OPINIÃO
26/06/2018 12:48 -03 | Atualizado 26/06/2018 12:49 -03

Como a economia comportamental pode ajudar na redução de consumo de plásticos

O desnível entre discurso e ação não é novidade. Não é fácil modificar comportamentos em grande escala.

Willie B. Thomas via Getty Images

Basta observar o nosso comportamento hoje em dia para vermos que a reação popular aos plásticos está a pleno vapor. O plástico tomou o lugar do açúcar como inimigo número 1 do público.

Mas, como frequentemente acontece, a consciência do problema não está sendo traduzida em ações. Na realidade, a maiorida de nós não mudou em nada o seu comportamento.

O desnível entre discurso e ação não é novidade. Não é fácil modificar comportamentos em grande escala, como é o caso do uso dos plásticos. Os plásticos de uso único são uma presença constante em nossa vida.

Para mudar essa situação é preciso que cada um de nós faça sua parte. Mas os políticos e as empresas têm a responsabilidade de atuar como a vanguarda desse movimento. Se nada for feito, a maioria das pessoas vai continuar vivendo como sempre viveu.

Há duas intervenções duras que as organizações e os políticos podem considerar para reduzir o consumo de plásticos de uso único: proibir ou cobrar por seu consumo. As duas opções estão sendo propostas de diferentes maneiras, e ambas podem levar a resultados muito bons.

Mas não é tão simples quanto parece apenas segui uma política como essa. Algo que funciona para um saquinho plástico ou um canudinho de plástico não funcionará necessariamente no caso de garrafas ou copos. E o contexto político e econômico que envolve a produção desses produtos é bastante complexo. Vai levar tempo para chegarmos a uma solução concreta.

Mas existem avanços que já foram conquistados até agora. Com o Pacto dos Plásticos firmado no Reino Unido, por exemplo, foi pensando um plano ambiental para governo britânico, além de vários outros compromissos. Mas muitos têm datas de implementação projetadas para anos ou mesmo décadas no futuro.

Não podemos confiar apenas em multas, tarifas ou proibições. É preciso alguma outra coisa para colocar as mudanças em movimento.

A resposta pode estar na chamada teorianudge (também conhecida como arquitetura da escolha) – e no campo crescente da economia comportamental.

A teoria nudge se baseia na premissa de que frequentemente tomamos decisões inconscientes que não são do nosso melhor interesse, nem do interesse da sociedade mais ampla ou do meio ambiente.

Ao introduzir mudanças ao ambiente – ou seja, "cutucões" --, incentivamos as pessoas a parar para pensar antes de seguir adiante com comportamentos que de outro modo seriam inconscientes. Trata-se de persuadir as pessoas a tomar as decisões certas, mas sem lhes tirar o direito de escolha.

O livro Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar, de Daniel Kahneman, ajuda a explicar como isso funciona. Kahneman diz que temos um processo de pensamento que reage de modo automático e instintivo e outro processo que é mais ponderado.

O primeiro processo pode às vezes nos levar a fazer escolhas indesejáveis, mas é mais rápido, mais fácil e mais prático do que refletir sobre os prós e contras de cada decisão. A teoria nudge visa simplesmente levar as pessoas a pensar devagar, em vez de rápido.

Essa teoria é algo sério. Seu chamado pai, Richard Thaler, recebeu o Prêmio Nobel de Economia. O governo britânico criou sua própria "equipe do cutucão" (oficialmente chamada Equipe de Insights Comportamentais). E há exemplos da teoria em ação por toda parte à nossa volta que nos mostram como ela pode ser posta em prática.

Podemos introduzir algo novo para levar as pessoas a voltarem sua atenção para outra coisa. Um exemplo popular disso são as moscas estampadas sobre urinóis no aeroporto de Schiphol, que oferecem aos homens um alvo para mirar e reduzem os "jatos fora" em 80%.

Podemos usar mensagens e colocação de produtos em determinados locais para fazer as pessoas pensarem duas vezes. Pense nos cardápios de restaurantes que mostram o total de calorias de cada prato. Ou em colocar opções de lanches mais saudáveis na altura dos olhos do consumidor nos caixas dos supermercados.

Outra possibilidade é mudar a opção padrão. Os países em que todas as pessoas são inscritas automaticamente como doadoras de órgãos têm um pool de doadores muito maior. Nesses países, onde as pessoas precisam assinalar se não querem ser doadoras, em média 90% das pessoas doam seus órgãos.

Algo que funciona para mictórios, doces e órgãos humanos também pode funcionar para plásticos de uso único.

Tome-se o caso dos copos de café de uso único. No momento, os copos descartáveis são o padrão. Hoje a maioria das pessoas já concorda que esses copos descartáveis prejudicam o meio ambiente, mas escolher um copo descartável é uma decisão rápida e inconsciente. Além disso, é conveniente e todo o mundo o faz.

Há vários cutucões, ou empurrõezinhos, que poderiam ser usados para reduzir o consumo de copos descartáveis. Veja alguns deles:

1. Incentivar as pessoas a tomarem seu café no próprio estabelecimento. Coloque um cartaz informando que os fregueses não terão que pagar a mais se ocuparem uma mesa. Incentive as pessoas a fazerem um intervalo de dez minutos para curtir seu café, em lugar de beber o café enquanto estão em trânsito, sem parar para desfrutar o prazer da bebida.

2. Oferecer opções alternativas reutilizáveis e atraentes. Faça com que as pessoas tenham vontade de usar a opção alternativa, e não que apenas a usem porque pensam que isso é o mais correto.

3. Colocar as opções reutilizáveis em plena vista, ao nível dos olhos do consumidor. Faça as pessoas pensar sobre isso enquanto fazem fila diante do caixa. E esconda as pilhas de copos descartáveis em uma gaveta.

4. Mudar a percepção do que é normal. Pergunte qual xícara o consumidor vai querer usar. "O senhor precisa de um copo descartável de plástico?" "Qual copo você vai usar hoje?" Leve as pessoas a ter consciência da decisão que estão tomando.

5. Conscientizar as pessoas das consequências. Coloque cartazes lembrando às pessoas da escala da poluição por plásticos e de seu impacto ambiental.

6. Retirar os logotipos dos copos de uso único. Copos descartáveis de grandes marcas são símbolos de status. Se os copos deixarem de apresentar esses logotipos, perderão um pouco de sua atratividade.

7. Incluir mensagens negativas nos copos descartáveis. Estampar mensagens simples sobre os copos descartáveis, para levar as pessoas a pensar duas vezes antes de usá-los. "Sou feito de plástico." "Sou útil por dez minutos, mas continuo presente por décadas." Ou utilize cores e imagens para transmitir a mesma mensagem.

E essas sugestões são apenas para copos de café. Cada produto diferente poderia ter seu conjunto próprio de cutucões. As oportunidades são imensas.

Utilizada corretamente, a teoria do cutucão pode acabar excluindo os plásticos de uso único. Imagine se nosso consumo de plástico fosse alvo da mesma rejeição social que o tabagismo. E o dia que isso pode virar realidade talvez não esteja muito distante.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.