OPINIÃO
22/10/2014 13:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Basta, Lula! Não se invoca o Holocausto em vão

O ex-presidente ultrapassa todos os limites ao comparar nesta terça as supostas agressões à presidente Dilma feitas por Aécio ao comportamento dos "nazistas na Segunda Guerra".

Arquivo Estadão Conteúdo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou todos os limites ao comparar nesta terça-feira (21) as supostas agressões à presidente Dilma Rousseff feitas pelo candidato do PSDB, Aécio Neves (PSDB), ao comportamento dos "nazistas na Segunda Guerra".

Segundo relato do Estadão Conteúdo, ao participar de um evento de campanha da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, em Pernambuco nesta terça (21), Lula fez a comparação quando questionava o passado de Aécio, enquanto Dilma combatia a ditadura militar.

"Onde estava o candidato, quando essa moça, aos 20 anos, estava colocando a vida em risco na luta pela liberdade desse País? Estava aprendendo a ser grosseiro, a ser mal-educado? (...) Se o Nordeste ouviu, se o Nordeste leu o preconceito contra nós, as injustiças.... parece que estão agredindo a gente como os nazistas agrediam no tempo da Segunda Guerra", afirmou Lula, que manteve a estratégia de opor o povo nordestino aos tucanos.

E continuou: "Eles são intolerantes. Outro dia eu disse para eles (tucanos): vocês são mais intolerantes do que Herodes, que matou Jesus Cristo por medo de ele se tornar o homem que virou. Querem acabar com o PT, querem acabar com a presidenta Dilma, achincalhar ela, chamar de leviana. Só pode ser feito por um filhinho de papai, porque um nordestino jamais faria isso."

Ao comparar o PSDB e os tucanos aos nazistas, Lula passa do limite em todos os sentidos.

Em primeiro lugar, nenhuma pessoa sensata jamais usaria o Holocausto, como é conhecido o genocídio de milhões de pessoas pelo regime nazista comandado por Adolf Hitler, para atacar um adversário político numa democracia. Segundo estudo do Museu Memorial do Holocausto em Washington (capital dos EUA) divulgado em 2013, o número de mortos sob direta responsabilidade do regime nazista pode chegar a 20 milhões.

Até esse estudo, acreditava-se que o Holocausto teria sido responsável pela morte de 5 milhões a 6 milhões de judeus, além de outras 6 milhões de pessoas perseguidos pelos nazistas por serem ciganos, gays, comunistas ou simplesmente opositores políticos.

Durante 13 anos, historiadores do museu norte-americano pesquisaram arquivos e documentos disponíveis sobre a Segunda Guerra e concluíram que entre 15 milhões e 20 milhões de pessoas morreram por direta responsabilidade dos nazistas, conforme reportagem publicada pela Business Insider.

"Estamos reunindo números que ninguém até agora compilou", afirmou Geoffrey Megargee, diretor do estudo, em artigo publicado pelo jornal britânico 'The Independent'.

Há mais de 20 anos atrás, a convite da Federação Israelita de São Paulo, conheci os campos de extermínio nazistas na Polônia, entre eles Auschwitz Birkenau, Treblinka e Majdanek. Aos 25 anos de idade na época, fiquei estarrecido diante das câmaras de gás, dos fornos crematórios, das pilhas de milhares de sapatos, dos amontoados de roupas, cabelos, óculos e objetos pessoais das milhões de pessoas mortas pela máquina da morte imaginada e construída por Hitler e seus parceiros de crimes contra a humanidade.

Em Majdanek, campo que ficava na fronteira entre a antiga União Soviética e a Polônia ocupada, tudo está até hoje absolutamente intacto e preservado. O campo poderia ser religado a qualquer momento e reiniciar o genocídio.

Naquela viagem, aprendi de uma vez por todas que não se brinca com um crime de proporções tão gigantescas como o praticado pelo regime nazista durante o Holocausto.

Será que Lula, que foi presidente do Brasil por 8 anos e é tão querido por milhões de brasileiros, não sabe disso? Ele, que viajou tanto durante seu mandato, não visitou Auschwitz e os demais campos da Polônia? Deveria ter ido.

