OPINIÃO
09/06/2014 08:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Mahler em dose dupla no final da Copa

Divulgação

Bom! Copa é Copa. No Brasil então. Protestos à parte será uma pachecada insuportável. Mas, nem tudo serão trevas. Como São Paulo vive um momento especial, com reconhecimento internacional pela produção de óperas e música de concerto, a cidade vai celebrar o início de julho com dois espetáculos impressionantes: domingo e segunda, 6 e 7 de julho, John Neschling (acima) sobe ao podium do Municipal para reger nada menos que a 3ª. Sinfonia de Gustav Mahler.

Na mesma segunda dia 7, em concerto da Cultura Artística, na sala São Paulo, Gustavo Dudamel (abaixo) rege a Orquestra Simon Bolivar e apresenta a 9ª. Sinfonia do mesmo Gustav Mahler.

Que extraordinário! Dois dos mais importantes regentes do mundo apresentando-se em São Paulo praticamente no mesmo dia e regendo Mahler!

Uma palavrinha sobre este extraordinário compositor boêmio, que aliás na segunda dia 7 de julho completaria 154 anos. Sobre suas origens: era judeu de nascimento, convertido ao catolicismo por conveniência. Só depois disso, aos 37 anos, foi nomeado kappellmesiter da ópera da Corte de Viena em 1897.

Antes testemunhou o apogeu wagneriano, foi amigo do ultra-tímido Anton Bruckner e era visto frequentemente com Johannes Brahms. Estudante pobre, conforme o figurino do século XIX, lecionava para sobreviver e era apontado como um virtuosi do piano.

Surpreendeu a todos e dedicou-se à regência. Em 1891, como regente titular do Teatro Municipal de Hamburgo, cunhou fama de perfeccionista e de protagonizar ensaios enormes. Mais tarde, em Viena, levava os músicos à loucura. Costumava dizer: "No plano humano faço todas as concessões; no plano artístico, nenhuma".

Este tipo de personalidade gerou composições complexas, que exigem sobremaneira tanto dos músicos, como e principalmente dos regentes. Embora não pareça, nada em Mahler é singelo ou simples. Pode ser um solo de clarinete ou um acorde de trompas. Com um agravante, desde sua primeira sinfonia (a mais executada) até a nona (a última completa, a 10ª. é inacabada) o grau de dificuldade é o mesmo. Exige um fraseado espetacular, um manejo sinfônico delicadíssimo. Qualquer equívoco gera um desastre.

A terceira e a nona são, entretanto, na minha opinião as mais complexas. Alguns regentes como, por exemplo, Lígia Amadio que hoje brilha no pódio da Filarmônica de Bogotá, apontam a quinta como a mais perfeita. Bruno Walter, apontado como seu melhor intérprete, e seu assistente em Hamburgo, foi um dos primeiros maestros a insistir em apresentá-lo publicamente, gravou pela Columbia, a 1,2,4,5 e 9. Além é claro do mais estonteante gravação do ciclo de canções Das Lied von der Erde (A Canção da Terra), com a contralto inglesa Kathleen Ferrier.

A dificuldade na execução das obras de Mahler sempre afugentou os regentes. Lembro-me de ter ouvido uma composição sua, pela primeira vez, no Theatro Municipal de São Paulo. O regente era Simon Blech, a cantora era a contralto americana Louisse Parker. E isso foi no final dos anos 60. A peça: o ciclo de canções Kindertodlieder.

Nos anos 70, o palco do Municipal ofereceu a pré-estréia paulistana da 9ª. Sinfonia. E foi mesmo um concerto de arromba. Nada menos que a Concertgebouw de Amsterdam, com o britânico Bernard Haitink no pódio.

A primeira gravação de Mahler que eu conheci era um disco obscuro, mas uma interpretação interessante da primeira sinfonia, com Erich Leinsdorf e a Sinfônica de Boston.

Mas, aí veio o filme Morte em Veneza, de Lucchino Visconti, de 1971, uma genial adaptação do livro homônimo de Thomas Mann. O diretor italiano preferiu transformar o personagem Gustav

Aschenbach em um maestro, com alguns elementos da biografia de Mahler. E, ainda usou o adágio da quinta sinfonia e o lead da terceira como base da trilha sonora.

O Aschenbach de Visconti não tem nada a ver com o verdadeiro Gustav Mahler. Mas, a associação e o sucesso da trilha sonora formaram um binômio insuportável. Haitink, Bernstein, Boulez, Solti e uma penca de outros regentes instados por suas gravadoras passaram a registrar a íntegra das sinfonias.

Mahler virou febre. Mas, nem tanto. A terceira e a oitava eram consideradas impossíveis de serem executadas em salas de concerto. Uma tem mais de 80 minutos de música, pede uma contralto ou meio soprano, coro a quatro vozes e coro infantil. A outra chamada de Sinfonia dos Mil Interpretes, dividida em duas partes, o coro Veni Creator Spirito e depois a segunda parte do Fausto de Goethe. Nada menos que oito solistas, quatro coros, orquestra com 200 integrantes. Uma loucura!

Tenho algumas idiossincrasias musicais com Mahler. Por exemplo, desconheço melhor interpretação da terceira do que a registrada pelo maestro russo Jascha Horenstein com a Filarmônica de Londres. A suavidade da quarta para mim tem na leitura de Willem Mengelbert e a Concertgebouw a melhor performance. A nona é de Bruno Walter, seus contrastes e seu detalhismo.

É claro que uma gravação é sempre uma gravação. Ao vivo ali, no pódio, dentro do ambiente sagrado da sala de concerto, a experiência é outra. Dudamel com seus rompantes e a forma grandiosa com que lê todas as partituras, certamente vai se dar muito bem, ainda mais com uma orquestra que ele domina, diria que hipnotiza, totalmente.

Quanto a John Neschling, um regente mais maduro e experiente, a terceira representa um exercício para o seu detalhismo e pela forma brilhante com que fraseia as partituras que rege. Quanto a Sinfônica Municipal de São Paulo está atingindo um nível de excelência e personalidade impressionantes.

Será um banho de música! Um atestado claro que a cidade de São Paulo está definitivamente inserida no rol das metrópoles mundiais que mais produzem música e música de qualidade. Nos dias 19 e 20 de julho, depois da Copa, o violoncelista Mário Brunello vai executar com o maestro Alexander Sladkovsky o Concerto para Violoncelo em Si Menor de Antonin Dvorak. Depois Neschling arrebenta a boca do balão de novo e exige da Sinfônica Municipal nada menos que o poema sinfônico Assim Falava Zarathustra, de Richard Strauss. No dia 27, a Orquestra Experimental de Repertório, com Carlos Moreno e o violinista Daniel Guedes apresentam o Concerto para Violino em Ré Menor, de Jean Sibelius.

Em agosto, Neschling e a Sinfônica voltam para o fosso do teatro para apresentar a Salomé, de Richard Strauss.

É bom correr para as bilheterias. Ultimamente uma singela galeria do teatro é mais disputada que um ingresso no Itaquerão.

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