OPINIÃO
08/10/2014 09:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Família: como continuar?

ASSOCIATED PRESS
Pope Francis opens the afternoon session of a two-week synod on family issues at the Vatican, Monday, Oct. 6, 2014. Francis has urged bishops to speak their minds about contentious issues like contraception, gays, marriage and divorce at the start of the meeting aimed at making the church's teaching on family matters relevant to today's Catholics. (AP Photo/Alessandra Tarantino)

Há uma grande expectativa em relação à 3ª. assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, sobre a família, que está acontecendo no Vaticano de 5 a 19 de outubro. Muitos esperam que desta assembleia saiam soluções para os vários tipos de problemas que hoje envolvem o casamento e a família. Será que, depois do Sínodo, casamento e família ainda serão os mesmos que foram até agora?

O que, por exemplo, deveria mudar? Que o casamento deixe de ser entre duas pessoas de sexos diversos? Que o homem possa ir com todas as mulheres que queira, sem ter compromisso com nenhuma delas, nem responsabilidade pessoal e social sobre os atos praticados com ela? Que também a mulher faça a mesma coisa? Que a promiscuidade seja erigida em ideal de convívio entre homens e mulheres? Que os casais deixem de procriar? Ou que a mulher tenha que se virar sozinha com os filhos? Que os filhos sejam gerados em laboratórios e entregues à responsabilidade do Estado, sem contato com os pais?

Deveríamos resignar-nos e concordar com aqueles que dizem que a família acabou e faz parte de um tempo que já se foi? Quem olha para as crianças, os idosos, as pessoas com deficiência? O Estado ou a sociedade deveriam assumir inteiramente o papel da família? As relações de parentesco deveriam ser ignoradas? O sonho dos jovens enamorados, que querem ter família, seria apenas ilusão romântica? Deveria a Igreja mudar seu pensamento em relação à família? O exagero das perguntas é proposital, para ajudar a ver que há coisas essenciais, em relação à família, que não poderiam mudar, sem comprometer seriamente a própria existência da comunidade humana.

As questões relacionadas com a família e a casamento são, ao mesmo tempo, simples e complexas pois dizem respeito aos elementos básicos da existência humana, como a afetividade e o amor, o respeito delicado de pessoa a pessoa, a complementariedade, a vida gerada, acolhida e doada, o senso de pertença, de aconchego e de intimidade, a confidência, a aceitação da pessoa, como ela é, a gratuidade e o amor desapegado, o projeto de vida realizado juntos, a confiança, a alegria simples, a esperança... São todas coisas boas, e quem não as gostaria de ter?

Será que isso deveria mudar no casamento e na família? Se tiver que mudar, que mude para melhor ainda! Ninguém pensará em acabar com isso. Tenho a certeza de que os jovens que se enamoram de verdade e querem casar, também pensam assim. E a Igreja quer continuar a contribuir para que isso aconteça na vida dos casais e das famílias.

Em que consiste o mal-estar, tão frequente, em relação ao casamento e à família, a ponto de muitos preferirem viver como "singles"? Tem-se por vezes a impressão de que a família é terra de ninguém, onde qualquer um pode entrar, pegar, arrancar, devastar, levar embora... Ou como um campo devastado, cheio de destroços e com muitos feridos! Pobre família, tão maltratada e desprestigiada... Ao mesmo tempo, tão cobrada para assistir os órfãos de afeto, de referência e proteção, os abandonados pela sociedade dos fortes e eficientes, as vítimas do desmantelamento da própria família, esse primeiro bem, que Deus pensou para as pessoas!

O papa Francisco, ao abrir o Sínodo, no dia 05 de outubro, tomou a parábola do Evangelho sobre os "vinhateiros homicidas" (cf Mt 21,33-43), para dizer que a família é um bem precioso, que Deus confiou a todos os "administradores" e responsáveis da sociedade: dela devemos tomar conta, com muito carinho, não deixando que seja devastada por invasores e assaltantes mal intencionados... Que a ajudemos a florescer e frutificar, para o benefício da pessoa, da sociedade política e também da comunidade de fé.

Será que é a família que tem que mudar, ou são nossas atitudes em relação à família que precisam mudar? A verdade é que a família vem sendo desconfigurada há muito tempo; atualmente, parece que se chegou num momento crucial, estando em crise a própria identidade da família. Quando se coloca em xeque a diferenciação e a identidade sexual; quando se pretende que casamento também poderia ser entre pessoas do mesmo sexo; quando custa pensar que os filhos também são parte da família; quando o projeto da vida a dois parece ter perdido o interesse; quando a relação afetiva é deixada apenas à precariedade dos sentimentos e oportunidades fugazes: o que ainda sobrou da família?!

É o caso recomeçar pelo mais essencial no casamento e na família: o amor sincero e generoso, a confiança nos sentimentos bons, a fidelidade aos propósitos assumidos, a firmeza na edificação do projeto comum, a alegria partilhada, a disciplina da virtude, a fé em Deus... Para o futuro da família, é bem isso que vai continuar, pois está na própria base da família. E que Deus continue a abençoar esta obra do seu amor!

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