O ex-presidente visitou, no entanto, o Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém em março de 2010. Segundo texto publicado no Blog do Planalto, naquela ocasião Lula afirmou: "Todos os que querem dirigir uma nação deveriam visitar o Museu do Holocausto para saber o que pode acontecer quando a irracionalidade toma conta do ser humano."

Na reta final de uma das eleições mais disputadas do Brasil desde o retorno da democracia, ele mesmo perde a racionalidade e se esquece do que disse em sua visita a Israel há quatro anos atrás.

"Sempre lamentamos quando alguém associa os crimes cometidos durante o nazismo a algum fato do cotidiano como uma campanha eleitoral. O Holocausto é algo muito sensível para todos os mortos e seus familiares e para a comunidade judaica em todo o mundo. É lamentável que o ex-presidente Lula tenha usado este tema para criticar os ataques de Aécio a Dilma. Esperamos que tenha sido no calor do momento e não aconteça mais", afirmou Ricardo Berkienztat, presidente executivo da Federação Israelita de São Paulo ao Brasil Post.

Mas não é só isso. Ao questionar onde estava Aécio Neves enquanto Dilma colocava "a vida em risco na luta pela liberdade desse País", Lula comete uma injustiça histórica. Quando os militares deram o golpe e instalaram a ditadura no país em 1964, Aécio tinha apenas 4 anos. Dilma já era quase maior de idade: 17 anos.

Dilma integrou a resistência armada contra o regime militar no final dos anos 60 e foi presa entre 1970 e 72. Logo, quando a atual presidente colocava "a vida em risco na luta pela liberdade desse País", Aécio era uma criança.

Aécio, no entanto, é candidato à Presidência pelo PSDB, cujos fundadores estiveram na linha de frente da luta contra a ditadura, ao lado dos fundadores do PT, na época todos no MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Refiro-me a Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra, entre tantos outros.

O PSDB não fica nada _repito, nada_ a dever em comparação ao PT no que diz respeito à luta para encerrar a ditadura no Brasil.

Além disso, Aécio é neto de Tancredo Neves, que foi primeiro-ministro de João Goulart, presidente deposto pelos militares. Durante a ditadura, Tancredo foi um dos principais líderes do MDB e, em 1985, foi o primeiro civil a ser eleito presidente da República (infelizmente de forma indireta após a rejeição da emenda que propunha Diretas Já). Infelizmente (de novo), Tancredo morreu antes de tomar posse, e Sarney, seu vice, virou presidente.

Quando Tancredo morreu, Aécio tinha apenas 25 anos e trabalhava com o avô, com quem deve ter aprendido muita coisa, entre elas valorizar a democracia. Se ele foi playboy na juventude, se foi a baladas no Rio, namorou muito, bebeu ou mesmo abusou de outras substâncias (denúncias até hoje não comprovadas), não fez nada tão diferente do que muitos jovens costumam fazer. E isso não diminui em nada suas credenciais democráticas.

Finalmente, não é verdade que o PSDB e Aécio tenham atacado Dilma e o PT de forma unilateral. Os ataques nesta campanha começaram no primeiro turno e partiram da campanha petista contra Marina Silva (PSB). No segundo turno, o PT passou a atacar Aécio e ele reagiu. Depois, a pancadaria foi geral, tanto de um lado quanto de outro.

Durante o primeiro turno, inclusive, o cineasta Fernando Meirelles, apoiador de Marina, comparou o marqueteiro de Dilma a Goebbels e João Santana o ameaçou de processo. Meirelles, no entanto, não foi presidente do Brasil nem é tão admirado por tantos brasileiros como Lula.

Ao fazer declarações irresponsáveis como as feitas nesta terça diante de milhares de pessoas em Pernambuco, Lula desrespeita não somente os milhões de mortos e aqueles que sobreviveram ao genocídio nazista como a todos os brasileiros que, exercendo seu livre direito ao voto, preferem apoiar a oposição nestas eleições. E, segundo as pesquisas de opinião, eles são quase 50% dos eleitores.

Basta, Lula! Mais respeito com a História e com quem não concorda com você.

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