OPINIÃO
05/03/2014 09:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Felicidade e sustentabilidade

Só teremos um modelo de desenvolvimento sustentável se houver uma ampla reflexão pessoal e coletiva sobre a felicidade. Centrar a felicidade no consumo e no acúmulo de bens é insustentável.

A maioria dos cientistas, os indicadores e as evidências nos mostram que o atual modelo de desenvolvimento está esgotando os recursos naturais, aquecendo o planeta, dizimando a biodiversidade, derrubando nossas florestas, transformando terras férteis em desertos, poluindo o ar e as águas, aumentando a desigualdade, incentivando o desemprego e os empregos precários, fomentando a competição e a violência, solapando a democracia e a confiança nas instituições e nos governos, e baixando a qualidade de vida no campo e nas cidades.

Foi vendida para a população, instituições e governos a ideia que o caminho da felicidade passa pelo consumo, pela aquisição da roupa de grife, do carro do ano, do último modelo de celular ou do eletrodoméstico. É o consumo e o acúmulo de bens sem limites e nunca saciados que propulsionam este modelo suicida de desenvolvimento.

A Rede Nossa São Paulo desenvolveu o IRBEM (Indicadores de Referência de Bem Estar nos Municípios) para avaliar a qualidade de vida nas cidades. Para montar os indicadores, perguntou aos habitantes da cidade quais seriam os itens importantes para sua qualidade de vida. A maioria respondeu que a felicidade é ter uma boa, carinhosa e fraterna convivência com a família, os amigos e a comunidade; uma relação amorosa saudável; um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal; acesso à educação e transporte públicos de qualidade; proximidade à natureza; frequentar cinema, espetáculos musicais, teatros e museus; hospital e posto de saúde pertos de casa; melhor convivência com animais; uma vida espiritual mais rica; prática de atividades físicas e ações comunitárias e a chance de viver numa sociedade solidária e segura em que há respeito entre as pessoas e apoio às crianças, pessoas com deficiências, idosos e gestantes. A pesquisa completa pode ser acessada no site.

É claro que condições materiais razoáveis de vida são importantes e é fundamental que as políticas públicas objetivem proporcionar esta realidade para todos. Mas centrar a felicidade no consumo e no acúmulo de bens é insustentável. Ao olhar todos os apelos que hoje relacionam consumo à felicidade, é de se perguntar: como fizeram antigas gerações, antes de todas estas invenções, para serem felizes? Como fazem as pessoas sem carros ou sem últimos modelos para serem felizes? Por que muitas pessoas que têm todos estes bens são infelizes?

Ao invés de promover investimentos, atividades e empregos em atividades artísticas, culturais e educacionais que favoreçam a saúde e o bem estar físico e mental; apoiem idosos, pessoas com deficiência, crianças e populações menos favorecidas; priorizem o transporte público de qualidade; preservem a natureza; e apostem na pesquisa médica e no desenvolvimento de energias sustentáveis, concentramos nossos esforços em produzir bens de consumo que rapidamente tornamos obsoletos para podermos, enfim, consumir suas novas versões.

Só teremos um modelo de desenvolvimento sustentável - que preserve o planeta, reduza a desigualdade e promova a paz, a solidariedade e a qualidade de vida das pessoas e das futuras gerações - se houver uma ampla reflexão pessoal e coletiva sobre a felicidade, sobre o que realmente precisamos para sermos felizes. E esta reflexão pautar a vida das pessoas, empresas, instituições e governos.