa terrível chamada censura e de quão essencial era a liberdade de expressão.

Quando os amigos de meu pai, todos no MDB, disputavam eleições, vestíamos camisetas, ganhávamos sacolas cheias de santinhos e passávamos o dia fazendo boca de urna. Pedi muitos votos para Flavio Bierrenbach, Almino Affonso, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Severo Gomes...

Depois, acompanhávamos a apuração voto a voto. Cheguei a trabalhar como fiscal eleitoral, certamente um fiscal café com leite, mas acreditava que estava mesmo garantindo o futuro da democracia brasileira.

Em 1982, Montoro foi eleito governador, meu pai foi nomeado secretário da Justiça e fez uma revolução na política de direitos humanos no Estado de São Paulo. Com 15 anos, visitei o Presídio do Carandiru com ele e meu irmão, Theo. Choque total. Pouco depois assisti à pré-estreia de Pixote e precisei sair no meio do filme para tomar fôlego.

Em 25 de janeiro de 1984, subi com meu pai no palanque das Diretas Já no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que reuniu 1,5 milhão de pessoas. Fiquei fascinado por estar ao lado de tantos artistas e políticos famosos e diante daquele mar de gente.

Lembro-me da raiva que sentimos quando o Câmara dos Deputados, dobrada pelas manobras espúrias de Paulo Maluf, rejeitou a emenda Dante de Oliveira, que restituía as eleições diretas para presidente. Eram necessários votos favoráveis de dois terços da Casa (320 deputados). O resultado: 298 deputados a favor; 65 contra; 3 abstenções e 113 ausentes. Que ódio dos ausentes!

O troco foi dado em 1988, com a vitória da petista Luiza Erundina sobre Maluf na disputa pela Prefeitura de São Paulo, numa virada espetacular a três dias da eleição. Vai virar, vai virar... viroooouuu!

Desde que me tornei gente e pude exercer o direito ao voto, sempre escolhi candidatos que, a meu ver, representavam o maior avanço democrático e social no momento de cada eleição. Votei em Fernando Henrique Cardoso para prefeito, Eduardo Suplicy e José Serra para senador, Mário Covas para governador, Marta Suplicy para prefeita, José Genoíno e Fábio Feldmann para deputado, entre tantos outros.

Em 1989, quando, ao final dos intermináveis cinco anos de Governo Sarney, pudemos finalmente votar para presidente, escolhi Mário Covas no primeiro turno e Luiz Inácio Lula da Silva no segundo. O inimigo, naquele momento, era Fernando Collor de Mello, que acabou se elegendo e deu no que deu.

Felizmente, após aquele tropeço inicial que a eleição de Collor representou para nosso processo de redemocratização, creio que a população brasileira tem, nas últimas cinco eleições presidenciais, escolhido candidatos firmemente posicionados no campo democrático, com preocupações sociais e comprometidos com a promoção dos direitos humanos.

Que outro país do mundo pode se gabar de, em menos de um quarto de século de plena democracia, ter tido na Presidência da República um intelectual do porte de Fernando Henrique Cardoso e, em seguida, um líder operário e político da importância de Lula? Dilma Rousseff também representou um avanço tanto por ser mulher quanto por seu passado de luta contra a ditadura, tendo inclusive sido presa e torturada, o que marca uma pessoa para sempre.

Confesso que, às vezes, fico desanimado com a luta fatricida de PT e PSDB pelo poder. Assim como sempre rejeitei as tentativas de meter medo nos eleitores caricaturizando Lula como um bicho papão ou desqualificando-o pela falta de uma educação formal, também não aceito quando buscam rotular Fernando Henrique e José Serra como sendo 'de direita'. Quem diz isso não tem memória ou quer distorcer as coisas.

Com 47 anos recém-feitos, sinto-me um privilegiado de, em plena idade produtiva e com bastante chão pela frente, ver o meu país, apesar de todos os problemas que ainda temos, avançar o tanto que avançou nos últimos 20 anos.

Tenho convicção de que isso não foi mérito de um só partido ou grupo político, mas uma conquista da democracia, como o melhor sistema político já criado pelos homens, e de todos os que lutaram e continuam lutando pelos valores fundamentais de liberdade, igualdade e respeito aos direitos humanos.

Ela está vencendo no Brasil. Ainda não sei em quem votarei nas próximas eleições. Observarei atitudes e propostas. Buscarei enxergar além do falso abismo entre tucanos e petistas. Mas uma coisa é certa. Do meu DNA democrático, não abro mão.