OPINIÃO
20/07/2015 12:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A Cunha, falta coragem (e vergonha)

ALEX SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO

O dia 17 de julho de 2015 não foi fácil para o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e seus apoiadores.

Movimentos de oposição ao deputado prometeram um tuitaço e barulhaço contra seu discurso em cadeia nacional de rádio e televisão, marcado para as 20h25 dessa sexta-feira. Em reação à onda contrária, Cunha conclamou seus seguidores a um "aplausaço", atitude que, no contexto atual, não passa de uma grande forçação de barra.

Hoje as 20:25 o Presidente da Câmara, Deputado Eduardo Cunha, fará um pronunciamento em rede nacional, e as demonstraçõ...

Posted by Eduardo Cunha on Sexta, 17 de julho de 2015

Até minutos antes do pronunciamento, foram cerca de 75mil tweets com a hashtag #CunhaNaCadeia, que chegou a figurar entre os Trending Topics mundiais no Twitter.

Como jovem espectador do mundo da política, que sabe reconhecer que demorou demais para acompanhar com devida atenção as artimanhas dos poderosos, confesso não me recordar de nenhum outro pronunciamento de um presidente da Câmara dos Deputados.

Apesar de ser radicalmente contrário à maneira como o deputado Eduardo Cunha vem conduzindo os trabalhos do Congresso Nacional, não posso negar que fiquei extremamente curioso para ouvi-lo. Queria entender bem sua linha de raciocínio na condução de um mandato conservador e autoritário, além é claro de ver qual tom seria adotado em seu discurso e de que maneira ele pretenderia nos convencer de que, apesar de denúncias recentes de corrupção e de um cenário político tão controverso, ele ainda assim seria uma figura pública confiável e a favor do Brasil. Por isso, decidi me manter quieto e atento.

Vamos a sua fala:

Cunha abre discorrendo a respeito da importância histórica da construção de Brasília como símbolo da República moderna e dinâmica, feita para a confluência e bom funcionamento dos três poderes. O Congresso Nacional seria, então, o representante direto da população e que, infelizmente, foi eclipsado durante anos por uma Ditadura Militar.

Segundo ele, hoje vivemos em um ambiente democrático e o Congresso é pautado exclusivamente pelas demandas sociais, orgulhando-se de dizer que nunca antes os deputados estiveram tão conectados com a população.

Citou as votações de PLs e PECs na área de segurança, direitos trabalhistas, mudanças no Pacto Federativo, Reforma Política, Marco Regulatório da Biodiversidade, entre outros.

Com discurso lido e pouco reflexivo, Cunha jogou no colo dos espectadores uma série de ações que, no primeiro momento, enchem os olhos e os ouvidos dos mais ansiosos por mudanças rápidas. Porém, sob um olhar um pouco mais analítico, revelam-se exatamente a antítese de sua própria fala: como esperar um ambiente efetivamente democrático e republicano num Congresso em que o presidente claramente preza pela rapidez e pelo atropelamento de assuntos em detrimento ao debate amplo e, mais importante, com participação social sobre o tema?

Gabar-se durante quatro minutos de ter votado muito e debatido pouco é o que realmente o Presidente da Câmara chama de um mandato popular e que atende às demandas sociais? Dada a complexidade da crise política e econômica que vive o Brasil, basta apenas apresentar números e não promover a devida discussão em torno de temas fundamentais e que afetam a vida de cada um de nós?

Cunha tão pouco esclarece de que maneira está conectado com o povo. Aliás, que povo é esse? Não podemos nos esquecer de que ele é o presidente que se empenhou pela manutenção do financiamento empresarial de campanhas políticas, ainda que a população seja contrária à medida - como revela pesquisa do Instituto Data Folha. Contraditoriamente, em certo momento do discurso, ele se orgulha em estar ao lado da população pela redução da maioridade penal. Que interesses o fazem seguir a vontade popular em um momento e refutá-la em outro? Falta-lhe a coragem (ou a vontade) de nos esclarecer nesse sentido.

Para piorar, nem uma palavra sequer sobre corrupção. Essa que hoje talvez seja a grande pedra no sapato da política brasileira, que mina completamente a crença do eleitorado em nosso sistema político e tema do qual ele próprio é gravemente acusado. Nenhuma tomada de postura nesse sentido. Mais uma vez, onde está o representante próximo da população?

Cunha, na verdade, não passa de mais um político alheio às nossas demandas que se orgulha disso e quer nos fazer de tontos ao mostrar o "quanto trabalha". Tamanha cara-de-pau não merece um panelaço e, sim, que tomemos as ruas.

Transparência e honestidade, senhor presidente, nunca é pedir demais.