OPINIÃO
26/11/2014 13:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Protestos, jovens ativistas e engajamento político no Brasil: a todo o vapor

Se tivesse que definir a mais importante - e talvez mais inesperada - tendência internacional da segunda década do século XXI, a maioria dos analistas apontaria para o grande número de protestos ocorridos no mundo inteiro. Contudo, curiosamente, ainda não há um consenso sobre o seu significado.

ASSOCIATED PRESS
Demonstrators take part in a protest march demanding the impeachment of Brazil's President Dilma Rousseff, recently re-elected, over an alleged scheme of corruption that siphoned money from the state-owned oil company Petrobras, in Sao Paulo, Brazil, Saturday, Nov. 15, 2014. Federal police on Friday sharply expanded what is becoming Brazil's biggest political kickback scandal, arresting top construction company executives and detaining another former director of the state-run energy company Petrobras. (AP Photo/Andre Penner)

Se tivesse que definir a mais importante - e talvez mais inesperada - tendência internacional da segunda década do século XXI, a maioria dos analistas apontaria para o grande número de protestos ocorridos no mundo inteiro. Contudo, curiosamente, ainda não há um consenso sobre o significado do que aconteceu de São Paulo a Istambul e de Cairo a Madrid. As perguntas ainda estão no ar: será que os protestos simbolizaram o surgimento de um novo tipo de democracia que envolve a nova classe média global insatisfeita com os serviços públicos e disposta a participar do cenário político de maneira mais ativa? Será que foram apenas um modismo que não deixará sua marca nos livros de História? Ou será que foram um sinal que a democracia como a conhecemos está em declínio?

Da mesma forma, pouco sabemos sobre a relação entre os diferentes movimentos nas diversas partes do mundo. Trata-se de uma onda global de protestos ou é somente uma mera coincidência terem acontecido ao mesmo tempo? Será que as manifestações no Sul Global são diferentes do Norte? O que elas representam para o futuro da democracia?

"O voto é apenas uma das maneiras de fazer política", diz um jovem brasileiro entrevistado para o recém-lançado "Sonho Brasileiro da Política", estudo que ouviu brasileiros com idade entre 18 e 32 anos para entender o que eles pensam sobre os protestos de 2013 e como se engajam politicamente. A análise aponta que os protestos serviram como uma reafirmação e fortalecimento da cultura democrática da sociedade civil no Brasil, um país que se redemocratizou há três décadas. O estudo também mostra que os protestos deram visibilidade a um grupo de jovens politicamente ativos que trabalha fora do radar da grande mídia - muitas vezes em nível local - para transformar o país. Ao contrário daqueles que entenderam as manifestações como um sinal de um mal-estar democrático, os autores do estudo acreditam que os protestos tiveram um efeito de empoderamento político de muitos jovens brasileiros que, antes, tinham demostrado pouco interesse na política e no engajamento social. A mensagem central da análise é que a nova geração brasileira é bem mais politicamente ativa do que se pensa e do que aparenta.

No entanto, o jovem parece rejeitar as estruturas políticas tradicionais, optando por formas alternativas de fazer suas vozes serem ouvidas. O estudo revela uma quantidade impressionante de iniciativas da sociedade civil, como a "Assembleia Popular Horizontal", organizada em Belo Horizonte, que ocorre uma vez por semana desde o ano passado. Além disso, o estudo classifica os jovens de acordo com o seu grau de engajamento político. O grupo mais fascinante é o dos chamados "hackers da política", um grupo de cidadãos socialmente ativos, que são desde ativistas dos direitos LGBT, advogados que prestam assessoria jurídica gratuita aos presos durante os protestos, até ambientalistas articulados através da arte graffiti a organizadores de um "ônibus hacker", que ensina as crianças a escrever projetos legislativos e enviá-los para os vereadores. Parte dos ativistas apresentados no estudo trabalha na periferia das grandes cidades.

Outro resultado relevante do estudo é o quão pouco os jovens parecem acreditar no sistema político tradicional. Mesmo entre os jovens considerados "hackers da política", 76% não se sentem representados pelas lideranças políticas e tampouco consideram participar de partidos políticos. Para eles, os partidos não são uma plataforma adequada para desenvolver suas demandas de inclusão social, educação, políticas ambientais e combate à violência policial. No entanto, mesmo se sentindo abandonados pelo sistema político, o estudo argumenta que os hackers fortalecem a política, por exemplo, ao inventar um aplicativo que rastreia o histórico de votação de deputados, suas declarações fiscais, ou que mostra quem doou para suas campanhas. Esse fenômeno que aproxima a sociedade à esfera da política institucional é o que os autores chamam de "células democráticas". Nesse sentido, em vez de buscar o desmantelamento do sistema político, a maioria dos ativistas apresentados no estudo - muitos dos quais participaram dos protestos em 2013 - quer melhorar a qualidade da democracia procurando estabelecer um diálogo com o governo.

Entretanto, permanece o paradoxo de que as recentes eleições presidenciais do Brasil resultaram na vitória de partidos tradicionais, enquanto alternativas - como a "terceira via" de Marina - não vingaram. Na realidade, em comparação com outras democracias, como a Itália e a Alemanha, os brasileiros não elegeram nenhum "partido de protesto" no parlamento e poucos candidatos no Brasil associaram suas imagens aos protestos do ano passado.

Ainda assim, a grande quantidade de votos nos partidos tradicionais não pode esconder um forte sentimento de insatisfação com a política atual. Apesar disso, o estudo tem uma mensagem geral positiva - uma boa parte da geração de jovens brasileiros é engajada, inovadora e otimista -, podendo, assim, o ano de 2013 ser visto como uma expressão tanto de descontentamento quanto de esperança. Mesmo que os partidos políticos tenham que aprender a melhorar sua relação com aqueles que não se sentem por eles representados, os resultados do estudo trazem uma boa notícia não só para o Brasil, mas também para a democracia global como um todo.

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