OPINIÃO
20/06/2014 10:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Nietzsche, Strauss e Oscar Wilde brevemente em São Paulo

Os meses de julho e agosto trarão para São Paulo duas obras importantes de um dos mais característicos compositores da virada do século 19 para o século 20: o bávaro Richard Strauss. E as duas são bastante emblemáticas: a primeira é o monumental poema sinfônico Assim Falava Zarathustra e a segunda, a controvertida e abusada ópera Salomé.

Richard Strauss

Dos românticos tardios, como Mahler, Sibelius, entre outros, Strauss é o que mais flertou com a modernidade dos atonalismos, sobretudo nas óperas que compôs em parceria com o poeta Hugo von Hofmannsthal. A Salomé que veremos em agosto tem libreto de Hedwig Lachmann, foi escrita em 1905 e o texto é uma adaptação quase absoluta da peça que Oscar Wilde publicou em Paris em 1892. A partitura é um exercício rítmico tremendo, com exceção da célebre Dança dos Sete Véus, que é executada muitas vezes na sala de concertos, e que custou a cabeça do profeta João Baptista.

As óperas de Strauss tem uma peculiaridade. Todas têm nomes de mulheres, ou tratam do drama feminino. Ao contrário de seu contemporâneo, Giacomo Puccini, que também tem obsessão pelo tema, as mulheres do alemão são fortíssimas em gênio e personalidade. Sua mais famosa ópera, O Cavaleiro da Rosa, trata de um caso clássico de travestimento e da paixão incontida por um homem que se veste de mulher. Antes ele havia navegado na Elektra, depois na Ariadne na Ilha de Naxos; a magistral A Mulher sem Sombra, Helena a Egípcia e assim por diante. Ao todo, Strauss escreveu 14 óperas, que hoje, exceção ao Cavaleiro e Salomé, raramente são montadas.

Oscar Wilde

A obra sinfônica de Strauss, entretanto, é super frequente no programa das mais importantes orquestras de todo o mundo. Don Juan, Morte e Transfiguração, Assim Falava Zarathustra, Till Eulenspiegels e Vida de Herói são quase obrigatórias nos mais diversos repertórios.

O Zarathustra que Strauss musicou é o mesmo personagem criado por seu amigo Friederich Nietzsche. Se ele conseguiu colocar no pentagrama toda a força da filosofia do super-homem? É para se conferir. A introdução ficou famosa pela sua utilização no filme de Stanley Kubrick, 2001-Uma Odisséia no Espaço. Mas a música é muito mais que isso. Dá para imaginar o riscado que as madeiras da Orquestra Sinfônica Municipal vão ter que cumprir, sobretudo diante da exigência coerente de John Neschling.

A Sinfônica do Theatro Municipal apresenta Assim Falava Zarathrustra no dia 26 de julho, em uma curta temporada de concertos, antes da estréia de Salomé, em agosto.

Friederich Nietzsche

Como Mahler, Strauss também veio do púlpito do maestro. Substituiu o mitológico Hans von Bulow, de quem foi assistente. Regeu um Tannhaüser espetacular em Bayreuth, em 1894, dirigiu as óperas de Berlim e de Viena. Suas composições são exigentíssimas. Os andamentos sempre múltiplos e alternados requerem uma interação perfeita do regente com a orquestra.

Entre 1911 e 1915, ele se dedicou a uma composição quase absurda. Uma Sinfonia Alpina, com 23 movimentos, todos interligados sem qualquer interrupção. Um exercício de orquestração delirante para descrever uma excursão às montanhas: nada menos que praticamente duas orquestras, uma no palco e outra off stage, e uma parafernália de efeitos especiais como máquinas de vento e de relâmpagos. O resultado é magistral, quase metalinguístico. A música não é mais apenas o som, mas o que ela representa.

Strauss tinha adoração por Mozart, de quem era considerado um intérprete espetacular. Seus lieder mostram a extraordinária influência de Schubert e os dois concertos para trompa e orquestra (seu pai Franz Strauss era trompista da Ópera de Munique) revelam a reverência ao gênio de Salzburgo.

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