OPINIÃO
26/09/2014 19:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Uma páscoa sangrenta e um circo trágico

Getty Images

As areias do deserto da Palestina ficaram para trás. Foram oito surpreendentes récitas de Salome de Richard Strauss, todas com teatro lotado, gente pelo ladrão, e uma verdadeira consagração. A estonteante Nadja Michael protagonizou, sem dúvida, o maior sucesso de uma cantora desde que John Neschling passou a conduzir o Theatro Municipal de São Paulo.

São aquelas coisas difíceis de entender. Salome é uma ópera difícil, cantada em alemão, sem árias ou canções, texto corrido e raras melodias. Strauss desenha o futuro. A filha de Herodíades não é um personagem de conquistar identidade. A corte de Herodes Antipas é decadente e promíscua. O profeta louco e ensandecido pela visão do Messias, perde a cabeça para uma menina mimada que não suporta a rejeição. Aliás, a outra motivação é ainda pior: as acusações de Yokanaan de que a mãe era uma libertina.

Mesmo uma trama tão pesada serviu para deliciar o público de São Paulo, cada vez mais afeito a ópera. É bem verdade que a Sinfônica Municipal soou como uma orquestra madura, bem conduzida por um Neschling meticuloso, totalmente a vontade na leitura da parte musical.

Aliás, a transformação da Sinfônica Municipal depois da chegada de John Neschling só tem referência igual na assunção de Willelm Mengelbert na Concertgebown de Amsterdam, que transformou um conjunto de diletantes amadores numa das maiores orquestras do mundo.

Em outubro, agora, voltamos para o bel-canto e para as paixões do verismo. Dia 18 estréia um programa dos mais clássicos da cena lírica: Cavalleria Rusticana de Mascagni e I Pagliacci de Leoncavallo. As duas são ambientadas na Sicilia e se complementam à perfeição.

A obra prima de Mascagni é uma tragédia passada numa páscoa e trata da paixão fulminante e esplendorosa de um menino bottegaio pela mulher do carroceiro. Trata-se de remontagem da mesma ópera do ano passado, que usa cenários com uma pitada de Coppola e transforma Alfio (o carroceiro) em um chefão local da máfia.

O principal papel feminino, o de Santuzza, estará a cargo da mezzo-soprano finlandesa Tuija Knihtlä, a mesma que encantou a todos com uma Amnéris espetacular na Aída na temporada passada.

Leoncavallo era um músico desconhecido em 1892, quando um jovem Toscanini decidiu dirigir a estréia no Teatro Verme, de uma ópera que reproduzia o drama de Arlequim e Colombina, mas fazia isso com um incrível reflexo com a realidade. São marcantes o prólogo do barítono (Canio) antes de subir a cena, em que ele pede licença para dizer que vai contar uma história e pede desculpas pelo realismo. A famosíssima ária Vesti la Giuba. E sem dúvida, a frase final: La commedia é finita! Que pode ser dita por Tonio (versão incorreta) ou por Canio, que afinal esta contando a história.

Walter Fraccaro e Richard Bauer vão se revezar no papel do diretor da trupe, o palhaço Tonio; as sopranos Inva Mula e Marina Considera vão viver a Colombina, Nedda, e os barítonos Angelo Vecchio e Luca Grassi viverão Canio.

O Coral Lírico Municipal vai trabalhar bastante sob a regência competente de Bruno Faccio e a Orquestra Sinfônica Municipal será regida pelo maestro Ira Levin, atual diretor musical do Colon de Buenos Aires, que dirigiu esta mesma orquestra nos anos 90.

Espetáculo inebriante sem dúvida, que deve agradar aos apreciadores da ópera italiana. Ainda há ingressos disponíveis na bilheteria ou no site.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS DIVERSÃO NO BRASIL POST:

Photo gallery9 filmes essenciais de Almodóvar See Gallery