OPINIÃO
09/06/2015 18:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Horrorizar-se é preciso

CARLA CARNIEL/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

Todos temos em nossas vidas episódios marcantes. Bons ou ruins, certos eventos ficam registrados em nossas consciências e nos fazem evoluir enquanto seres humanos, finitos, mas em constante aprendizado.

Aos 16 anos, passei por um desses momentos. Reparem no recorte da obra abaixo, à esquerda. Pintado pelo artista espanhol Francisco de Goya, "Saturno devorando um filho" data do início do século XIX e, até hoje, mantém sua capacidade de aterrorizar o espectador.

francisco de goya saturno devorando um filho

Durante uma aula de História da Arte, no segundo ano do ensino médio, fiz o seguinte comentário a respeito do quadro:

- Que pintura horrível! Como ISSO pode ser considerado arte?

Diante da fala incomodada de um jovem garoto, a professora, pacientemente, me colocou em xeque: qual seria, então, a função da arte? Artistas deveriam elaborar apenas aquilo que nos é aprazível? Aterem-se ao belo, ao harmônico, aquilo que nos é agradável ao olhar?

Refleti. Definitivamente, não é esse o caso. Realizadores manifestam seus próprios olhares sobre o mundo. Se suas visões não agradam ao público por razões estéticas ou morais, o problema é, na verdade, daquele que as aprecia. A obra vai para além do artista e, justamente por isso, é arte.

Acredito também que o campo artístico não é um "vale tudo". Como afirmei acima, estou convicto de que estamos em constante evolução. Com o tempo, passamos a rechaçar valores antes naturalizados - escravidão e genocídios (os das Grandes Guerras, por exemplo) são episódios extremos que escancaram a necessidade de virarmos a página e, de alguma forma, agirmos para amenizar os impactos desses momentos sombrios, ainda presentes em nossas realidades. Pintores, cineastas, poetas, romancistas e inúmeros outros pensadores tiveram e ainda têm papel fundamental nessas transformações ao nos horrorizarem com sua arte.

Dito isso, sinto-me na necessidade de comentar a polêmica da vez que tem tomado conta das redes sociais: a transexual que, em protesto contra a transfobia, pregou-se a uma cruz na última edição da Parada Gay de São Paulo, evocando claramente a crucificação de Jesus Cristo.

Enfureceram-se aqueles que interpretam o ato como "blasfêmia" ou "desrespeito" aos cristãos.

travesti_cristo

Ora, para mim, o paralelo é claro: o ato da transexual crucificada é, sobretudo, artístico. Emular a crucificação de Cristo, talvez o símbolo máximo do sofrimento em nossa cultura ocidental, é sem dúvidas uma maneira eficaz de lançar luz à violência sofrida pelos LGBTs, triste realidade registrada em relatórios oficiais, seja por ONGs ou pelo próprio governo - este, por exemplo, traz dados de 2012:

Um protesto simples, porém nevrálgico.

As reações negativas à performance da artista me dão esperança. O poder aterrorizador da arte gera repulsa, incômodo e afastamento desde muito antes da pintura de Goya ou da primeira Parada Gay realizada. Entretanto, esse arrepio na espinha é força motriz de reflexão e, a longo prazo, de mudança. É possível que, sem "Saturno devorando um filho", a arte para mim ainda se ativesse somente ao belo. Sem atos como a crucificação de uma transexual na Avenida Paulista, a Parada Gay talvez não passasse de uma grande festa que para o trânsito na volta do feriadão aos olhos daqueles que não simpatizam com o evento. Passo a passo, politizam-se os discursos e se transforma a realidade.

O debate profundo e reflexivo sobre arte se trata, na realidade, da construção de uma democracia mais madura, mais fortalecida e, sobretudo, da necessidade de se fomentar novos movimentos e atos políticos que, certamente, irão se manter para além de seu tempo. Como Goya e seu Saturno ou a cristianização de uma LGBT na Paulista, a arte nunca pode deixar de nos horrorizar. Amém.

VEJA TAMBÉM:

Fotos da Parada Gay em SP